BLOG FECHADO

28
Fev 10

             A Rainha está parada. No entanto, continuo a escrever, a atirar ideias para o ar e deixá-las cair no papel desorganizadamente. Aqui fica mais um dos produtos dessas divagações:


                A estrada parecia cada vez mais longa. O asfalto molhado corria severamente sob os seus pés, intocado e negro como corvos, ainda tépido da passagem rasteira das rodas dos carros. Sentia o bater do coração nas têmporas, ritmado e duro, a fazer as gordas gotas de suor ressaltar na pele da testa. E o som da sua respiração ofegante, pulsando surdamente nos ouvidos, dilacerava o silêncio. As luzes da cidade ficavam cada vez mais pequenas, até se transformarem em pontos frios e intermitentes que furavam a escuridão nocturna, bruxuleando no céu roxo.

                Artem Domashevich deixou o vento empurrar-lhe a corrida, embalando-o com uma velocidade espectral. Já não sentia as pernas; os músculos contraíam-se-lhe e o suor escorria-lhe pelos sulcos da pele, a qual exalava um vapor raso e cinzento. A nuvem de condensação causada pela respiração pesada bailava-lhe na frente do rosto, sendo ocasionalmente desfeita pelo movimento. Os cabelos loiros colavam-se-lhe à testa baixa e pálida, embebidos em suor líquido e escorregadio. A camisola húmida marcava-lhe os contornos dos abdominais excepcionalmente bem definidos e dos bíceps fortes e férreos. Os seus olhos, os quais, apesar de serem de um poderoso azul metálico, eram revestidos por uma camada negra que lhe trespassava a alma. Uma gota de suor escorreu-lhe pela testa e deslizou sobre a ponte do nariz ligeiramente aquilino. As suas feições pujantes e bem demarcadas enchiam-lhe o rosto de uma sensação exótica e gélida. Era um homem atraente, de forma quase magnética, sólida e desorientadoramente maciça, como um boneco de cera demasiado real.

Artem gostava de correr depois de a noite já ter caído. Encontrava na frieza nocturna algo que lhe lembrava S. Petersburgo, a sua cidade natal. Não havia luzes, não havia cidade, apenas o lento compasso noctívago que nascia no momento em que o lusco-fusco eclodia sobre as nuvens latentes. Faltava-lhe apenas o toque taciturno e branco da neve, desenhando camadas longas e finas sobre o horizonte.

A estrada continuava a estender-se até ao nó do universo, firme no berço onde tinha sido escavada. Ao fundo da noite, na dobra do céu, um quadrado luminoso deslizou sobre a sombra dos braços nus e secos das árvores. A névoa levantou-se, e um edifício alto do estilo eduardiano, bordado de varandins brancos, beijou a ponta da estrada. A luz de uma lareira crepitava através de uma das janelas do primeiro andar, recortando sombras numa parede afastada. Artem abrandou o passo, acabando por parar a uma distância confortável da casa. Reconheceu a sombra delgada de Wynn no nevoeiro quente e rósea do fogo. Foi obrigado a esboçar um sorriso. Para além de uma mulher bonita, Wynn era intrigante. Detentora de um rosto alto e inteligente, faces brancas e braços imaculados, um pescoço comprido e elegante, a bailarina agitava-se entre tules e sedas como se disso dependesse o resto inexistente do presente. A sua aparência frágil escondia uma poderosa força física e psicológica, salpicada de Tchaikovsky e Prokofiev, de frases soltas de ballets perdidos nos recantos da sua vida. E desapareceu na névoa fogosa das janelas.

Artem fechou os olhos e imaginou como seria uma noite com sol.

publicado por Katerina K. às 23:18

14
Fev 10

 Já há algum tempo que queria voltar a escrever sobre a minha personagem mais popular, o Anjo. Para quem não conhece, o Anjo é o co-protagonista dos dois primeiros contos que publiquei no meu blog: O Rapaz Cor de Luz e Brisa Marítima, respectivamente. Então, enquanto vocês esperam por um novo capítulo d'A Rainha, decidi escrever um pequeno texto, quase uma antecipação, daquilo que planeio escrever mais tarde. Aqui têm «Deixa-me o teu sabor».


 

 

            As manhãs estivais eram todas diferentes. Havia calor no céu, a fazer desenhos rúbeos entre as nuvens cor de pele e a luz fina que parecia vir de qualquer estrela transcendente que afinal não existia. A claridade que entrava no quarto nunca era a mesma, apesar de tépida e cor de caramelo. Nessa manhã, as portas de vidro da varanda estavam abertas de par em par e as cortinas adejavam, de forma quase imperceptível, com a brisa macia e calma da infância do dia. Não havia maior silêncio do que o da pausa que o tempo sofria no momento em que o sol espreitava sobre as nuvens e o seu olho luminoso se alçava na abóbada do céu, com os pássaros debaixo do braço. Eu ficava a observar o dia, apenas a fitar um ponto vivo do horizonte, o qual havia perdido a sua linha e se havia fundido com a imensidão da terra. E havia a maior ausência de som que o silêncio podia conceber.

            Ouvi-o a abrir a porta. Ele fazia-o sempre da mesma maneira, empurrando-a gentilmente com o ombro e ficando no umbral, hirto, como se não soubesse falar. Ele sabia que eu estava acordada; havia algo de curioso na minha respiração quando eu dormia, e o Anjo reconhecia todas as pequenas peculiaridades da minha existência. Lentamente, caminhou sobre a carpete, como um felino de movimentos graciosos a observar a savana pelas fendas da erva alta e seca. Percebi que ele passou por mim quando o cheiro do seu perfume, frio e doce, desenhou um sulco dentro de mim. Abri os olhos. Lá estava o Anjo, alto e esbelto, recortado contra a luz morna que o céu oferecia. A sua pele branca refulgiu quando um raio de sol esticou os seus braços áureos até ele, trespassando-lhe os olhos. Nestes flutuaram laivos de cor, alguns quentes, outros gélidos, que se abraçavam numa simbiose perpétua e do tamanho do milénio. Havia ali cores perdidas que ainda não se conheciam mas eu aprendera a reconhecer, lentamente, quando entre mim e ele só havia luz e respiração. O Anjo era belo, belo como algo que é imutável e nunca conheceu outra realidade para além da perfeição. O rosto magro e os lábios pálidos encontravam-se imóveis, mas percebi que ele sorria com os olhos, fazendo as maçãs do rosto subir apenas muito ligeiramente, de forma quase imperceptível. Compreendi que ele não estava a olhar para mim, mas através de mim, como se tentasse absorver aquilo que eu estava a pensar.

            - Bom dia. – disse eu.

            O Anjo apoiou-se na perna esquerda e inseriu as mãos nos bolsos das calças.

            - Está uma bela manhã. – replicou, e os seus olhos ficaram cinzentos.

            Apesar de a voz do Anjo ser calma e melodiosa, ele falava comigo sempre sem expressão. Com os outros, não era a mesma coisa; ele era mestre da ironia e do sarcasmo monocórdico, tal como todos os seus irmãos. No entanto, o Anjo fazia-o com uma graciosidade e classe que ultrapassavam os limites do meu entendimento.

            - Hoje vai ser um dia interessante. – disse, enquanto se sentava na borda da cama.

            No último ano que eu passara com ele, nunca o tinha ouvido a fazer uma previsão que fosse. Isto porque o Anjo se guiava pela racionalidade pura e extrema, onde apenas o presente era certo e o futuro, em si, não existia, porque o futuro são projecções dos sonhos e das esperanças vãs dos momentos em que o passado é demasiado duro. Mas ali estava ele, a dizer que aquele ia ser um dia interessante.

            Ergui o braço para lhe afastar um cabelo do rosto e ele agarrou-me a mão, passando as pontas dos dedos compridos por ela. Depois, demoradamente, baixou o meu braço, mantendo a sua garra marmórea em volta do meu pulso.

            - O que se passa, Anjo?

            Ele sorriu, provavelmente sem humor. Soube imediatamente que o que quer que fosse que tivesse acontecido, não o deixara particularmente satisfeito.

            - O Francisco.

            Há meses que eu não via o Francisco, especialmente desde que a escola começara e ele fora mandado para Londres. No entanto, não havia forma de esquecer aqueles grandes e gélidos olhos azuis a olhar através da fenda da porta, lançando-me flechas invisíveis e incendiadas que me dilaceravam a alma. Ele invejava-me pelo imensurável afecto que o Anjo, apesar de não o demonstrar abertamente, nutria por mim. No entanto, era maior o ódio que ele cultivava pelo Anjo por se ter deixado levar nesse afecto. O Anjo dissera-me, uma vez, que o Francisco se escondia dentro de si mesmo, e que me queria esconder num lugar onde apenas ele me pudesse odiar e amar simultaneamente. Eu tive dificuldade em acreditar. No entanto, o olhar frio daquele rapaz deixava-me a pensar se o Anjo teria razão. Era provável.

            - O que tem o Francisco?

            - Ele volta hoje, Joana.

            Senti medo, um medo glacial que me deixou impotente face ao facto de aquele olhar cruel estar de novo atrás da porta.

            - O que vais fazer?

            - Não sei. Mas dorme, por favor. – disse isto enquanto empurrava a minha cabeça suavemente de encontro à almofada.

            Levantou-se, vergou-se sobre mim e beijou-me nos lábios rapidamente antes de abandonar o quarto e fechar a porta. Não tardei a ouvir o piano, suplicando das profundezas do estúdio em cadências mornas. Não consegui dormir mais, na expectativa de que aqueles olhos azuis me aparecessem em sonhos.

            No entanto, o sabor do Anjo ficou nos meus lábios.

 

publicado por Katerina K. às 17:35

10
Fev 10

                 Dexter pousou o prato sujo na bancada da cozinha e passou os talheres por água, lentamente, a ver o líquido saltar sobre o metal refulgente. Com um movimento de pulso, empurrou a torneira e o fio transparente que corria até à superfície do lavatório cessou. Limpou a humidade das mãos a uma toalha que pendia da parede e abriu a porta do frigorífico. Uma vaga de ar gélido mordeu-lhe o pescoço e os braços. Perguntou-se como o irmão podia um frigorífico tão vazio; apenas uma lata de soda e uma cenoura solitária se arrastavam nos fundos de uma prateleira. Dexter fechou a porta do electrodoméstico e, através do arco que separava a cozinha do resto da casa, observou a amplidão da sala. O apartamento de Sawyer Hayden, estrategicamente situado no coração de Washington, era alvo de uma luz branca e plana que se reflectia em todos os outros edifícios e entrava pela ampla janela panorâmica em vários ângulos macios e coloridos que se afastavam e subiam pelas paredes. Dexter encostou-se à parede e cruzou os braços com algum esforço; a ligadura apertou-lhe a pele e fez uma pressão tépida sobre o músculo. Ainda lhe custava a acreditar que o irmão, o eterno homem sem pátria, tivesse voltado a casa. Sabia que aquilo que tinha vindo fazer, os assuntos que viera finalmente resolver, mexiam com ele e levavam-no a misturar realidade com ficção. Dexter lembrava-se demasiado vividamente do dia em que o irmão havia sido alvejado. O sangue, tanto sangue. Era fascinante que um líquido tão vermelho, tão refulgente, fizesse a vida tal como ela é. No entanto, no caso de Sawyer, à medida que aquele líquido tão cristalinamente belo corria livremente ao ar ambiente, o homem perdia cor e os seus lábios ficavam frios e secos. A vida desaparecia, como neve debaixo do sol.

                Dexter só se apercebeu da campainha alguns minutos depois de esta ter tocado, insistentemente. De volta à realidade, perguntou-se se alguém saberia que Sawyer estava de volta a Washington. Perguntou-se se A Rainha saberia.

                O homem atravessou a sala, destrancou a porta de entrada e abriu-a.

                - Dexter. Querido Dexter.

                Um par de braços nus, elegantes e pálidos envolveram-lhe o pescoço num laço estreito e quente como fogo. O rosto de Dexter ficou mergulhado numa densa cabeleira negra que cheirava estranhamente a fruta. Ouviu o inusitado tilintar de uns brincos metálicos, de muitos brincos metálicos.

                - Tive tantas saudades tuas, Dex. Nem imaginas.

                - Marianne. – e envolveu-a mais no seu abraço.

                O coração enterrou-se-lhe no peito e vibrou com o pulsar da sensação que lhe percorria as veias. Era como se ela, por alguma ligação simbiótica, o injectasse com uma ardente energia. E o sabor desse poder cresceu dentro dele, igualando o desejo de a ter.

                Marianne libertou-se do abraço e afastou o cabelo do rosto de forma lenta, quase meticulosa. Colocou as mãos em volta dos bíceps de Dexter e respirou profundamente.

                - Não apertes com muita força. – disse ele – Estou magoado.

                Ela recolheu aos mãos rapidamente e dispô-las em cruz sobre o peito.

                - Desculpa, Dex. Realmente o teu irmão tinha-me avisado, mas esqueci-me. Desculpa.

                - O meu irmão? Estiveste com o Sawyer?!

                Ela baixou o rosto. Percebeu imediatamente depois de ter falado que provavelmente teria sido melhor não ter feito aquele reparo. Isto porque Dexter, apesar de idolatrar o irmão até níveis excessivos, até perigosamente elevados, nutria uma certa inveja por ele. Sawyer era o típico dominador, o homem forte que recolhia todas as energias dos outros e as emitia amplificadas. O homem que iluminava o mundo com uma palavra apenas porque era sua. O homem que todos queriam ser. Marianne conhecia-os, bem demais. No entanto, não podia negar que, apesar de nutrir maior afecto por Dexter, Sawyer causava nela outro tipo de emoção, baseada na curiosidade e intriga em relação àquele homem de mil faces que lhe lançava um olhar em branco, à espera de ser preenchido.

                - Estive, sim. – respondeu – Foi só um minuto, para discutirmos um caso. Ou pseudo-caso.

                - A Rainha?

                - Mais ou menos, é complicado.

                Dexter meneou a cabeça.

                - O Sawyer também diz isso muitas vezes. É complicado. Talvez não seja assim tão complicado.

                - Oh, Dex, não sejas assim, já me basta o teu irmão. E não vim aqui para discutir; vim porque tinha saudades e queria passar tempo contigo. Mas, se quiseres, eu vou-me embora.

                - Não. – disse ele, num curto fio de voz – Não vás. Fica.

                Um segundo de macio silêncio. Marianne sorriu.

                - Muito bem, então. Fecha a porta.

 

 

 

 

 

Edit:

A Rita (from Electric Twist) passou-me um desafio. E eu não ia dizer que não, como é obvious.

Enunciar 5 manias suas, hábitos muitos pessoais. E além de dar ao público conhecimento dessas particularidades, tem de escolher 5 bloguistas para entrarem, igualmente, no jogo. Cada participante deve produzir este regulamento no seu blogue.

 

Mania nº 1 - Escrever. Calculo que não seja grande surpresa, mas estou sempre a escrever. Maior parte das vezes são coisas grandiosamente idióticas, tal como novelas de nome «Sangue no Colarinho» ou «Laços de Paixão Ardente», mas de vez em quando saem coisas engraçadas. É a minha maneira de falar com o mundo.

Mania nº 2 - Falar sozinha. Esta mania é consequente da mania nº1. Quando não posso escrever, faço notas mentais, e falar comigo mesma é uma fonte fabulosa e sempre fértil de diálogos incrivelmente interessantes.

Mania nº 3 - Beber café. Não passo sem o meu cafezinho às dez da manhã. O acto de ir à máquina, passar o cartão e carregar no botãozinho do «café expresso» já se tornou um hábito tão intrínseco como respirar.

Mania nº 4 - Pintar as unhas. É estúpido, eu sei, e parece incrivelmente «pitês», mas eu sou viciada. Tenho, sem exagerar, dezenas de vernizes nas prateleiras da casa de banho e do meu quarto, começando no preto, passando pelo vermelho, pelo verde, laranja, amarelo, rosa, azul, até acabar no branco. Relaxa-me, e fico com uns dedos infinitamente mais fascinantes.

Mania nº 5 - Cantar nas horas entre as aulas de música. Esta mania é tradição. Há anos que, nos intervalos da Academia, a minha turma (somos 6) se junta em volta de um piano. É incrível, a sério. Tenho imensas memórias boas desses momentos. Recentemente, andamos ocupados a fazer covers dos covers do Glee.

 

 

E passo o desafio a:

Mariana*

Sophie (dona do Endlessly)

Mia

Ritaa

Kii

publicado por Katerina K. às 22:52

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