BLOG FECHADO

27
Mar 10

Depois de ele sair, eu recebi um telefonema da Lilith.

Ele já saiu?

Sim, respondi, Nem há dois minutos.

Raios, disse a Lilith, e ouvi que atirou alguma coisa ao chão, Vou ter de ligar para casa do Fraser e esperar que eles já tenham chegado.

Daqui a umas horas eles já devem estar ensopados em cerveja a jogar dominó.

Ela soltou uma gargalhada estridente.

Sabes, por incrível que pareça, sinto falta dos jogos de póquer. Ganhavas sempre, nunca entendi como conseguias ser uma jogadora tão boa.

Eu não podia negar que ela tinha razão.

Ele e o Fraser, depois das onze da noite, deixavam de ser pessoas e eram assassinos. Os olhos deles ficavam diferentes, enchiam-se de uma névoa vermelha, dos rostos das pessoas a quem eles tinham tirado a vida. Mas eu não gostava de saber dos negócios do Esquadrão. Eles eram quatro: a Lilith, o Fraser, o Mutt e o meu Metello. O Metello que tinha acabado de sair pela porta com a promessa de trazer cigarros e conhaque.

Bem, vou a casa do Mutt.

Muito bem, disse eu, Não te esqueças de ligar para casa do Fraser.

Como me poderia esquecer?

Esqueces-te de muita coisa quando o Fraser está em questão.

Bah, grunhiu a Lilith, Depois de sete anos a viver e matar com ele, até quero esquecer-me.

Não sejas cruel, Lil.

Eu ganho a vida a ser cruel, querida. Bem, vou desligar. Há muitas pessoas mortas por chegar à morte.

E desligou.

Procurei o isqueiro que o Metello me tinha oferecido quando fiz dezasseis anos. Ele disse-me que eu estava cada vez mais perto de morrer; acelerar a viagem era um bónus. Eu acendia os cigarros com aquele isqueiro há vinte anos, e a vida não me parecia passar mais rápido. Encontrei-o no bolso do meu casaco branco, o casaco que o Metello não queria que eu usasse porque me fazia um alvo demasiado fácil. Percebi o quanto a minha vida estava condicionada por aquilo que o Metello queria ou não; mas eu estava disposta a isso, desde que ele viesse ter comigo e trouxesse conhaque.

Olhei para a cozinha; não me podia esquecer de comprar leite, ele ia querer beber quando chegasse a casa.

publicado por Katerina K. às 21:43

24
Mar 10

Abri a porta do carro e o Fraser estava a tossir. Ofereci-lhe um lenço, ele limpou os lábios e entalou um cigarro na boca. Ele disse que um polícia tinha vindo para o multar porque o carro estava estacionado em cima do passeio, mas que tinha passado uma nota de cinquenta pela fresta da janela e que o homem tinha ido embora com as mãos nos bolsos e a assobiar.

Como é que ela está?

Igual, respondi, Continua a cheirar bem.

O Fraser riu-se, disse qualquer coisa a propósito das mulheres terem todas um cheiro diferente e arrancou.

Falaste com a Lilith?

O Fraser fungou. Ele não gostava da Lilith porque ela era uma mulher bonita e as mulheres bonitas intimidavam-no. Ele tinha medo que elas lhe roubassem a Razão e a usassem para fazer vestidos.

Liguei-lhe ontem à noite. Ela disse que as coisas estavam prontas para quando tu as quisesses.

Óptimo.

O Fraser e a Lilith já tinham sido casados. Mesmo nessa altura, ele não gostava dela, porque achava que os homens olhavam demais. A filha deles era tão parecida com o Fraser que eu chegava a pensar que ele a tinha concebido sozinho.

Ele estalou a língua e empurrou a alavanca das mudanças.

Era relativamente cedo, não havia ainda movimento nas ruas; o silêncio era tão terrível que me pareceu, por momentos, que estava surdo. Liguei o rádio e a onda de rock clássico fez o Fraser saltar no banco. Ele olhou para mim e fez uma pergunta.

O quê? Não ouvi.

Perguntei se gostavas disso.

Gosto.

Ah.

Desliguei o rádio.

Pus-me a olhar para o Fraser. O bigode dele, empoleirado sobre o lábio superior, era tão fino e tão preto que me parecia feito de pólvora. No entanto, não estava penteado, e eu soube que alguma coisa não estava bem.

Não penteaste o bigode. O que se passa?

Ele ficou agitado. Percebi isso porque ele deixou cair o cigarro e se vergou para o apanhar.

Estou nervoso. Isto pode não correr bem.

Encolhi os ombros.

Vai correr bem. A Lilith e o Mutt tratam das coisas, nós só temos de apertar o gatilho.

O Fraser mordeu o cigarro e disse dois palavrões quando o semáforo ficou vermelho.

Oxalá tenhas razão.

Voltei a ligar o rádio.

publicado por Katerina K. às 21:01

22
Mar 10

Continuação do meu trabalho anterior.

 

 

A pele dela era suave e cor de pérola. Eu devia ter medo de a magoar, mas não tinha, porque eu sabia que ela não era como as outras mulheres. A dormir, ela nem parecia uma mulher; era tudo irrelevante face à calma suprema da sua respiração. O peito ebúrneo oscilava com a inspiração e expiração. A imperfeição dela era tão grande; isso agradava-me, especialmente quando as luzes se apagavam. Eu amava-a, não a ela, mas à personagem que tinha criado dela, à figura quente que estremecia debaixo de mim. Nesses momentos, era bom.

Eu ia ter com ela quando perdia o pensamento. Eu sabia que ela estava à minha espera, com um cigarro entre os dedos e sem maquilhagem, enterrada no sofá da saleta com um livro aberto sobre as pernas e um vinil a rodar no gira-discos. Eu pousava o sobretudo no cabide, mordia a ponta do Marlboro e fechava a porta atrás de mim.

As noites eram todas diferentes; pelo menos eu era uma pessoa diferente de cada vez que ia ter com ela. Às vezes as coisas pareciam-me mais simples, mas eu sabia que não eram. Debaixo do braço cálido dela, tudo era simples. E eu queria que fosse.

Naquele dia, depois de ela me ter apertado os botões da camisa, a úlcera doeu-me. Bebi um golo de leite e o líquido amaciou-me o estômago, mas a dor foi tão intensa que caí na cama de bruços. Ela acendeu um cigarro.

Tens de ir ao médico.

Para quê? Eu sei o que tenho, não preciso de médicos.

Vai ao médico, tantas dores não são normais.

E tu agora é que sabes o que é normal ou não?

Sei mais que tu.

Silêncio.

Não gosto de discutir contigo.

Eu sei, respondi.

Ela vestiu-se, apesar de eu gostar mais dela de manhã. Agarrei-lhe a ponta da saia e puxei-a para mim. Ela atirou a cinza do cigarro para cima de mim e passou-me a mão pelo cabelo.

Estás atrasado para o trabalho. Até amanhã.

A noite vai estar fria.

Traz mais cigarros, então. E conhaque.

 

 

 

 

 

 

Edit:

Estes dois textos são pertencentes a uma pequena série chamada Pássaro Azul. Brevemente postarei mais.

publicado por Katerina K. às 21:29

20
Mar 10

Quando acordei, ele estava encostado à janela a fumar lentamente um Marlboro. Contra a claridade, ele era só uma sombra negra e disforme, hirta e fria como a manhã que nascia atrás dos prédios com um laivo branco de luz. Eu sabia que ele estava a falar consigo mesmo; soltava o fumo pelo nariz e saboreava a nicotina de forma tão lânguida que se tornava imperceptível. Tinha vestido as calças e apertado o cinto, mas o peito moreno continuava a formar texturas doces com a luz. Depois do silêncio, ele começou a falar comigo com os olhos. Fez o indicador deslizar calmamente sobre a superfície branca do cigarro e passou a língua pela sua extremidade. Atirou a cinza para a varanda; tossiu roucamente. Uma pomba gorda roçou na janela e deixou penas pelo caminho.

Há leite?, perguntou ele.

Não sei, respondi, Acho que no frigorífico há ainda uma garrafa.

Ele apagou o cigarro no cinzeiro e arrastou os pés pela carpete.

Maldita úlcera.

Ele resmungava muito consigo mesmo, com quem ele nunca tinha conhecido e com as pessoas que já tinham morrido. Quando vinha ter comigo, eu sabia que ele conhecia toda a gente e que estavam todos vivos; e que ele já não sabia quem era. Eu abraçava-o e dizia que ele era o homem que fazia coisas.

Eu não faço; desfaço.

Eu assentia e beijava-o.

De manhã, ele já sabia de novo quem era; fumava dois cigarros e bebia leite por causa da úlcera, chateava-se por não gostar dos lençóis. Dizia que eu parecia mais alta se usasse o vestido que a minha irmã me tinha dado e pedia para eu o ajudar a apertar os botões da camisa.

Como está o teu irmão?, perguntei.

Ele acendeu o segundo cigarro.

Na mesma, acho eu. No seu canto, onde não chateia ninguém.

Não devias ser assim com ele.

E tu não te devias meter nos assuntos dos outros.

Bateu com a porta do frigorífico e deu um pontapé na cómoda.

Aperta-me a camisa, pediu.

publicado por Katerina K. às 13:36

08
Mar 10

                 Havia uma serenidade no rosto dele que eu não conseguia compreender. Havia um sorriso, um sorriso tão frágil que parecia perder cor à medida que os segundos passavam por ele em fuga acidental. Por instantes, as coisas paravam. As coisas perdiam importância. As coisas eram apenas coisas e não mais que coisas. Tudo tinha o sabor longínquo e dourado do Verão perdido nas memórias e dos reflexos do oceano ao amanhecer. Recordações transformadas em fiapos, enroladas à volta da cintura, amarradas nos cabelos, agitadas na brisa perpétua dos princípios do sempre.

                No rosto dele eu encontrava as frases que ele dizia em silêncio. Não havia espaços vazios, apenas a melíflua porosidade da existência. Perguntei-lhe se na serenidade dele haviam segredos.

                - Não, só há palavras invisíveis. Tu compreendes, sabes como é quando há palavras que não se vêm mas tu sabes que estão lá, queimadas nas tuas mãos e nas mãos das outras pessoas. Escondidas nas pontas dos sorrisos. Tu sabes que elas existem, mas não o podes provar, porque só sentes que elas te ardem no fundo do peito. Não há segredos; esses vêm-se, são da cor da pele e ficam pálidos quando alguém os beija.

                Perguntei-lhe porque é que ele não beijava os meus segredos.

                - Porque eles não sabem que eu existo. Se eu os beijasse, já não seriam segredos.

                Então seriam o quê?

                - Coisas beijadas.

                E os meus lábios?

                - Esses não são segredos. Esses sabem que eu existo, porque me vêm e me sentem. Falam-me e contam-me coisas que nem tu sabes.

                Coisas sobre a tua serenidade?

                - Também. E segredos.

                Eu não os vejo.

                - Porque és pessoa, e as pessoas não vêm segredos.

                Disseste que os segredos se viam.

                - Eu vejo os segredos. Mas eu não sou pessoa, sou uma palavra invisível.

                Beijei-lhe os olhos e ele deixou-me dormir ao lado dele.

publicado por Katerina K. às 22:23

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