BLOG FECHADO

22
Dez 09

            - Senta-te. – disse ela, num tom de voz calmo e melodioso, acompanhado por um gesto lânguido que a sua mão descreveu.

            Jesse obedeceu, acomodando-se no cadeirão que se apresentava do lado oposto do tabuleiro de xadrez. Jacqueline entrelaçou os dedos e pousou as mãos no regaço. Algo no seu olhar sugeria que ela estava a divertir-se com toda aquela situação.

            - Tens uma reputação fantástica, Jesse. – ela pronunciou o nome dele, acentuando cada letra, como se estivesse a tomar banho nele.

            - Ora ainda bem. – respondeu, à medida que as palavras batiam em retirada.

            - Tens mesmo. Confesso que dediquei algum tempo destes anos a estudar-vos. Como é óbvio, não queria ter surpresas desagradáveis quando vos recebesse. Tu, claro, não foste excepção. És uma pessoa fabulosa, psicologicamente. Tens um controlo excepcional de ti próprio, apanhar-te em falso é praticamente impossível. No entanto, não deixei de encontrar algumas coisas interessantes sobre ti.

            Jacqueline inclinou-se sobre o tabuleiro e fechou os dedos sobre o rei branco, levantando-o à altura dos olhos.

            - Nasceste no Sussex, no meio das árvores e do verde. Branco como a luz era o que dizia a tua avó, não era? Deve ter sido fabuloso, crescer num ambiente daqueles. Sempre foste uma criança fora do normal. Nunca pudeste estudar fora de casa, já que a tua mãe morreu pouco depois de nasceres e o teu pai era professor de violoncelo. Foi aí que começou a paixão, não foi? Só posso imaginar, porque uma situação dessas é-me totalmente estranha. A tua vida até aos quinze anos é muito vaga, e foi muito difícil encontrar qualquer tipo de informação sobre ela. Mas, claro, a partir do teu décimo quinto aniversário, as coisas tornaram-se muito mais claras. Começaste a ganhar fama. Eras o melhor amigo do Edward Cole, tinhas as melhores influências e os melhores contactos. A tua relação com a Violet, uma jovem estrela em ascensão, contribuiu para que a tua reputação se fosse estabelecendo. Mas esse ano também foi o mais turbulento de todos. Nesse Verão, vieste para o Le Château. Foi aí que te conheci. Ainda não tinhas essa cicatriz horrível a desfigurar-te a mandíbula. Custa-me a acreditar que tenha sido o Edward a fazer-ta, mas a verdade é que foi. Nesse fim de Verão, saíste da AMPW e ingressaste na School of Arts. Transformaste-te numa pessoa totalmente diferente.

            - Também tu, Jacqueline.

            - É verdade, sim. Mas tu, tu mudaste completamente. Cortaste ligações com o mundo, isolaste-te num grupo estranho de amigos. Mas a verdade é que foi nesse período que te definiste como violoncelista. Nunca ouvi Bach como tu o interpretas. Lembro-me de uma tarde, no auditório do Le Château, quando te ouvi a tocar o Prelúdio da Suite número um. Simplesmente fabuloso. Era como se cantasses cada nota e eu as ouvisse a todas claramente a dançar umas com as outras. Tinhas um Montagnana, um belíssimo instrumento.

            - Tinha, e ainda tenho. Mas Jacqueline, não vim aqui para falarmos de mim. Vim aqui porque quero que libertes a Violet e a Leah.

            Por momentos, Jesse pensou que ela se ia rir. No entanto, manteve-se apenas a sorrir cinicamente.

            - Vou libertar a Leah, eventualmente. Ela é tua irmã, entendo a tua preocupação. Mas não percebo o porquê de estares apreensivo em relação à Violet. Afinal, passado é passado.

            - Oh, Jacqueline. – repondeu ele, soltando uma risada – Esse não é o melhor caminho. Logo tu, a dizeres isso. – estendeu o braço e puxou o rei branco de entre os dedos dela, fechando-o dentro da sua própria mão – Se passado é passado, porque não deixas as coisas como estão e paras com este plano doido? Já viste bem o quão hipócrita estás a ser?

            - Eu? Hipócrita? Bravo, Jesse, é a primeira vez que tens a coragem de me dizeres na cara o que realmente pensas de mim. – inclinou a cabeça num gesto cínico e juntou as mãos como em oração.

            - Nunca escondi nada de ninguém. Tu sabias bem o que eu pensava de ti. Nunca precisei de te dizer, porque para bom entendedor meia palavra basta.

            Pousou lentamente o rei branco sobre o tabuleiro, terminando a sua argumentação com um movimento nobre no qual levantou o queixo e se recostou no cadeirão.

            - Vais morrer, Jesse. – disse ela, sorrindo.

            - Tens a certeza?

            Num movimento rápido, Jesse baixou o olhar para o cós das calças e retirou a Smith & Wesson do seu local de descanso. O metal soltou um silvo e brilhou orgulhosamente na luz quente do fogo.

            Mas quando Jesse levantou a cabeça, Jacqueline tinha desaparecido. 

publicado por Katerina K. às 14:19

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