BLOG FECHADO

31
Jan 10

             Através do vidro semi-espelhado da sala de interrogatórios do edifício J. Edgar Hoover, Aldous McBee observava o estranho indivíduo que, de mãos cruzadas sobre a barriga, mostrava uma expressão insólita. Sem dúvida, tratava-se de um homem com descendência latina, de rosto fino e afunilado, grandes olhos cor de avelã e pele morena. O cabelo negro despenteado escondia-lhe as estranhas feições. Ao peito, espreitando da camisa, usava um fio de ouro do qual pendia um medalhão com uma imagem religiosa. Apesar da ausência de tatuagens, Aldous percebeu que algo nele não batia certo. A sua expressão era calma demais, como se já tivesse passado por aquela situação várias vezes. E não era de estranhar.

            Aldous ouviu a porta bater atrás de si. Por cima do ombro, viu um homem alto e entroncado, vestindo um severo fato negro que lhe alongava o corpo poderoso. Uma camisa extremamente branca, que parecia até produzir a sua própria luz, servia de intermediário entre o casaco e a gravata, ambos imersos num negrume possante. O tecido engomado ascendia até à pele, tostada e lisa, que desembocava no cabelo loiro perfeitamente penteado. Cabelo loiro como feno.

            - Sawyer?! Santa Mãe de Deus, nem parecias tu. – exclamou, levando as mãos ao ar.

            Sawyer Hayden sorriu, avançando com as mãos nos bolsos e os sapatos italianos a cliquetear contra o linóleo que cobria o solo.

            - Estás assim tão surpreso? Ainda tenho os meus fatos antigos e lembro-me bastante bem dos protocolos do FBI em relação à maneira como nos apresentamos oficialmente.

            - Pois, calculo que sim…Mas já não me recordava de te ver assim.

            Sawyer não respondeu. Deleitou-se interiormente com o aspecto atarantado que Aldous não conseguia afastar do rosto. No entanto, também ele estava surpreendido consigo mesmo. Já não estava habituado à prisão que o tecido escuro dos fatos lhe oferecia, nem à extrema precisão que toda a sua figura exalava. Mas todos esses pensamentos se esfumaram da sua mente quando reparou no estranho indivíduo que se encontrava do outro lado do vidro.

            - Que pessoa extraordinária. – pronunciou, deixando o lábio inferior ligeiramente descaído.

            Aldous abriu uma pasta sobre a palma da mão esquerda, fazendo um número de folhas adejar.

            - Antonio de la Cruz, mais conhecido por Iggy.

            - Iggy. Como em iguana. Ah!, a ironia! – Sawyer atirou a cabeça para trás.

            - Sim, é verdade. E o tipo é má rês, também. Já viste isto? Podia forrar as paredes da minha sala só com o cadastro dele.

            - Calculo. Por isso é que o quero interrogar, acho que vai ser extremamente interessante.

            - Queres interrogá-lo?! – Aldous virou-se repentinamente – Não achas que estás um pouco enferrujado?

            - Não. Isto é como andar de bicicleta, nunca se esquece. – sorriu – E tenho o privilégio de fazer certas perguntas e insinuar coisas que um agente oficial do FBI nunca poderia fazer, o que é óptimo.

            - Não te estiques. – fez o «i» ressoar, tal como o pai costumava fazer.

            Com um sorriso, Sawyer ajustou o relógio Rolex no pulso e saiu pela porta da sala de controlo. Contornou a esquina e percorreu o corredor até se ver frente a uma porta metálica inscrita de Sala de Interrogatórios nº 1. Girou a maçaneta e empurrou a porta com o ombro. O cheiro esterilizado do desinfectante encheu-lhe as narinas. Não se lembrava de o odor ser tão intenso, antigamente. Fechou a porta atrás de si com um clic gentil e recostou-se no metal, cruzando os braços. O outro virou-se devagar, apoiando-se no espaldar da cadeira.

            - Boa tarde, Iggy.

            - Quem raio é você? – a voz do homem era marcada por um intenso sotaque latino.

            Sawyer sorriu.

            - Agente Especial Hayden. É um prazer.

            - O prazer é todo seu. – tentou rir-se.

            - Não brinques comigo, Iggy. Tu não queres brincar comigo.

            Sawyer puxou de uma cadeira e sentou-se, com o espaldar encostado ao peito.

            - Iggy. Iggy, Iggy, Iggy. Quem é A Rainha?

publicado por Katerina K. às 21:04

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