BLOG FECHADO

18
Dez 09

             Edward juntou as mãos em concha e expirou para dentro delas. A noite caíra, em Paris, e os candeeiros brilhavam como faróis dourados. Danny olhou o relógio, estava na hora. Mentalmente, Edward recapitulou para si mesmo os passos do plano que Michael tecera em conjunto com Jesse. Era terrivelmente simples, básico, até; por isso mesmo, podia ser que resultasse. Ela ia, com certeza, estar à espera deles.

            Ao longe, a figura espectral de Jesse apareceu difusa na escuridão. Foi-se aproximando, como amálgama de escuro e claro, confundindo-se consigo mesmo e camuflando-se na negrura das paredes nocturnas. Caminhava firmemente, enxotando folhas mortas com as Doc Martens. Não se sentia particularmente nervoso, mas uma certa ansiedade agitava-se levemente dentro de si como asas de pássaros. Percorreu a rua com o olhar, certificando-se que tudo estava exactamente como ele esperava que estivesse: perfeito. A estrada era ladeada por duas filas de candeeiros altos de ferro com corpos finos e retorcidos sobre si mesmos, como num quadro surreal. Dentro de uma caixa de vidro, uma bola dourada brilhava no topo do caule metálico. Aquela era uma rua triste, marcada pelo cinzento da pedra dos edifícios, manchados da chuva, como se chorassem das janelas e estas fossem olhos.

            - É aquela? – perguntou Edward, apontando para uma casa estreita do estilo Eduardiano.

            - Sim. – respondeu Danny, soltando uma nuvem de condensação pela boca.

            Michael dissera-lhes qual era a casa, a única casa, em Paris que estava no nome de Cornélia. Jesse sabia que ela nunca tivera uma casa em Paris, portanto fora fácil entender que aquela era mais uma das pistas perversas deixadas por Jacqueline. De certa forma, era impossível acreditar que algo de terrível se estivesse a passar naquela casa; a rua estava tão calma, tão silenciosa, que Edward conseguia ouvir claramente a voz da consciência. O som dos passos de Jesse soou horrivelmente ampliado, chegando aos ouvidos do pianista como um eco das profundezas do mar.

            - Boa noite.

            Danny assentiu com a cabeça e puxou a gola do casaco para cima, consultando de novo o mostrador do relógio. O ponteiro dos segundos movia-se com uma firmeza dura e irreal. Faltava um minuto.

            Edward lançou um esgar retorcido a Jesse, o qual se havia encostado a uma esquina, a fumar um Sobranie. Havia algo nele, no seu olhar, que fez Edward duvidar do lado do qual o outro estaria. Ouviu-o inspirar fundo e expulsar o fumo branco pelas narinas pálidas. Este ascendeu calmamente, numa névoa, sendo atravessado pela luz dourada dos candeeiros, e formou uma cortina em frente aos olhos de Jesse. A sua pupila, cheia de um vapor negro e flutuante, ocultava a íris descolorada, fazendo com que Jesse parecesse ausente. Na verdade, ele observava a casa. Sabia que era ali o refúgio de Jacqueline, o sítio onde ela montara as armadilhas e onde eles tinham de levantar a guarda para todo e qualquer sinal que trouxesse o augúrio de perigo. No entanto, tinham de se sujeitar a isso. Conhecendo-a, Jesse sabia que ela planeara todos os detalhes cuidadosamente, para que nada falhasse no cenário final. Sabia também que Jacqueline saborearia aquilo como a uma peça de teatro, dispondo as peças como se ela fosse o mestre e eles as marionetas.

            A mandíbula de Edward endureceu quando viu a sobrancelha direita de Danny ascender e formar um arco quebrado. O tempo tinha-se esgotado, e estava agora tudo em marcha. O minuto passara com o vento, a hora chegara.

            Jesse sorriu. O primeiro acto havia começado.

publicado por Katerina K. às 21:49

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