BLOG FECHADO

24
Dez 09

             - Jesse, é a tua vez.

A voz do pai ecoou entre as paredes do palácio da memória, quente e profunda, no registo grave que Jesse se lembrava tão bem de ouvir, como o rugir de um leão.

            Abriu os olhos. Do lado de fora do alpendre, a chuva caía, miúda, sobre as telhas, emitindo um som oco e cerâmico. O nevoeiro, fino como celofane, planava entre a erva alta e verde, assemelhando-se a fantasmas que o tempo comprimira até serem translúcidos e cinzentos. Estava frio, mas um frio líquido e agradável, que causava uma sensação cortante e deliciosa ao raspar na pele. O Sussex, durante o Inverno, era coberto por uma linha de luz branca e fresca que brilhava em volta do Sol, do qual se via apenas um vislumbre entre os braços das nuvens.

            - Jesse?

            Olhou em frente.

            - Desculpa, pai. – a voz saiu-lhe estranha, aguda e infantil; a sua própria voz quando tinha oito anos.

            - Não há problema. – exibiu um sorriso brando e bondoso – Mas sai do teu mundo e joga.

            Jesse observou o tabuleiro de xadrez e passou lentamente a mão pelo queixo. O pai estava a jogar com as pretas. Percebeu que ele estava a dispor as peças de modo a que Jesse não pudesse mexer o rei. A torre e ambos os cavalos estavam montados à defesa, enquanto que o bispo sobrevivente esperava a sua vez para atacar a presa. A muralha tinha sido cuidadosamente montada, e a rainha, inchada na sua soberba, mantinha-se como expectante, aguardando apenas a sua oportunidade para desferir o golpe final. A única coisa que Jesse podia fazer era furar a armadura e tentar fugir por esse buraco. Só desse modo estaria seguro para atacar pela retaguarda.

 

***

 

            Nesse instante, Jesse percebeu finalmente o plano que Jacqueline havia traçado. Tudo aquilo, toda a ilusão à sua volta, era puro engodo, a maneira de fazer com que ela pudesse chegar a Raoul sem a menor interferência. Jackie fora inteligente, maquiavelicamente inteligente, e soubera manipulá-los de forma discreta e eficaz. Mas Jesse sabia de uma coisa: se Violet Simmons não estivesse já morta, não tardaria muito até que isso acontecesse.

            Levantou-se, fazendo a cauda do sobretudo adejar contra o estofo do cadeirão. Deixou-se fitar o tabuleiro de xadrez que se erguia da escuridão e fez o braço deslizar pelo ar até às pontas dos seus dedos tocarem a superfície gélida do mármore que constituía o rei branco. Passou gentilmente o polegar por ele e depois, num movimento que quase não existiu, mergulhou-o no negrume do bolso do sobretudo. Ia precisar dele, pelo menos para se lembrar que tinha de acabar a sua missão.

            Voltou ao corredor, mas a escuridão havia sofrido uma metamorfose: tornara-se mais pesada, quente, num ambiente de imutável urgência. Era como se Jacqueline suplicasse, por entre cruéis e geladas gargalhadas, que ele desse um salto para o abismo. E era mesmo isso que ele ia fazer.

            Demoradamente, Jesse olhou em volta. Voltou a ser invadido pelo mesmo sentimento de familiaridade que tinha tentado dominar quando atravessara o corredor pela primeira vez. Deixou-se limpar a mente e observou o traçado da casa. Era simples, em recortes harmoniosos e rectos que se abraçavam mutuamente. Contornou o corrimão das escadas e subiu os degraus. Olhando para cima, uma ausência fixou-se na sua mente e Jesse percebeu que aquela casa era uma aproximação extremamente bem conseguida da casa na qual Céline e Jacqueline viveram durante anos. As paredes tinham o mesmo tom cor de profundezas de mar, o qual Jacqueline apreciava especialmente por dizer que a luz do pôr-do-sol fazia sombras particulares naquela tonalidade. Faltava o candeeiro de lustre, transparente como lágrimas, caindo em cascata sem nunca alcançar o chão, mantendo-se fixo no seu ninho de luz dourada. Jesse tentou chamar à mente a planta da casa antiga. Lembrava-se de muitos dos detalhes, mas estes não eram suficientes para formar uma imagem clara do local que ele se preparava para percorrer. Então, como que num acesso de lucidez, entreviu o que Jacqueline tinha pensado. Lembrou-se de um dia de Verão, na casa antiga das Soleil, durante o qual ouvira Céline dizer que aquela era uma das poucas casas em Paris com uma cave subterrânea.

publicado por Katerina K. às 11:54

Hoje limito-me a desejar a todos que por cá passam., um óptimo Natal e a perguntar se já disseram àquelas pessoas importantes na vossa vida o quanto gostam delas...


Já o disseram durante o ano todo?
Não vale a pena dizê-lo?
Elas já sabem disso?
Nunca é demais dizê-lo.
Vale sempre a pena fazê-lo...
mesmo que já o saibam.


Vá digam-no... afinal é Natal!


Bom Natal! Beijos/Abraços do Rui...
100timento a 24 de Dezembro de 2009 às 11:55

Olá!
Obrigada por passares pelo meu blog e teres comentado!
Bem, agora vou a tua fic desde pricipio... (:
BjãO<3
iogurta; ♥! a 24 de Dezembro de 2009 às 12:07

gostas de anatomia de grey?
eu adoro, adoro mesmo. já vi todas as temporadas menos a sexta.
e sim, meredith sempre :)
Sofia a 24 de Dezembro de 2009 às 12:38

concordo. as frases dela são mesmo inteligentes.
tu já viste algum episódio da 6º temporada? é que já li por aí que o george o'malley vai morrer /:
Sofia a 24 de Dezembro de 2009 às 12:45

que cena. eu até gostava do george mas pronto :c
e ainda bem que a izzie sobrevive :)
Sofia a 24 de Dezembro de 2009 às 12:49

Um Feliz Natal (:
Sandy a 24 de Dezembro de 2009 às 12:53

ainda bem. tenho que me actualizar quanto à 6ª temporada. e obrigada pelas informaçoes :)
Sofia a 24 de Dezembro de 2009 às 12:54

um feliz natal para ti também :)
Sofia a 24 de Dezembro de 2009 às 12:59

Feliz Natal :D
joanna. a 24 de Dezembro de 2009 às 12:59

Está tããão maravilhosamente bem escrito, este capítulo, Flautista. (:
inês. a 24 de Dezembro de 2009 às 13:08

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