BLOG FECHADO

14
Fev 10

 Já há algum tempo que queria voltar a escrever sobre a minha personagem mais popular, o Anjo. Para quem não conhece, o Anjo é o co-protagonista dos dois primeiros contos que publiquei no meu blog: O Rapaz Cor de Luz e Brisa Marítima, respectivamente. Então, enquanto vocês esperam por um novo capítulo d'A Rainha, decidi escrever um pequeno texto, quase uma antecipação, daquilo que planeio escrever mais tarde. Aqui têm «Deixa-me o teu sabor».


 

 

            As manhãs estivais eram todas diferentes. Havia calor no céu, a fazer desenhos rúbeos entre as nuvens cor de pele e a luz fina que parecia vir de qualquer estrela transcendente que afinal não existia. A claridade que entrava no quarto nunca era a mesma, apesar de tépida e cor de caramelo. Nessa manhã, as portas de vidro da varanda estavam abertas de par em par e as cortinas adejavam, de forma quase imperceptível, com a brisa macia e calma da infância do dia. Não havia maior silêncio do que o da pausa que o tempo sofria no momento em que o sol espreitava sobre as nuvens e o seu olho luminoso se alçava na abóbada do céu, com os pássaros debaixo do braço. Eu ficava a observar o dia, apenas a fitar um ponto vivo do horizonte, o qual havia perdido a sua linha e se havia fundido com a imensidão da terra. E havia a maior ausência de som que o silêncio podia conceber.

            Ouvi-o a abrir a porta. Ele fazia-o sempre da mesma maneira, empurrando-a gentilmente com o ombro e ficando no umbral, hirto, como se não soubesse falar. Ele sabia que eu estava acordada; havia algo de curioso na minha respiração quando eu dormia, e o Anjo reconhecia todas as pequenas peculiaridades da minha existência. Lentamente, caminhou sobre a carpete, como um felino de movimentos graciosos a observar a savana pelas fendas da erva alta e seca. Percebi que ele passou por mim quando o cheiro do seu perfume, frio e doce, desenhou um sulco dentro de mim. Abri os olhos. Lá estava o Anjo, alto e esbelto, recortado contra a luz morna que o céu oferecia. A sua pele branca refulgiu quando um raio de sol esticou os seus braços áureos até ele, trespassando-lhe os olhos. Nestes flutuaram laivos de cor, alguns quentes, outros gélidos, que se abraçavam numa simbiose perpétua e do tamanho do milénio. Havia ali cores perdidas que ainda não se conheciam mas eu aprendera a reconhecer, lentamente, quando entre mim e ele só havia luz e respiração. O Anjo era belo, belo como algo que é imutável e nunca conheceu outra realidade para além da perfeição. O rosto magro e os lábios pálidos encontravam-se imóveis, mas percebi que ele sorria com os olhos, fazendo as maçãs do rosto subir apenas muito ligeiramente, de forma quase imperceptível. Compreendi que ele não estava a olhar para mim, mas através de mim, como se tentasse absorver aquilo que eu estava a pensar.

            - Bom dia. – disse eu.

            O Anjo apoiou-se na perna esquerda e inseriu as mãos nos bolsos das calças.

            - Está uma bela manhã. – replicou, e os seus olhos ficaram cinzentos.

            Apesar de a voz do Anjo ser calma e melodiosa, ele falava comigo sempre sem expressão. Com os outros, não era a mesma coisa; ele era mestre da ironia e do sarcasmo monocórdico, tal como todos os seus irmãos. No entanto, o Anjo fazia-o com uma graciosidade e classe que ultrapassavam os limites do meu entendimento.

            - Hoje vai ser um dia interessante. – disse, enquanto se sentava na borda da cama.

            No último ano que eu passara com ele, nunca o tinha ouvido a fazer uma previsão que fosse. Isto porque o Anjo se guiava pela racionalidade pura e extrema, onde apenas o presente era certo e o futuro, em si, não existia, porque o futuro são projecções dos sonhos e das esperanças vãs dos momentos em que o passado é demasiado duro. Mas ali estava ele, a dizer que aquele ia ser um dia interessante.

            Ergui o braço para lhe afastar um cabelo do rosto e ele agarrou-me a mão, passando as pontas dos dedos compridos por ela. Depois, demoradamente, baixou o meu braço, mantendo a sua garra marmórea em volta do meu pulso.

            - O que se passa, Anjo?

            Ele sorriu, provavelmente sem humor. Soube imediatamente que o que quer que fosse que tivesse acontecido, não o deixara particularmente satisfeito.

            - O Francisco.

            Há meses que eu não via o Francisco, especialmente desde que a escola começara e ele fora mandado para Londres. No entanto, não havia forma de esquecer aqueles grandes e gélidos olhos azuis a olhar através da fenda da porta, lançando-me flechas invisíveis e incendiadas que me dilaceravam a alma. Ele invejava-me pelo imensurável afecto que o Anjo, apesar de não o demonstrar abertamente, nutria por mim. No entanto, era maior o ódio que ele cultivava pelo Anjo por se ter deixado levar nesse afecto. O Anjo dissera-me, uma vez, que o Francisco se escondia dentro de si mesmo, e que me queria esconder num lugar onde apenas ele me pudesse odiar e amar simultaneamente. Eu tive dificuldade em acreditar. No entanto, o olhar frio daquele rapaz deixava-me a pensar se o Anjo teria razão. Era provável.

            - O que tem o Francisco?

            - Ele volta hoje, Joana.

            Senti medo, um medo glacial que me deixou impotente face ao facto de aquele olhar cruel estar de novo atrás da porta.

            - O que vais fazer?

            - Não sei. Mas dorme, por favor. – disse isto enquanto empurrava a minha cabeça suavemente de encontro à almofada.

            Levantou-se, vergou-se sobre mim e beijou-me nos lábios rapidamente antes de abandonar o quarto e fechar a porta. Não tardei a ouvir o piano, suplicando das profundezas do estúdio em cadências mornas. Não consegui dormir mais, na expectativa de que aqueles olhos azuis me aparecessem em sonhos.

            No entanto, o sabor do Anjo ficou nos meus lábios.

 

publicado por Katerina K. às 17:35

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