BLOG FECHADO

18
Jan 10

                 Não era a primeira vez que Mike Selby fazia o turno da noite no Museu de História Natural de Nova Iorque. No entanto, não se sentia confortável na dormente penumbra que abraçava as paredes. Observou a bandeira Americana, com as listas caídas e as estrelas ocultas entre as rugas do tecido, pendendo da parede com um orgulho nostálgico. O silêncio quase total, apenas rasgado pelo som que Mike soltava ao mexer-se, estendia-se a todo o vestíbulo e enrolava-se como uma serpente e, torno das grandes colunas cor de salmão. Estas, beijando o tecto abobadado, mantinham-se monumentalmente hirtas, grossas como pernas de gigantes. No centro do vestíbulo, as sombras recortadas dos esqueletos pré-históricos de dinossauros abriam as colossais bocas repletas de dentes fossilizados como se fossem embocar todo o edifício. Mike engoliu em seco; não podia negar que, à noite, o museu era estranhamente intimidante. Silenciosamente, percorreu o compartimento com as chaves a bater contra as pernas e a lanterna bem firme dentro da mão. O som metálico do chaveiro confortou-o, levando-o a abstrair-se de todo o ambiente envolvente. Quando chegasse a casa, teria uma bela chávena de café fumegante e saboroso a esperá-lo sobre o balcão da cozinha. Sabia que Sonia já teria saído para o trabalho, mas, mesmo assim, a ideia deliciava-o. Perturbadoramente, o dinossauro continuava a lançar-lhe um olhar incendiado, que acompanhava o seu movimento. E o silêncio aterrador começava a enchê-lo, a afogá-lo. O olhar do dinossauro, o som do chaveiro, a bandeira descaída, as colunas imensas, o ar seco e sufocante, a escuridão. Uma gota de suor deslizou-lhe pela testa e caiu na camisa cor de cordel.

                - Mike?

                Mike Selby virou-se rapidamente, de lanterna em riste, com os olhos redondos extremamente abertos e uma expressão de ansiedade e terror estampada no rosto magro. A voz viera de trás, da fissura entre as colunas.

                - Que cara, Mike! Assustei-te?

                A figura baixa de Felix Strauss revelou-se na luz tímida, a careca a refulgir com um brilho cinzento.

                - Sim! Apareces assim a uma pessoa, todo sorrateiro. Valha-me Deus.

                - Que exagero. – Felix revirou os olhos e tirou as mãos dos bolsos das calças caqui.

                - Não é um exagero. Está um silêncio de morte, e isto é bastante arrepiante a esta altura da noite. Tu é que andas em pezinhos de lã, como se quisesses matar-me do coração.

                - Estás tão sensível, Mike. – disse o outro, num tom de escárnio.

                - Olha, cala-te.

                Felix Strauss afastou-se em direcção à sua secretária e abriu uma gaveta, da qual tirou um exemplar da New Yorker. Mike Selby olhou a revista por cima do ombro e apoiou-se na perna esquerda.

                - Já leste o artigo dos diamantes?

                - Sim. – respondeu Felix, sem levantar os olhos do papel – Aquela jornalista é uma coscuvilheira do pior.

                - Faz parte do trabalho dela. Pagam-lhe para isso.

                - Pois, sim.

                Após um momento de mudez, durante o qual o silêncio não parecia tão pesado, Mike pousou os cotovelos na secretária do colega e murmurou:

                - Olha lá se vinha agora um ladrão e nos matava aos dois?

                Felix baixou a revista e contorceu o rosto numa expressão de troça.

                - Claro, claro! E, já agora, os dinossauros ganham vida e vão comer o Chrysler Building.

                Mike cruzou os braços. Não havia dia que Felix Strauss não o tratasse como se fosse o seu irmão mais novo. Recostou-se contra a cadeira, pousou a lanterna no colo e fechou os olhos. O rosto moreno de Sonia apareceu-lhe na mente, lentamente, a dançar de forma saltitante. Sorriu, deu uma volta no fumo cinza da consciência.

                Um som. Mike abriu os olhos.

                - Felix, ouviste isto?

                O outro não baixou a revista.

                - Já estás a ouvir coisas. Pára de ser paranóico.

                No entanto, o mesmo som continuou a repetir-se: tap tap, tap tap, como uma porta a bater levemente com o vento. Tap tap, tap tap.

                - Não estou a ser paranóico. Não estás ouvir?

                Tap tap, tap tap. Cada vez mais alto, ecoando na cavidade oval do vestíbulo, a espalhar-se rapidamente em volta das colunas, em volta do dinossauro. Cada vez mais rapidamente. Tap tap, tap tap.

                - Oh, meu Deus…

                Silêncio. E tudo se apagou.

publicado por Katerina K. às 15:19

UAU. que eomocionante. as coisas estão a aquecer. *-*
e mais uma vez, deliciei-me com o teu primeiro parágrafo. beijinhos. (:
Inées. a 18 de Janeiro de 2010 às 18:30

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