BLOG FECHADO

31
Dez 09

             O tempo estava a passar rápido demais, e o carro não era veloz o suficiente. A agulha do velocímetro apontava nervosamente para os 200 km/h, mas Jesse continuava a pontapear o acelerador como se disso dependesse a vida. No banco de trás, Edward Cole segurava o rosto macilento de Violet Simmons e comprimia a ferida enquanto o Lexus IS 250C contornava as curvas sinuosas da cidade de Paris a alta velocidade. Edward observou o rosto de Jesse pelo espelho retrovisor com angústia a arder-lhe na boca. O facto de Jacqueline estar algemada e sob a custódia de Michael Collins, o qual havia chamado um regimento inteiro de agentes do FBI, não o sossegava. Danny, sentado no banco da frente, era atingido pela mesma sensação. Naquele momento, que parecia curto demais no tamanho da vida, a única coisa que importava era a mulher que, deitada no banco de trás com a cabeça no regaço de Edward, se agarrava à vida com as poucas forças que tinha.

            Jesse virou o volante com violência e o carro guinou numa esquina. Ao fundo da rua, estendia-se uma praça ampla e quadrada, no centro da qual se erguia um obelisco escuro. Todos os candeeiros de rua estavam apagados, hirtos e firmes na rua, adoptando a cor dos corvos. A luz dos faróis incidiu no caminho, e as pedras da estrada brilharam na sua humidade outonal. O veículo entrou na praça com um solavanco e parou abruptamente em frente a uma casa baixa e larga de apenas dois andares com janelas rectangulares e magras que se alinhavam como soldados na fachada do edifício. Jesse puxou o travão de mão e arrancou as chaves da ignição. Abriu a capota e saltou para fora do carro. Vinte segundos depois, Danny e Edward tiravam o corpo mole de Violet Simmons de dentro do automóvel. O outro, suado e sem cor, empunhou um chaveiro, o qual tilintou ao embater contra a madeira da porta.

            A casa estava imersa na escuridão. Jesse atravessou o corredor usando a usa memória fotográfica e chegou à cozinha. Por um momento, parou e levou as mãos ao rosto. O coração batia-lhe no peito como se fosse sair do seu lugar e deslizar até aos pés. Limpou uma gota de suor e respirou fundo. Sem luz não conseguiria salvar Violet. Ergueu os braços e passou as pontas dos dedos pelas paredes até sentir a porta da caixa de electricidade. Procurou uma abertura e inseriu os dedos nela, puxando a porta. Empurrou todos os interruptores para cima e uma vaga de luz artificial ofuscou-lhe os olhos.

            - Jesse? Onde estás?!

            - Na cozinha. – respondeu.

            Danny King assomou à entrada do compartimento, em mangas de camisa, com as calças brancas manchadas de sangue.

            - O que fazemos agora?

            - Não sei. – disse Jesse, em voz baixa.

            - Jesse, ela não aguenta muito mais tempo!

            A tristeza transformou-se em raiva quando o violoncelista explodiu numa ira descontrolada e selvagem, os seus olhos a arder num tom avermelhado.

            - Eu sei que ela não tem muito mais tempo! E isso mata-me, Dan! Mas não sei o que fazer, não consigo pensar!

            Daniel expirou lentamente e pousou a mão no ombro de Jesse.

            - Tem calma, respira. Elimina isso tudo da tua cabeça, tenta ser racional por um momento. Pensa.

            Jesse fechou os olhos. Apagou o rosto cruel de Jacqueline Soleil, os olhares tormentosos de Edward, Danny e Lancelot, a sua própria dor. Tinha de retirar a bala e suturar a ferida, antes que fosse tarde demais. Chamou à memória o local onde costumava guardar o estojo de primeiros socorros e o armário das traseiras. Soube o que fazer.

            - Danny, vais ter de me ajudar.

            - Claro, diz-me o que fazer.

            Jesse uniu as mãos e inspirou fundo.

            - Preciso que me vás ao armário das traseiras, onde se guardam as canas de pesca. Ao lado direito, está pousado um balde branco. Abre-o. Dentro de um saco de plástico, vais encontrar um grande número de anzóis; traz um deles, aquele que te parecer estar em melhor estado. Depois, vai à casa de banho e arranja-me toalhas, muitas toalhas. Eu trato do resto.

            - Muito bem.

 

            Jesse, após ter reunido todo o material que precisava, sentou-se junto a Violet Simmons. O vestido havia sido cortado em dois, e a ferida, profunda e negra, encontrava-se exposta. O rapaz, apesar de saber o que tinha de fazer, estava receoso. Não queria infligir mais sofrimento a Violet, que padecia em frente aos seus olhos, indefesa. No entanto, ia ter de o fazer se a queria salvar. Debruçou-se sobre ela e, passando-lhe a mão branca pelo rosto, falou-lhe no tom mais doce que conseguia.

            - Ouve, Violet, vai ficar tudo bem. Eu vou tratar de ti, mas vais ter de aguentar mais um pouco. Isto vai doer, muito.

            Ele dirigiu o olhar para Edward. Este, empunhando uma toalha de mãos, rasgou-a em dois pedaços e sentou-se atrás de Violet para a poder fixar. Segurou um dos pedaços e colocou-o na boca dela, para que a rapariga não mordesse a língua. Ela fechou os olhos e preparou-se para o que ia acontecer.

            Jesse olhou para as mãos – tremiam. Se havia coisa proibida naquele momento, era que as mãos lhe tremessem. Bastava uma mínima incerteza, e tudo aquilo seria em vão. Assim, estendeu a mão para a pinça, previamente esterilizada, e, a sangue frio, inseriu-a na ferida aberta de Violet. Esta gritou, mordendo a toalha com força e agitando-se no sofá.

            - Está quieta! – gritou Jesse, a quem gotas gordas de suor escorriam pela testa albina.

            A extremidade da pinça roçou algo metálico, e Jesse sorriu quando teve a certeza que tinha conseguido agarrar a bala. Calmamente, extraiu-a; o projéctil, coberto em sangue e tecido muscular, brilhou debaixo das luzes. Edward sentiu o corpo de Violet Simmons relaxar quando deixou de ter a bala dentro de si.

            - O que vais fazer agora? – perguntou o pianista.

            - Suturar. – respondeu Jesse, segurando entre os dedos um anzol resplandecente ao qual estava preso um longo fio negro.

            Ao passar o metal pela pele quente de Violet, Jesse sentiu-se mais calmo. Cuidadosamente, fechou a ferida e desinfectou-a, terminando o procedimento ao tapá-la com um penso e uma camada de gaze. Suspirou.

            A rapariga ergueu debilmente o braço e passou o indicador pelo rosto dele. Os seus olhos mostravam um cansaço extremo; tinha sido, verdadeiramente, levada à exaustão.

            - Obrigada, Jesse.

            Ele sorriu.

            - Dorme, Violet. Precisas de descansar. Está tudo bem.

            E beijou-a levemente nos lábios.

publicado por Katerina K. às 13:06

Continuo a dizer :D
Adoro a tua escrita ^^

Beijinhoos, ##
pαtrýciαtk. ♥ a 31 de Dezembro de 2009 às 14:22

ISTO ESTÁ MAIS QUE PERFEITO *-------------------------*
inês. a 31 de Dezembro de 2009 às 14:35

OH MEU DEUS!
EXPLENDIDO! TÃO ROMANTICO *_____________________________________*
BEIJOS! (L).
Mudei-me. Tchauzinho. a 31 de Dezembro de 2009 às 16:21

Não morreu! Ahh, estou feliz! 8D
Mas o Jesse é médico? O.o E não era mais fácil ela ter ido a um hospital? x)
Capítulo perfeito, btw. (;
Ritaa a 31 de Dezembro de 2009 às 17:15

"Todos os candeeiros de rua estavam apagados, hirtos e firmes na rua, adoptando a cor dos corvos." De onde é que tiraste esta? Está fantástica e tão inteligente!
E... UAU. Adorei. E só mais um capitulo. :( Fico triste por isso mas quero-o ler o mais rápido possivel. Acho que me contradigo, wtv.
Bom Ano Novo, Beijinhos (:

Inées. a 31 de Dezembro de 2009 às 21:53

Olá!!!!
Adorei o teu blog!! ;)
Bom Ano Novo!!!! ;)
Bjs
http://belezaqb.blogs.sapo.pt/

Se há alguém que tem que agradecer, esse alguém sou eu.
inês. a 1 de Janeiro de 2010 às 13:01

Olá!!
De nada, és uma querida :)

Bjs
http://belezaqb.blogs.sapo.pt/

Feliz 2010 (:

beijinho
sibyl duerr a 1 de Janeiro de 2010 às 17:09

Talvez seja um bocado doida, mas acabei de ler os 39 capítulos.
Escreves tão bem, gostei mesmo :)

Mas não seria mais fácil ela ter ido ao hospital?

Beijinho, e feliz ano novo para ti também :)
catarina # a 1 de Janeiro de 2010 às 19:06

Dezembro 2009
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
11
12

15
16
17
19

21
23
26

28


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

RSS
arquivos
A Banda Sonora dos Rascunhos


MusicPlaylist
Music Playlist at MixPod.com

mais sobre mim
pesquisar
 
favoritos

#5

blogs SAPO