BLOG FECHADO

27
Dez 09

             Jesse tomou Violet nos braços. A pele dela estava gélida e pálida, sem cor nem vida, como se a sua essência tivesse sido sugada e varrida. Ele segurou-lhe na cabeça e agitou-a levemente, como se tivesse medo de a partir. Uniu o indicador e o médio, encostando-os à fria superfície da pele do seu pescoço. Nenhum batimento cardíaco se manifestou.

            - Violet? Violet, abre os olhos.

            No entanto, ela manteve-se imóvel e fria, parecendo uma boneca de porcelana branca e frágil. Jesse apanhou-lhe o cabelo com as mãos e pôde ver o grande número de equimoses roxas que se estendiam pelo pescoço dela. Os pulsos eram apenas cobertos por uma camada de sangue seco e castanho, tal como a fita de plástico que lhe prendia os movimentos. Alva e serena, a rapariga descansava nos braços dele como se estivesse apenas a dormir, num sono débil e delicado. A beleza não fugira com a vida, havendo-se mantendo harmoniosa e perfeita, com uma expressão de paz impressa no rosto. Jesse viu-se avassalado pela sensação de que tinha chegado tarde demais.

            - Bolas, Violet, não me deixes aqui sozinho!

            O seu grito subiu pelas paredes negras e rebentou nos cantos escuros. Ele sabia que a sua fúria não a traria de volta à vida, mas não conseguia controlar a ira que lhe subia aos olhos e ardia nas entranhas.

            Nesse momento, vagarosa e delicada, uma lágrima abriu o seu caminho na pele incolor de Jesse. Quase invisível no negrume, serpenteou no seu curso, fazendo com que o rosto do rapaz parecesse prateado. Contornou melosamente a curva do maxilar, passando por cima da cicatriz que acompanhava a mandíbula. Era a primeira vez que Jesse Stone chorava desde o dia em que deixara Violet Simmons, naquele pátio da AMPW. Sentia que tinha deixado a vida em aberto, que não se tinha despedido dela nem lhe tinha dito a verdade que lhe estrangulava o coração. Lentamente, encostou-a ao seu peito e abraçou-a, sentindo as lágrimas a brotar dos seus olhos como erva fresca primaveril.

            - Fecha-me dentro de ti. Corta-me as raízes e deixa-me crescer na tua água, nas palavras que vêm de ti e são douradas. Fecha-me dentro de ti. Faz de mim a lua e usa-me ao pescoço; doma-me, amansa o leão que vive nos cantos do meu íntimo. Fala-me das coisas que nunca vi, dos momentos que perdeste e não queres encontrar. Fecha-me dentro de ti, e une-te comigo até que sejamos só fumo e réstias de memórias. Funde-te com o meu coração, que é aquele que guardas no bolso da alma.

            O rapaz inclinou a cabeça e, muito suavemente, beijou-lhe os lábios gélidos. Deixou a calidez do seu corpo passar para o dela, numa tentativa vã de resgatar a sua alma da casa dos mortos. Mesmo sem vida, os lábios dela eram cândidos e macios como cetim, exactamente os mesmos que ele se lembrava de beijar há muito tempo, quando o seu amor não era incógnito nem secreto. O seu nariz roçou na pele das maçãs do rosto dela, ao afastar-se. Não havia vida.

Jesse Theodore Stone baixou a cabeça, e quis morrer.

            Então, de súbito, sentiu o peito dela a mover-se contra o seu e o bafo quente de uma respiração ofegante e entrecortada. Por instantes, não acreditou, mas o coração dela batia como as asas de um pássaro jovem, indo ao encontro do seu. Afastou-a de si, e viu o seu rosto a ganhar cor. Demoradamente, as pálpebras dela abriram-se e a sua íris cor de whiskey brilhou com o fulgor de uma vida nova. Violet Simmons sorriu debilmente e entreabriu os lábios pálidos.

            - Tenho o teu coração, Jesse.

            - Fica com ele. – respondeu, sendo avassalado por uma felicidade que julgava não conhecer. O sorriso dela, na escuridão, era a única luz.

publicado por Katerina K. às 18:44

é mesmo para ter medo xD
ana a 27 de Dezembro de 2009 às 21:26

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