BLOG FECHADO

04
Out 09

            Jesse não conseguia evitar de se sentir desconfortável, como se o ácido do estômago lhe estivesse a correr pelas veias. Mexeu-se no seu lugar, ao de leve, e recostou a cabeça. Lançou um esgar de olhos semicerrados aos restantes membros do grupo. Lá estava ela, Violet Simmons. Meu Deus, como estava diferente. Continuava incrivelmente atraente, o cabelo da cor das sombras do fogo e os intensos olhos tom de caramelo. No entanto, crescera. Crescera muito. O esbelto vestido verde-escuro realçava-lhe as formas maduras e redondas, adaptando-se à sua figura elegante. Jesse viu-a como se fosse a primeira vez. Mas pareceu-lhe que ela estava tão séria como se fosse a última. Sorriu, e os olhos amarelos sorriram também, em algo incontrolável que ele, hesitantemente, percebeu que era felicidade. Pensara muito nela, naqueles últimos anos, numa mistura de remorso e arrependimento. Guardara o seu rosto no cofre mais seguro da sua memória, abrigando as feições adoráveis que lhe marcavam as faces. No entanto, estava diferente. Tornara-se mulher, e uma bem bonita, por sinal. Mas os olhos, tão doces como da última vez, continuavam a emitir um brilho quase infantil, sempre despropositado.

            Ela pousou o tempestuoso olhar no dele, como se lhe arrancasse os pensamentos. Ele tentou desviar a atenção para outro sítio, mas não conseguiu despregá-la dela. Violet continuava séria, sentada formalmente, com as pernas cruzadas nos tornozelos. Fitou-o com inocência mas intensidade, matando a falta que sentia daquele rosto de albino, parecendo feito de cera. A cicatriz de sempre continuava a demorar-se na cuidadosamente esculpida linha da mandíbula, como um traço de tinta prateada num pergaminho liso. A rapariga sorriu interiormente ao ver a expressão séria que ele exibia. Poucas eram as vezes que era possível ver Jesse Stone, o tão aclamado e negro violoncelista, a mostrar-se totalmente desorientado com uma situação: como naquele momento. A doce fragrância que ele exalava chegou-lhe às narinas numa bruma sensual e invisível. Violet inspirou-a demoradamente, fechando os olhos. Era sacarina, ligeira mas perceptível – exactamente a mesma de sempre, naquela incrível e estranha doçura. Jesse continuava a vestir-se da mesma maneira, completamente de negro, envergando o habitual sobretudo comprido e as Doc Martens, como se fosse um coveiro. Recostado no cadeirão, com os lábios cerrados numa linha severa e suavemente encurvada, era banhado pela quente luz produzida pelo adejar das labaredas na lareira. Violet, envolta pelo mesmo calor, viu-se invadida por uma sensação de tristeza e vazio. Era estranho vê-lo de novo, tê-lo de novo ali perto de si, sentindo a fria aura que ele transportava à sua volta e ouvindo a sua voz, grave e melosa, carregada pelo belo sotaque britânico. Naquele instante, ela gostava de saber o que ele pensava.

            Jesse vergou-se, envolvendo o rosto nas mãos. Sentiu os olhares de Danny e de Edward pousados nele. Eles sabiam. Sabiam o nó que se lhe formava em todo o corpo e a dormência que o invadia. Na verdade, era difícil escondê-lo. Nos momentos seguintes, Jesse limpou a mente e projectou nela a partitura da Sonata Arpeggione de Schubert, enquanto o mundo à sua volta se eclipsava. Quando tudo tinha desaparecido e só restava o escuro e o silêncio, jogou xadrez consigo próprio dentro da alma. Empates sucessivos. Era impossível ganhar a si mesmo.

publicado por Katerina K. às 12:46

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