BLOG FECHADO

13
Dez 09

            Edward inclinou a cabeça para olhar pela fresta da porta do quarto de Jesse. Conseguia ver apenas uma linha, estreita, quase tímida, recortada na claridade decrescente do compartimento. Lá estava Jesse, sentado aos pés da cama, com a cabeça entre as mãos e os dedos escondidos pelos fios do cabelo descolorado. Era a primeira vez que o via assim, desesperado, perdido.

            Edward caminhou pelo corredor a arrastar os pés. Enfiou as mãos nos bolsos pensativamente, enquanto a sua mente era inundada pela brancura da neve que cobrira Paris naquele Inverno. Passaram três anos, mas aquela imagem estava tão recente em si como um quadro com a tinta ainda húmida.

***

            Violet baixou a cabeça e agarrou a mão morena de Michael numa procura de conforto. Um conjunto de folhas esbranquiçadas caíam serenamente sobre a campa cinzenta e fria de Jacqueline Soleil. Raoul Lewis, apoiado numa bengala comprida e negra, cambaleava na direcção do local de braço dado com Donna Weaver. Depois do acidente, ficara com as pernas paralisadas, mas todo o esforço e fisioterapia compensaram. Encostado a um carvalho, fora do cenário, Jesse Stone fumava um Sobranie. Expulsou o fumo por entre os dentes, numa nuvem lisa e branca que se confundia com a condensação da sua respiração. Era incrível, pensava, aquela rapariga, mesmo morta, só lhes trouxera problemas, e eles, mesmo assim, prestavam-lhe o maior respeito. Atirou a beata do cigarro para o chão e calcou-a com as pesadas Doc Martens. Estava na hora de se fazer à estrada; mais tempo em Paris, naquele ambiente de negro esquecimento, seria uma perda de tempo. Olhou Violet por uma fracção de segundo, e os seus músculos contraíram-se quase imperceptivelmente. Sabia que nunca mais a ia ver, e guardou a imagem do seu rosto.

            Estava na hora de se despedirem do Inverno. Chegaram ali para competir, para mostrar que eram músicos de topo e que ganhar era aquilo que faziam melhor. No entanto, depararam-se com morte, crime e segredos. Paul Carter e os seus companheiros tinham sido presos e condenados pelos roubos, pelo assassínio de Jacqueline Soleil e pela tentativa de matar Raoul. Apesar de tudo, nenhuma questão tinha sido deixada por resolver. Justiça tinha sido feita, se tal se poderia dizer, e Jacqueline podia, finalmente, descansar em paz.

            Jesse baixou a cabeça e, deslizando as mãos para dentro dos bolsos do sobretudo, afastou-se. Percorreu o caminho que cortava o relvado do cemitério como uma tira cinzenta. Os anjos de pedra, com manchas que pareciam lágrimas a correr-lhes dos olhos, fitavam-no, estendendo-lhe as mãos frias que tinham o paladar da morte e a luz da escuridão. Jesse, com a boca a saber a fumo e nicotina, lambeu os lábios. Estacou o passo. Por um momento, um longo momento, pareceu ter ouvido alguém a chamá-lo, a pronunciar o seu nome como se disso dependesse a vida. Abanou a cabeça, não podia ser. Retomou a caminhada, sem reparar que as silhuetas dos outros ficavam do tamanho de fósforos e desapareciam entre o branco da neve e da neblina.

***

            Edward abriu os olhos. Quando remexia naquelas memórias, era como se invocasse fantasmas. Nesses instantes, parecia-lhe impossível que Jacqueline estivesse, realmente, viva. Era doloroso demais acreditar que quem morrera na Avenue Noire fora, de facto, Cornélia. Mas, naquele momento, nada disso interessava. Não valia a pena preocupar-se com os mortos, pois esses dormiam o sono da eternidade e deles só restavam fiapos de recordações. Naquele momento, a preocupação eram os vivos, ou pelo menos aqueles que Edward esperava estarem vivos.

            - Edward?

            A voz de Michael chegou-lhe aos ouvidos com uma rouquidão pouco característica. Estava macilento, frágil como um copo de cristal. No entanto, os seus olhos transportavam um certo brilho, não mais que uma faísca, que pôs o coração de Edward no topo da garganta.

            - Diz-me.

            - Eu acho – disse Michael, sem qualquer expressão – que sei de uma maneira para encontrarmos a Jacqueline.

 

publicado por Katerina K. às 18:28

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