BLOG FECHADO

07
Jan 10

 

            Aldous McBee apertou o nó da gravata de modo que este ficasse impecável contra a brancura da camisa. O seu rosto severamente magro contorcia-se de nervosismo na escuridão do veículo. O calor do Texas entrava-lhe pela manga do casaco e deslizava braço acima com uma incomodativa facilidade, banqueteando-se no tecido do seu fato e na superfície húmida da sua pele. Nos cabelos cor de cinza, rentes à cabeça, brilhavam centenas de gotículas de suor. Latentes da penumbra, dois pequenos olhos violetas furavam o ambiente com uma vida que tremeluzia no ar. Respirou fundo. Não gostava de calor, não gostava de gado, nem gostava do indivíduo que tinha de visitar. Aquela situação, no seu todo, era terrivelmente incómoda para uma pessoa do estatuto de Aldous McBee. Mas, de qualquer modo, ainda tinha de obedecer a ordens (não por muito tempo, pensou). Abriu a porta do automóvel, e a paisagem texana estendeu-se por todo o terreno que os seus olhos conseguiam captar. Por todo o lado havia choupos, árvores baixas, arbustos com folhas grossas de um verde apagado que pareciam ter sido cobertas por farinha; uma extensa camada de erva verdejante ladeava os caminhos de terra cor de tijolo que desapareciam no horizonte ou na boca das casas. Um portão de ferro pintado de negro estava aberto para trás e dava entrada para uma propriedade vasta que se perdia longe do olhar. Na sombra das árvores, uma casa branca de rebordo amarelo reflectia a intensa luz solar própria do Verão. Aldous meneou a cabeça e encaixou os óculos de sol na cana do nariz. Lamentava o facto de ter de sujar os sapatos novos com o pó avermelhado da terra e de ir certamente ficar coberto em sujidade e respiração de cavalo. Atravessou o portão e percorreu o caminho, debaixo do sol escaldante. Não tardou a ouvir o som estridente do relinchar dos cavalos e o som oco que os seus cascos emitiam ao embater no solo. Aldous contornou a casa e, depois da esquina mais longínqua, viu-se dentro de um pátio terroso que compreendia um cercado envolto em grades de ferro. No outro canto, um estábulo de madeira, estremecia ligeiramente na cálida aragem estival. Protegido pela sombra, um homem alto e espadaúdo retirava o freio a um majestoso cavalo negro. Os seus bíceps, morenos e musculados, expostos ao calor do final da manhã, brilhavam de suor. As suas roupas, gastas e sujas, estavam cobertas pelo pó avermelhado do caminho.

            - Olá, Sawyer.

            O homem enrolou as rédeas do cavalo em volta do braço e virou-se lentamente. Uma mecha rebelde do cabelo loiro como feno, colada à testa, caía graciosamente na pele tostada, e os seus olhos castanhos fixaram-se na figura austera e magra do agente do FBI.

            - Aldous McBee. Que surpresa tão agradável.

            Sawyer Hayden exibiu um sorriso que, apesar de agradável, era enganador. Aldous acercou-se do outro, mantendo a sua pose politicamente correcta e autoritária.

            - Calculo que sim. – respondeu, cinicamente – Sabes, Sawyer, nunca pensei que uma pessoa como tu se dedicasse à vida do campo.

            - A vida do campo é bastante mais complicada do que pensas. Não duravas um dia.

            Levando o cavalo, afastou-se em direcção à semi-escuridão do estábulo. Prendeu o animal e, ternamente, afagou-lhe a crina comprida e macia.

            - Ouve, eu não vim aqui para estar com rodeios. Não gosto de ti e não gosto de aqui estar. – disse Aldous, como se estivesse a cuspir para uma poça de lama – Mas a verdade é que preciso da tua ajuda. Ou pelo menos o departamento precisa.

            O outro riu-se, sentando-se sobre um banco baixo ao qual faltava uma perna.

            - Caso não tenhas recebido o memorando, eu estou aposentado. – levou um cigarro estranhamente espalmado aos lábios.

            - Tens trinta e quatro anos. Essa história da reforma é, se me permites, uma grande treta.

            Sawyer soltou uma fumaça, e os seus olhos pareceram refulgir atrás do fumo.

            - O que queres de mim?

            Aldous McBee levou a comprida mão amarelada ao bolso e retirou uma fotografia, estendendo-a ao outro. Sawyer aceitou-a e observou o que ela mostrava com uma curiosidade mórbida.

            - Isto é o Brilho do Pacífico.

            - Exacto. – assentiu Aldous – E foi roubado.

            - E então? Não precisas de mim para resolver isto. Valha-me Deus, tu és um agente de nível superior.

            - Não preciso de ti. Preciso d’A Rainha.

publicado por Katerina K. às 22:08

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