BLOG FECHADO

16
Abr 10

A primeira flor de cerejeira abriu-se na sua graciosidade cor-de-rosa, deixando as cinco pétalas divergirem elegantemente da madeira verde até tocarem no ramo escuro da árvore, revelando um odor limpo e suave a uma infância que havia pertencido a alguém. A casa junto ao lago, porém, manteve-se indiferente à real chegada da Primavera, conservando o aspecto rústico e, no entanto, magistral que emanava da escuridão das suas paredes. A sua figura fantasmagórica reflectia-se na superfície límpida e metálica da água, a qual lambia preguiçosamente a areia grossa e granítica que antecedia o denso matagal. Um pequeno barco de madeira embatia suavemente com a ondulação contra os suportes do porto improvisado a oitenta metros da habitação. Na dormência madrigal, tudo parecia abandonado e cinzento, à excepção da primeira flor de cerejeira, que impunha timidamente a sua cor contra a frieza da restante vegetação. No entanto, quando dois grossos raios de luz furaram o ar adormecido e percorreram solo e água à velocidade melíflua de quem não tem pressa, todo o vale pareceu ganhar vida com um brilho viçoso e verde. Na camada jovem de erva húmida do orvalho, refulgiram pequenas flores brancas e amarelas imóveis na imensidão primaveril.

Os passos decididos de Leni furaram o caminho que se alongava na orla da floresta, sobre a areia malhada e ainda húmida do avanço da água lacustre. O som arrastado dos seus pés rasou o silêncio e fez dele parte do passado, um passado recente e doce marcado pela deliciosa humidade matinal.

 

 

 

(Excerto do meu novo trabalho, A Casa do Lago.)

publicado por Katerina K. às 17:12

10
Abr 10

Pousaste a aliança em cima da mesa da cozinha e sentaste-te. Eu perguntei como ela estava, mas tu não quiseste falar sobre o assunto. Apoiaste os cotovelos no tampo da mesa e disseste que o tempo nem sempre era nosso. Eu sabia que tinhas razão; o tempo nunca foi nosso, era sempre dos outros. Eu via-o, a entrar dos relógios, a dançar em volta dos ponteiros, a transformar-se em números e em gotas de consciência. Mas nunca era nosso.

Suspiraste, da maneira que apenas suspiras quando estás em minha casa com a aliança pousada em cima da mesa da cozinha. Tu gostavas muito dela, porque ela tinha olhos verdes e eu não, porque ela era mais velha e sabia coisas que eu nunca aprendera. Tu sonhavas com ela e não comigo. No entanto, a aliança estava ali, sobre a mesa, a olhar para ti e para mim com o seu olho de ar e ouro, cada vez mais fria.

Lembras-te?, disseste.

Eu lembrava-me de muita coisa, mas eu sabia a que te referias. Era a única coisa que eu guardava no sítio vivo da memória.

Sim.

Eu também.

Comigo, tu procuravas o silêncio.

Viste a minha máquina fotográfica em cima do balcão, lambeste os lábios.

Fotografa-me, pediste.

Porquê?

Quero que fiques com a minha alma, que a guardes. Ela é demasiado pesada para eu a levar comigo embora. Não sou a mesma pessoa quando volto a casa; sou a pessoa dela, a pessoa que ela tem como garantida. E essa pessoa não sou eu, é o outro que vive dentro de mim e passeia pela casa de mão dada com a minha sombra. Assim sei que só sou eu fora daquela casa, que só sou eu contigo. Há mais alma nas minhas mãos do que em todo o corpo dela; se calhar até é isso que me atrai tanto. Sempre procurei alguém a quem pudesse preencher com a minha alma e ela é assim; é dura, tem um carácter tão diferente do meu. Talvez seja por isso que gosto tanto dela. Mas quero que fiques com a minha alma.

Levantaste-te e, lentamente, desapertaste os botões da camisa. O tecido caiu no chão, inanimado e leve, como a pena de uma cegonha que acabou de ser mãe.

A minha alma está aqui.

Apontaste para o peito, macio e dourado, o mesmo peito sobre o qual eu havia dormido tantas noites sem sonhos.

Está aqui, algures. Perto do coração, à volta dele, no seu interior, a borbulhar. Algures. Procura-a; tira-a. Ainda pode nevar hoje.

Disse-te que estávamos na Primavera, que não ia nevar.

Pode nevar dentro de mim.

Ficaste reflectido na lente, com a decomposição colorida da luz do sol. Tinhas os lábios entreabertos, os ombros descaídos, os braços languidamente estendidos ao longo do corpo. Havia sombras nos teus olhos.

Agora guarda-a, que vem aí a neve. Já, não, mas ainda hoje; quando chegar a casa.

Pegaste na minha mão e seguraste-a dentro da tua.

Houve fotografias e a tua aliança em cima da mesa.

publicado por Katerina K. às 12:16

27
Mar 10

Depois de ele sair, eu recebi um telefonema da Lilith.

Ele já saiu?

Sim, respondi, Nem há dois minutos.

Raios, disse a Lilith, e ouvi que atirou alguma coisa ao chão, Vou ter de ligar para casa do Fraser e esperar que eles já tenham chegado.

Daqui a umas horas eles já devem estar ensopados em cerveja a jogar dominó.

Ela soltou uma gargalhada estridente.

Sabes, por incrível que pareça, sinto falta dos jogos de póquer. Ganhavas sempre, nunca entendi como conseguias ser uma jogadora tão boa.

Eu não podia negar que ela tinha razão.

Ele e o Fraser, depois das onze da noite, deixavam de ser pessoas e eram assassinos. Os olhos deles ficavam diferentes, enchiam-se de uma névoa vermelha, dos rostos das pessoas a quem eles tinham tirado a vida. Mas eu não gostava de saber dos negócios do Esquadrão. Eles eram quatro: a Lilith, o Fraser, o Mutt e o meu Metello. O Metello que tinha acabado de sair pela porta com a promessa de trazer cigarros e conhaque.

Bem, vou a casa do Mutt.

Muito bem, disse eu, Não te esqueças de ligar para casa do Fraser.

Como me poderia esquecer?

Esqueces-te de muita coisa quando o Fraser está em questão.

Bah, grunhiu a Lilith, Depois de sete anos a viver e matar com ele, até quero esquecer-me.

Não sejas cruel, Lil.

Eu ganho a vida a ser cruel, querida. Bem, vou desligar. Há muitas pessoas mortas por chegar à morte.

E desligou.

Procurei o isqueiro que o Metello me tinha oferecido quando fiz dezasseis anos. Ele disse-me que eu estava cada vez mais perto de morrer; acelerar a viagem era um bónus. Eu acendia os cigarros com aquele isqueiro há vinte anos, e a vida não me parecia passar mais rápido. Encontrei-o no bolso do meu casaco branco, o casaco que o Metello não queria que eu usasse porque me fazia um alvo demasiado fácil. Percebi o quanto a minha vida estava condicionada por aquilo que o Metello queria ou não; mas eu estava disposta a isso, desde que ele viesse ter comigo e trouxesse conhaque.

Olhei para a cozinha; não me podia esquecer de comprar leite, ele ia querer beber quando chegasse a casa.

publicado por Katerina K. às 21:43

24
Mar 10

Abri a porta do carro e o Fraser estava a tossir. Ofereci-lhe um lenço, ele limpou os lábios e entalou um cigarro na boca. Ele disse que um polícia tinha vindo para o multar porque o carro estava estacionado em cima do passeio, mas que tinha passado uma nota de cinquenta pela fresta da janela e que o homem tinha ido embora com as mãos nos bolsos e a assobiar.

Como é que ela está?

Igual, respondi, Continua a cheirar bem.

O Fraser riu-se, disse qualquer coisa a propósito das mulheres terem todas um cheiro diferente e arrancou.

Falaste com a Lilith?

O Fraser fungou. Ele não gostava da Lilith porque ela era uma mulher bonita e as mulheres bonitas intimidavam-no. Ele tinha medo que elas lhe roubassem a Razão e a usassem para fazer vestidos.

Liguei-lhe ontem à noite. Ela disse que as coisas estavam prontas para quando tu as quisesses.

Óptimo.

O Fraser e a Lilith já tinham sido casados. Mesmo nessa altura, ele não gostava dela, porque achava que os homens olhavam demais. A filha deles era tão parecida com o Fraser que eu chegava a pensar que ele a tinha concebido sozinho.

Ele estalou a língua e empurrou a alavanca das mudanças.

Era relativamente cedo, não havia ainda movimento nas ruas; o silêncio era tão terrível que me pareceu, por momentos, que estava surdo. Liguei o rádio e a onda de rock clássico fez o Fraser saltar no banco. Ele olhou para mim e fez uma pergunta.

O quê? Não ouvi.

Perguntei se gostavas disso.

Gosto.

Ah.

Desliguei o rádio.

Pus-me a olhar para o Fraser. O bigode dele, empoleirado sobre o lábio superior, era tão fino e tão preto que me parecia feito de pólvora. No entanto, não estava penteado, e eu soube que alguma coisa não estava bem.

Não penteaste o bigode. O que se passa?

Ele ficou agitado. Percebi isso porque ele deixou cair o cigarro e se vergou para o apanhar.

Estou nervoso. Isto pode não correr bem.

Encolhi os ombros.

Vai correr bem. A Lilith e o Mutt tratam das coisas, nós só temos de apertar o gatilho.

O Fraser mordeu o cigarro e disse dois palavrões quando o semáforo ficou vermelho.

Oxalá tenhas razão.

Voltei a ligar o rádio.

publicado por Katerina K. às 21:01

22
Mar 10

Continuação do meu trabalho anterior.

 

 

A pele dela era suave e cor de pérola. Eu devia ter medo de a magoar, mas não tinha, porque eu sabia que ela não era como as outras mulheres. A dormir, ela nem parecia uma mulher; era tudo irrelevante face à calma suprema da sua respiração. O peito ebúrneo oscilava com a inspiração e expiração. A imperfeição dela era tão grande; isso agradava-me, especialmente quando as luzes se apagavam. Eu amava-a, não a ela, mas à personagem que tinha criado dela, à figura quente que estremecia debaixo de mim. Nesses momentos, era bom.

Eu ia ter com ela quando perdia o pensamento. Eu sabia que ela estava à minha espera, com um cigarro entre os dedos e sem maquilhagem, enterrada no sofá da saleta com um livro aberto sobre as pernas e um vinil a rodar no gira-discos. Eu pousava o sobretudo no cabide, mordia a ponta do Marlboro e fechava a porta atrás de mim.

As noites eram todas diferentes; pelo menos eu era uma pessoa diferente de cada vez que ia ter com ela. Às vezes as coisas pareciam-me mais simples, mas eu sabia que não eram. Debaixo do braço cálido dela, tudo era simples. E eu queria que fosse.

Naquele dia, depois de ela me ter apertado os botões da camisa, a úlcera doeu-me. Bebi um golo de leite e o líquido amaciou-me o estômago, mas a dor foi tão intensa que caí na cama de bruços. Ela acendeu um cigarro.

Tens de ir ao médico.

Para quê? Eu sei o que tenho, não preciso de médicos.

Vai ao médico, tantas dores não são normais.

E tu agora é que sabes o que é normal ou não?

Sei mais que tu.

Silêncio.

Não gosto de discutir contigo.

Eu sei, respondi.

Ela vestiu-se, apesar de eu gostar mais dela de manhã. Agarrei-lhe a ponta da saia e puxei-a para mim. Ela atirou a cinza do cigarro para cima de mim e passou-me a mão pelo cabelo.

Estás atrasado para o trabalho. Até amanhã.

A noite vai estar fria.

Traz mais cigarros, então. E conhaque.

 

 

 

 

 

 

Edit:

Estes dois textos são pertencentes a uma pequena série chamada Pássaro Azul. Brevemente postarei mais.

publicado por Katerina K. às 21:29

20
Mar 10

Quando acordei, ele estava encostado à janela a fumar lentamente um Marlboro. Contra a claridade, ele era só uma sombra negra e disforme, hirta e fria como a manhã que nascia atrás dos prédios com um laivo branco de luz. Eu sabia que ele estava a falar consigo mesmo; soltava o fumo pelo nariz e saboreava a nicotina de forma tão lânguida que se tornava imperceptível. Tinha vestido as calças e apertado o cinto, mas o peito moreno continuava a formar texturas doces com a luz. Depois do silêncio, ele começou a falar comigo com os olhos. Fez o indicador deslizar calmamente sobre a superfície branca do cigarro e passou a língua pela sua extremidade. Atirou a cinza para a varanda; tossiu roucamente. Uma pomba gorda roçou na janela e deixou penas pelo caminho.

Há leite?, perguntou ele.

Não sei, respondi, Acho que no frigorífico há ainda uma garrafa.

Ele apagou o cigarro no cinzeiro e arrastou os pés pela carpete.

Maldita úlcera.

Ele resmungava muito consigo mesmo, com quem ele nunca tinha conhecido e com as pessoas que já tinham morrido. Quando vinha ter comigo, eu sabia que ele conhecia toda a gente e que estavam todos vivos; e que ele já não sabia quem era. Eu abraçava-o e dizia que ele era o homem que fazia coisas.

Eu não faço; desfaço.

Eu assentia e beijava-o.

De manhã, ele já sabia de novo quem era; fumava dois cigarros e bebia leite por causa da úlcera, chateava-se por não gostar dos lençóis. Dizia que eu parecia mais alta se usasse o vestido que a minha irmã me tinha dado e pedia para eu o ajudar a apertar os botões da camisa.

Como está o teu irmão?, perguntei.

Ele acendeu o segundo cigarro.

Na mesma, acho eu. No seu canto, onde não chateia ninguém.

Não devias ser assim com ele.

E tu não te devias meter nos assuntos dos outros.

Bateu com a porta do frigorífico e deu um pontapé na cómoda.

Aperta-me a camisa, pediu.

publicado por Katerina K. às 13:36

08
Mar 10

                 Havia uma serenidade no rosto dele que eu não conseguia compreender. Havia um sorriso, um sorriso tão frágil que parecia perder cor à medida que os segundos passavam por ele em fuga acidental. Por instantes, as coisas paravam. As coisas perdiam importância. As coisas eram apenas coisas e não mais que coisas. Tudo tinha o sabor longínquo e dourado do Verão perdido nas memórias e dos reflexos do oceano ao amanhecer. Recordações transformadas em fiapos, enroladas à volta da cintura, amarradas nos cabelos, agitadas na brisa perpétua dos princípios do sempre.

                No rosto dele eu encontrava as frases que ele dizia em silêncio. Não havia espaços vazios, apenas a melíflua porosidade da existência. Perguntei-lhe se na serenidade dele haviam segredos.

                - Não, só há palavras invisíveis. Tu compreendes, sabes como é quando há palavras que não se vêm mas tu sabes que estão lá, queimadas nas tuas mãos e nas mãos das outras pessoas. Escondidas nas pontas dos sorrisos. Tu sabes que elas existem, mas não o podes provar, porque só sentes que elas te ardem no fundo do peito. Não há segredos; esses vêm-se, são da cor da pele e ficam pálidos quando alguém os beija.

                Perguntei-lhe porque é que ele não beijava os meus segredos.

                - Porque eles não sabem que eu existo. Se eu os beijasse, já não seriam segredos.

                Então seriam o quê?

                - Coisas beijadas.

                E os meus lábios?

                - Esses não são segredos. Esses sabem que eu existo, porque me vêm e me sentem. Falam-me e contam-me coisas que nem tu sabes.

                Coisas sobre a tua serenidade?

                - Também. E segredos.

                Eu não os vejo.

                - Porque és pessoa, e as pessoas não vêm segredos.

                Disseste que os segredos se viam.

                - Eu vejo os segredos. Mas eu não sou pessoa, sou uma palavra invisível.

                Beijei-lhe os olhos e ele deixou-me dormir ao lado dele.

publicado por Katerina K. às 22:23

28
Fev 10

             A Rainha está parada. No entanto, continuo a escrever, a atirar ideias para o ar e deixá-las cair no papel desorganizadamente. Aqui fica mais um dos produtos dessas divagações:


                A estrada parecia cada vez mais longa. O asfalto molhado corria severamente sob os seus pés, intocado e negro como corvos, ainda tépido da passagem rasteira das rodas dos carros. Sentia o bater do coração nas têmporas, ritmado e duro, a fazer as gordas gotas de suor ressaltar na pele da testa. E o som da sua respiração ofegante, pulsando surdamente nos ouvidos, dilacerava o silêncio. As luzes da cidade ficavam cada vez mais pequenas, até se transformarem em pontos frios e intermitentes que furavam a escuridão nocturna, bruxuleando no céu roxo.

                Artem Domashevich deixou o vento empurrar-lhe a corrida, embalando-o com uma velocidade espectral. Já não sentia as pernas; os músculos contraíam-se-lhe e o suor escorria-lhe pelos sulcos da pele, a qual exalava um vapor raso e cinzento. A nuvem de condensação causada pela respiração pesada bailava-lhe na frente do rosto, sendo ocasionalmente desfeita pelo movimento. Os cabelos loiros colavam-se-lhe à testa baixa e pálida, embebidos em suor líquido e escorregadio. A camisola húmida marcava-lhe os contornos dos abdominais excepcionalmente bem definidos e dos bíceps fortes e férreos. Os seus olhos, os quais, apesar de serem de um poderoso azul metálico, eram revestidos por uma camada negra que lhe trespassava a alma. Uma gota de suor escorreu-lhe pela testa e deslizou sobre a ponte do nariz ligeiramente aquilino. As suas feições pujantes e bem demarcadas enchiam-lhe o rosto de uma sensação exótica e gélida. Era um homem atraente, de forma quase magnética, sólida e desorientadoramente maciça, como um boneco de cera demasiado real.

Artem gostava de correr depois de a noite já ter caído. Encontrava na frieza nocturna algo que lhe lembrava S. Petersburgo, a sua cidade natal. Não havia luzes, não havia cidade, apenas o lento compasso noctívago que nascia no momento em que o lusco-fusco eclodia sobre as nuvens latentes. Faltava-lhe apenas o toque taciturno e branco da neve, desenhando camadas longas e finas sobre o horizonte.

A estrada continuava a estender-se até ao nó do universo, firme no berço onde tinha sido escavada. Ao fundo da noite, na dobra do céu, um quadrado luminoso deslizou sobre a sombra dos braços nus e secos das árvores. A névoa levantou-se, e um edifício alto do estilo eduardiano, bordado de varandins brancos, beijou a ponta da estrada. A luz de uma lareira crepitava através de uma das janelas do primeiro andar, recortando sombras numa parede afastada. Artem abrandou o passo, acabando por parar a uma distância confortável da casa. Reconheceu a sombra delgada de Wynn no nevoeiro quente e rósea do fogo. Foi obrigado a esboçar um sorriso. Para além de uma mulher bonita, Wynn era intrigante. Detentora de um rosto alto e inteligente, faces brancas e braços imaculados, um pescoço comprido e elegante, a bailarina agitava-se entre tules e sedas como se disso dependesse o resto inexistente do presente. A sua aparência frágil escondia uma poderosa força física e psicológica, salpicada de Tchaikovsky e Prokofiev, de frases soltas de ballets perdidos nos recantos da sua vida. E desapareceu na névoa fogosa das janelas.

Artem fechou os olhos e imaginou como seria uma noite com sol.

publicado por Katerina K. às 23:18

14
Fev 10

 Já há algum tempo que queria voltar a escrever sobre a minha personagem mais popular, o Anjo. Para quem não conhece, o Anjo é o co-protagonista dos dois primeiros contos que publiquei no meu blog: O Rapaz Cor de Luz e Brisa Marítima, respectivamente. Então, enquanto vocês esperam por um novo capítulo d'A Rainha, decidi escrever um pequeno texto, quase uma antecipação, daquilo que planeio escrever mais tarde. Aqui têm «Deixa-me o teu sabor».


 

 

            As manhãs estivais eram todas diferentes. Havia calor no céu, a fazer desenhos rúbeos entre as nuvens cor de pele e a luz fina que parecia vir de qualquer estrela transcendente que afinal não existia. A claridade que entrava no quarto nunca era a mesma, apesar de tépida e cor de caramelo. Nessa manhã, as portas de vidro da varanda estavam abertas de par em par e as cortinas adejavam, de forma quase imperceptível, com a brisa macia e calma da infância do dia. Não havia maior silêncio do que o da pausa que o tempo sofria no momento em que o sol espreitava sobre as nuvens e o seu olho luminoso se alçava na abóbada do céu, com os pássaros debaixo do braço. Eu ficava a observar o dia, apenas a fitar um ponto vivo do horizonte, o qual havia perdido a sua linha e se havia fundido com a imensidão da terra. E havia a maior ausência de som que o silêncio podia conceber.

            Ouvi-o a abrir a porta. Ele fazia-o sempre da mesma maneira, empurrando-a gentilmente com o ombro e ficando no umbral, hirto, como se não soubesse falar. Ele sabia que eu estava acordada; havia algo de curioso na minha respiração quando eu dormia, e o Anjo reconhecia todas as pequenas peculiaridades da minha existência. Lentamente, caminhou sobre a carpete, como um felino de movimentos graciosos a observar a savana pelas fendas da erva alta e seca. Percebi que ele passou por mim quando o cheiro do seu perfume, frio e doce, desenhou um sulco dentro de mim. Abri os olhos. Lá estava o Anjo, alto e esbelto, recortado contra a luz morna que o céu oferecia. A sua pele branca refulgiu quando um raio de sol esticou os seus braços áureos até ele, trespassando-lhe os olhos. Nestes flutuaram laivos de cor, alguns quentes, outros gélidos, que se abraçavam numa simbiose perpétua e do tamanho do milénio. Havia ali cores perdidas que ainda não se conheciam mas eu aprendera a reconhecer, lentamente, quando entre mim e ele só havia luz e respiração. O Anjo era belo, belo como algo que é imutável e nunca conheceu outra realidade para além da perfeição. O rosto magro e os lábios pálidos encontravam-se imóveis, mas percebi que ele sorria com os olhos, fazendo as maçãs do rosto subir apenas muito ligeiramente, de forma quase imperceptível. Compreendi que ele não estava a olhar para mim, mas através de mim, como se tentasse absorver aquilo que eu estava a pensar.

            - Bom dia. – disse eu.

            O Anjo apoiou-se na perna esquerda e inseriu as mãos nos bolsos das calças.

            - Está uma bela manhã. – replicou, e os seus olhos ficaram cinzentos.

            Apesar de a voz do Anjo ser calma e melodiosa, ele falava comigo sempre sem expressão. Com os outros, não era a mesma coisa; ele era mestre da ironia e do sarcasmo monocórdico, tal como todos os seus irmãos. No entanto, o Anjo fazia-o com uma graciosidade e classe que ultrapassavam os limites do meu entendimento.

            - Hoje vai ser um dia interessante. – disse, enquanto se sentava na borda da cama.

            No último ano que eu passara com ele, nunca o tinha ouvido a fazer uma previsão que fosse. Isto porque o Anjo se guiava pela racionalidade pura e extrema, onde apenas o presente era certo e o futuro, em si, não existia, porque o futuro são projecções dos sonhos e das esperanças vãs dos momentos em que o passado é demasiado duro. Mas ali estava ele, a dizer que aquele ia ser um dia interessante.

            Ergui o braço para lhe afastar um cabelo do rosto e ele agarrou-me a mão, passando as pontas dos dedos compridos por ela. Depois, demoradamente, baixou o meu braço, mantendo a sua garra marmórea em volta do meu pulso.

            - O que se passa, Anjo?

            Ele sorriu, provavelmente sem humor. Soube imediatamente que o que quer que fosse que tivesse acontecido, não o deixara particularmente satisfeito.

            - O Francisco.

            Há meses que eu não via o Francisco, especialmente desde que a escola começara e ele fora mandado para Londres. No entanto, não havia forma de esquecer aqueles grandes e gélidos olhos azuis a olhar através da fenda da porta, lançando-me flechas invisíveis e incendiadas que me dilaceravam a alma. Ele invejava-me pelo imensurável afecto que o Anjo, apesar de não o demonstrar abertamente, nutria por mim. No entanto, era maior o ódio que ele cultivava pelo Anjo por se ter deixado levar nesse afecto. O Anjo dissera-me, uma vez, que o Francisco se escondia dentro de si mesmo, e que me queria esconder num lugar onde apenas ele me pudesse odiar e amar simultaneamente. Eu tive dificuldade em acreditar. No entanto, o olhar frio daquele rapaz deixava-me a pensar se o Anjo teria razão. Era provável.

            - O que tem o Francisco?

            - Ele volta hoje, Joana.

            Senti medo, um medo glacial que me deixou impotente face ao facto de aquele olhar cruel estar de novo atrás da porta.

            - O que vais fazer?

            - Não sei. Mas dorme, por favor. – disse isto enquanto empurrava a minha cabeça suavemente de encontro à almofada.

            Levantou-se, vergou-se sobre mim e beijou-me nos lábios rapidamente antes de abandonar o quarto e fechar a porta. Não tardei a ouvir o piano, suplicando das profundezas do estúdio em cadências mornas. Não consegui dormir mais, na expectativa de que aqueles olhos azuis me aparecessem em sonhos.

            No entanto, o sabor do Anjo ficou nos meus lábios.

 

publicado por Katerina K. às 17:35

10
Fev 10

                 Dexter pousou o prato sujo na bancada da cozinha e passou os talheres por água, lentamente, a ver o líquido saltar sobre o metal refulgente. Com um movimento de pulso, empurrou a torneira e o fio transparente que corria até à superfície do lavatório cessou. Limpou a humidade das mãos a uma toalha que pendia da parede e abriu a porta do frigorífico. Uma vaga de ar gélido mordeu-lhe o pescoço e os braços. Perguntou-se como o irmão podia um frigorífico tão vazio; apenas uma lata de soda e uma cenoura solitária se arrastavam nos fundos de uma prateleira. Dexter fechou a porta do electrodoméstico e, através do arco que separava a cozinha do resto da casa, observou a amplidão da sala. O apartamento de Sawyer Hayden, estrategicamente situado no coração de Washington, era alvo de uma luz branca e plana que se reflectia em todos os outros edifícios e entrava pela ampla janela panorâmica em vários ângulos macios e coloridos que se afastavam e subiam pelas paredes. Dexter encostou-se à parede e cruzou os braços com algum esforço; a ligadura apertou-lhe a pele e fez uma pressão tépida sobre o músculo. Ainda lhe custava a acreditar que o irmão, o eterno homem sem pátria, tivesse voltado a casa. Sabia que aquilo que tinha vindo fazer, os assuntos que viera finalmente resolver, mexiam com ele e levavam-no a misturar realidade com ficção. Dexter lembrava-se demasiado vividamente do dia em que o irmão havia sido alvejado. O sangue, tanto sangue. Era fascinante que um líquido tão vermelho, tão refulgente, fizesse a vida tal como ela é. No entanto, no caso de Sawyer, à medida que aquele líquido tão cristalinamente belo corria livremente ao ar ambiente, o homem perdia cor e os seus lábios ficavam frios e secos. A vida desaparecia, como neve debaixo do sol.

                Dexter só se apercebeu da campainha alguns minutos depois de esta ter tocado, insistentemente. De volta à realidade, perguntou-se se alguém saberia que Sawyer estava de volta a Washington. Perguntou-se se A Rainha saberia.

                O homem atravessou a sala, destrancou a porta de entrada e abriu-a.

                - Dexter. Querido Dexter.

                Um par de braços nus, elegantes e pálidos envolveram-lhe o pescoço num laço estreito e quente como fogo. O rosto de Dexter ficou mergulhado numa densa cabeleira negra que cheirava estranhamente a fruta. Ouviu o inusitado tilintar de uns brincos metálicos, de muitos brincos metálicos.

                - Tive tantas saudades tuas, Dex. Nem imaginas.

                - Marianne. – e envolveu-a mais no seu abraço.

                O coração enterrou-se-lhe no peito e vibrou com o pulsar da sensação que lhe percorria as veias. Era como se ela, por alguma ligação simbiótica, o injectasse com uma ardente energia. E o sabor desse poder cresceu dentro dele, igualando o desejo de a ter.

                Marianne libertou-se do abraço e afastou o cabelo do rosto de forma lenta, quase meticulosa. Colocou as mãos em volta dos bíceps de Dexter e respirou profundamente.

                - Não apertes com muita força. – disse ele – Estou magoado.

                Ela recolheu aos mãos rapidamente e dispô-las em cruz sobre o peito.

                - Desculpa, Dex. Realmente o teu irmão tinha-me avisado, mas esqueci-me. Desculpa.

                - O meu irmão? Estiveste com o Sawyer?!

                Ela baixou o rosto. Percebeu imediatamente depois de ter falado que provavelmente teria sido melhor não ter feito aquele reparo. Isto porque Dexter, apesar de idolatrar o irmão até níveis excessivos, até perigosamente elevados, nutria uma certa inveja por ele. Sawyer era o típico dominador, o homem forte que recolhia todas as energias dos outros e as emitia amplificadas. O homem que iluminava o mundo com uma palavra apenas porque era sua. O homem que todos queriam ser. Marianne conhecia-os, bem demais. No entanto, não podia negar que, apesar de nutrir maior afecto por Dexter, Sawyer causava nela outro tipo de emoção, baseada na curiosidade e intriga em relação àquele homem de mil faces que lhe lançava um olhar em branco, à espera de ser preenchido.

                - Estive, sim. – respondeu – Foi só um minuto, para discutirmos um caso. Ou pseudo-caso.

                - A Rainha?

                - Mais ou menos, é complicado.

                Dexter meneou a cabeça.

                - O Sawyer também diz isso muitas vezes. É complicado. Talvez não seja assim tão complicado.

                - Oh, Dex, não sejas assim, já me basta o teu irmão. E não vim aqui para discutir; vim porque tinha saudades e queria passar tempo contigo. Mas, se quiseres, eu vou-me embora.

                - Não. – disse ele, num curto fio de voz – Não vás. Fica.

                Um segundo de macio silêncio. Marianne sorriu.

                - Muito bem, então. Fecha a porta.

 

 

 

 

 

Edit:

A Rita (from Electric Twist) passou-me um desafio. E eu não ia dizer que não, como é obvious.

Enunciar 5 manias suas, hábitos muitos pessoais. E além de dar ao público conhecimento dessas particularidades, tem de escolher 5 bloguistas para entrarem, igualmente, no jogo. Cada participante deve produzir este regulamento no seu blogue.

 

Mania nº 1 - Escrever. Calculo que não seja grande surpresa, mas estou sempre a escrever. Maior parte das vezes são coisas grandiosamente idióticas, tal como novelas de nome «Sangue no Colarinho» ou «Laços de Paixão Ardente», mas de vez em quando saem coisas engraçadas. É a minha maneira de falar com o mundo.

Mania nº 2 - Falar sozinha. Esta mania é consequente da mania nº1. Quando não posso escrever, faço notas mentais, e falar comigo mesma é uma fonte fabulosa e sempre fértil de diálogos incrivelmente interessantes.

Mania nº 3 - Beber café. Não passo sem o meu cafezinho às dez da manhã. O acto de ir à máquina, passar o cartão e carregar no botãozinho do «café expresso» já se tornou um hábito tão intrínseco como respirar.

Mania nº 4 - Pintar as unhas. É estúpido, eu sei, e parece incrivelmente «pitês», mas eu sou viciada. Tenho, sem exagerar, dezenas de vernizes nas prateleiras da casa de banho e do meu quarto, começando no preto, passando pelo vermelho, pelo verde, laranja, amarelo, rosa, azul, até acabar no branco. Relaxa-me, e fico com uns dedos infinitamente mais fascinantes.

Mania nº 5 - Cantar nas horas entre as aulas de música. Esta mania é tradição. Há anos que, nos intervalos da Academia, a minha turma (somos 6) se junta em volta de um piano. É incrível, a sério. Tenho imensas memórias boas desses momentos. Recentemente, andamos ocupados a fazer covers dos covers do Glee.

 

 

E passo o desafio a:

Mariana*

Sophie (dona do Endlessly)

Mia

Ritaa

Kii

publicado por Katerina K. às 22:52

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