BLOG FECHADO

03
Mai 10

Este é o meu novo trabalho, Atrás da Porta. É uma coisa diferente de tudo o que escrevi até agora, de um domínio mais...irreal. Não desvendo mais; gostava de manter algum mistério. Desta vez, não deixo prólogo. Acho que a história fala por si. Aqui vai o primeiro capítulo:

 

 

 

Camryn abriu a janela do carro e lançou a cinza do cigarro para a estrada com um movimento curto e incisivo. Recostou-se no banco, soltando um suspiro lânguido, e passou a ponta dos dedos pela superfície couraçada e opaca do volante. Aquele fim de tarde, por alguma razão, parecia-lhe especialmente amargo. Pelo espelho lateral, observou minuciosamente a estrada que ficava para trás, húmida e magra, sozinha, ladeada por pinheiros e duas fitas de tinta branca, banhada pelo brilho púrpura do crepúsculo. Estava tudo imensamente imóvel e silencioso, mas, ainda assim, livre da esterilidade das coisas aborrecidas. Camryn olhou-se no reflexo do espelho retrovisor, como se quisesse verificar que o seu rosto continuava ali. Levou o cigarro aos lábios e soltou uma longa fumaça branca por entre os dentes que se alongou preguiçosamente no ar cálido, escondendo-lhe o rosto moreno e os grandes e pestanudos olhos azuis. Perguntou-se, hesitantemente, porque é que Marcus estaria a demorar tanto; não era costume. Girou a chave na ignição; o motor rugiu roucamente, o que ela achava delicioso. Imediatamente, a luz amarela do rádio acendeu-se.

- …é por isso que acho que as coisas não deveriam ser assim. A religião é uma coisa a ser preservada e cultivada. Faz parte da nossa cultura há séculos. As gerações mais novas escolhem agora afastar esse legado, isolar-se do mundo espiritual. Eu culpo os pais, por não saberem incutir-lhes a boa tradição cristã.

Padre Mill, pensou Camryn, ao ouvir aquela voz grave, sonolenta de whiskey, Não sabe do que fala. Pobre homem.

Debruçou-se para mudar de estação. No entanto, nesse momento, a porta do carro abriu-se e o corpo de Marcus Donner caiu pesadamente sobre o banco dianteiro com um silvo de tecido. Camryn esmagou o cigarro no volante e atirou-o pela janela de forma impaciente, enquanto soltava um última nuvem de fumo e perguntava, irritada, porque é que ele demorara tanto. Marcus cruzou os braços.

- Sabes como ele é.

- Sei. Também sei que, se não nos despacharmos, não conseguimos chegar a tempo a casa. A Maureen não gosta de esperar.

- De facto, não.

Ele passou os dedos pelo cabelo castanho que lhe roçava a pele e fazia parecer que era um homem sem sobrancelhas. Camryn baixou o olhar. Era complicado fazer Marcus perceber que os horários existiam para ser cumpridos e que a paciência, apesar de flexível, tinha os seus limites. Fitou-lhe o rosto magro e pálido, o nariz patrício, a expressão de suprema calma e tranquilidade que lhe enchia a compleição de uma luz branca. A única palavra que se lhe formava na mente era incorrigível. Arrancou.

A estrada corria friamente, fugindo debaixo das rodas do carro, como a asa negra de um corvo com medo da noite. Os pinheiros foram desaparecendo, dando lugar a uma paisagem árida e áspera dominada por uma imensidão de rochas cor de palha. Faziam o seu caminho para sul; o sol, grande círculo cor de cobre, mergulhava na camada invisível e trémula de calor que se erguia sobre o horizonte seco, explodindo na majestade dourada que só era sua perto da morte.

Tinham-se mantido em silêncio, a ouvir os devaneios roucos da voz que provinha do rádio, quando Marcus se mexeu no seu lugar.

- Padre Mill? – perguntou, apontando o aparelho.

- Sim. – respondeu Camryn, com um suspiro derrotado.

- Nem sei como ainda dão tempo de antena a esse homem.

Ela encolheu os ombros.

- Os crentes gostam de o ouvir. Aposto que, numa casinhota qualquer, estão três velhinhas com um cobertor sobre as pernas a concordar religiosamente com o que ele diz.

- Vá lá, Cam, nós somos crentes.

- Não dessa maneira.

A vida ensinara-lhe que as crenças não eram mais que frutos da experiência. Quem não conhecesse nada, que nunca tivesse visto nada, acreditava em qualquer coisa que lhe fosse dita, por muito irracional que pudesse parecer. No entanto, maior parte das pessoas, condicionadas pelas palavras de oradores experientes como o Padre Mill, acreditavam naquilo que os outros queriam que elas acreditassem. Talvez isso facilitasse o trabalho deles, pensou Camryn, enquanto procurava o maço do tabaco no bolso do casaco.

- Quando será que vamos ter férias? – perguntou Marcus, enquanto fechava os olhos.

- Que pergunta inútil, homem. Sabes tão bem como eu que há, e sempre haverá, trabalho a ser feito. A vida que escolhemos não é para brincadeiras, muito menos para descansos. Se queres férias, então é melhor desistires.

- Melodramática.

Ela desligou o rádio.

- Idiota.

Marcus sorriu e os cantos dos seus olhos cerrados elevaram-se ligeiramente, dando uma forma curva à linha das suas pestanas.

- Acorda-me quando chegarmos. – pediu ele, em voz baixa – Matava por um pedaço de tarte.


 

 

 


publicado por Katerina K. às 14:38

Adorei.
Quando me disseste que estavas a escrever isto, fiquei mesmo intrigado, mas agora tou...mesmo contente e feliz por ter lido este teu novo rascunho.

Continua, pk vais bem :)
Vitor a 3 de Maio de 2010 às 16:49

oi... gostei imenso deste primeiro capítulo que é de um género diferente do que tenho lido de ti... Mas fiquei curioso ao rumo que vais dar à histótia... Beijinhos
Matt Xell a 3 de Maio de 2010 às 22:46

Está fantástico! Fiquei muito curiosa com este primeiro capítulo; surgiram-me logo imensas perguntas sobre o que se irá suceder *-* É realmente diferente :)
Beijinhos ^^
Rita a 3 de Maio de 2010 às 22:55

Mesmo fugindo ao habitual, está muito bem escrito. E interessante.
Tal como os outros, quero ver como irá continuar.
Violinista a 4 de Maio de 2010 às 12:28

Primoroso! Quando puder, leio os outros capitulos! Deixaste-me tão intrigada!
Beijinhos.
Mudei-me. Tchauzinho. a 24 de Maio de 2010 às 03:04

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