BLOG FECHADO

11
Ago 08

A dor desaparecia, David desceu as escadas com alguma dificuldade e olhou pela janela da sala de estar para descobrir de onde viera o som do tiro. Sorriu.

Alexandre Kerenkov aproximava-se da casa, o revólter Colt com o qual anunciara a sua chegada brilhando-lhe na mão. As botas enlameadas roçavam contra a terra do caminho e o sobretudo comprido pingava para o chão. O cabelo claro caía-lhe sobre a testa em farripas molhadas pelas quais passou a mão de dedos compridos. Os seus olhos esverdeados demonstravam cansaço da longa viagem que tivera de fazer para chegar aos Açores, ali, à ilha de S. Miguel. Alexandre, apesar de ter apelido russo, era bem português. A mãe conhecera o pai quando fora à Rússia visitar um tio e voltaram ambos para Portugal. As feições russas estavam bem marcadas na face de Alexandre, qualquer um o confundiria com o pai.

David abriu a porta das traseiras para o recém-chegado entrar e deixou-se estar encostado à ombreira. Alexandre aproximou-se dele com um sorriso curioso nos lábios. Então, disse:

                     - David, há quanto tempo! Estás a ficar um homem!

O rapaz riu-se e, na sua voz meia agridoce, convidou o visitante a entrar. A cozinha revestia-se de azulejos azuis e brancos de temas florais. Os armários de madeira tinham sido pintados de branco há pouco tempo pois, segundo Isabel, ficava melhor assim. Por isso, Simão Pedro passara uma manhã inteira a lixar e uma tarde a pintar para os armários ficarem tão bonitos.

Kerenkov pousou a mochila que trazia a ombro no chão, encostada à parede, perto da porta da sala.

                     - Queres tomar alguma coisa, Alex?

                     - Por acaso estou esfomeado e cheio de sede, mas prefiro esperar pelo jantar.

                     - Isso é capaz de demorar. Há café e pão se quiseres.

                     - Um café sabia bem agora, sim.

                     - Eu vou fazer, então.

                     - Obrigado. Já sabes como gosto dele, bem quente e...

                    - Sem açúcar. Sim, ainda me lembro.

Pegando na cafeteira, encheu-a de água da torneira e colocou-a ao lume, no fogão. Nesse momento, Isabel irrompeu na cozinha, os seus olhos brilhando. No entanto, quando estava pronta a saltar para o pescoço de Alexandre, ele falou:

                     - Agora não, minha querida. Estou sujo da viagem. Talvez mais logo, depois de ter tomado banho e mudado de roupa.

                     - Tudo bem... - respondeu ela, numa voz sumida, enquanto se retirava para a sala e se estirava no sofá.

A cafeteira assobiou e David deitou para dentro dela umas quantas colheres de café moído.

                     - Daqui a uns minutos está pronto.

O visitante olhou pela janelinha das traseiras e viu Simão Pedro a chegar, ainda com as botas de cavalgar enlameadas calçadas. Ao entrar na cozinha, não agiu como Isabel, pelo contrário. Apenas cumprimentou David com um aceno e deu umas palmadinhas nas costas de Kerenkov, enquanto dizia:

                     - Bem-vindo, Alex.

Depois desapareceu nas escadas que davam acesso ao andar superior.

                     - Anda esquisito, o Simão.

                     - Pois, já há algum tempo, mas deixa lá, passa-lhe.

Veio a voz de Isabel da sala.

                     - David, já encontrei aquele livro que andavas à procura.

                     - Ai sim? Onde estava?

                     - Debaixo do sofá, para variar.

Alexandre virou-se e viu a cafeteira a fumegar. Esticou o braço para agarrar uma caneca e entornou o líquido escuro a escaldar para dentro dela.

                     - Perfeito. - disse.
publicado por Katerina K. às 14:48

Olá amiga
Vou continuar a lêr, a história promete e não só por ter lá uma Isabel!!

Bjinho
Subjectividades a 11 de Agosto de 2008 às 15:01

Perfeita é a história!
Estou a gostar imenso! Fica sabendo que um dos meus nomes preferidos é Alexandre, por isso, o russo já passou a fazer parte dos meus favoritos! xD eheh

beijinhos***
Palavreadora a 1 de Setembro de 2008 às 13:09

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