BLOG FECHADO

08
Nov 09

            A porta estava aberta para trás, escancarada até. O ar resfriado do crepúsculo entrou pela fralda da camisa e acariciou as costas de Edward num sussurro gutural. Encontrava-se tudo insolitamente silencioso, como um local de crime, e longas gotas de chuva dependuravam-se do telhado do alpendre como lágrimas de dor. Na praça, tudo perdera a cor. A água deixara de ser translúcida, tomando um tom que parecia sangue cinzento a rebrilhar à luz nocturna. Jesse, parado na frente da porta, observava a escuridão do interior com o olhar contraído e semicerrado. Completamente trajando de negro, a contrastar com a sua pele fria e branca, o cabelo descolorado a cair em duras farripas sobre o olho direito, destacava-se como maqueta de gente no mundo cinzento que se erguia à sua volta como muros. Pela primeira vez na sua vida, Violet apercebeu-se de que não conseguia pensar. A sua mente era invadida por um estranho torpor que trazia a sensação de morte. Danny aproximou-se dela e pousou-lhe a mão no ombro levemente.

            - Estás bem?

            Ela olhou-lhe a mão de esguelha e, aconchegando aos pulsos por baixo dos braços, respondeu numa voz sumida.

            - Sim, eu estou. Mas ele não. – apontou para Jesse com um indicador nervoso.

            A casa estava vazia. Nem vivalma se dava a conhecer. Jesse, pálido mesmo para a sua habitual tez ténue, observava a fachada, numa estranha procura por algo que não estava lá.

            Leah havia sumido por completo, deixando tudo para trás e a porta aberta. Na entrada da casa, formava-se um pequeno lago de chuva que entrava por entre as falhas das telhas do alpendre. O soalho não tardaria a inchar como um peixe-balão.

            Edward cobriu os ombros de Violet com o seu poderoso braço e manteve-a debaixo da sua fraternal protecção. Ela fechou os olhos e deixou-se levar pela calidez daquele abraço. Ouviu a voz dele, grave e baixa, a envolvê-la.

            - Temos de procurá-la.

            Silêncio.

            - Foi ela, Ed. – a rapariga fitou-o com certeza – Ela veio buscar a Leah. A Leah sabia de coisas que mais ninguém sabia.

            Edward apertou-a mais contra si. A chuva começava a pesar.

            Jesse fitou o chão e baixou-se sem ruído, percorrendo a madeira do alpendre com as pontas dos dedos. Pouco tempo de pois, o seu movimento parou, e os seus dedos agarraram algo como pinças. Erguendo o que havia encontrado à luz do fim de tarde, mais prateada do que colorida, um cabelo negro refulgiu entre a brancura da sua pele – um cabelo longo e espesso, ligeiramente ondulado na extremidade.

            - Oh, sim. – disse Jesse, exibindo um terrível sorriso que fez Violet encolher-se sobre si própria – A Jacqueline esteve aqui. E deixou-nos um presente.

publicado por Katerina K. às 14:27

05
Nov 09

            Leah afastou-se para contemplar a sua mais recente obra. Ergueu o indicador para limpar uma gota de tinta carmim que descia teimosamente ao longo do rebordo da tela. Estava óptimo, Michael havia de ter ficado orgulhoso dela. Esfregou o dedo no avental toldado de rajadas coloridas e pousou a paleta velha sobre a cómoda, depositando os pincéis sujos nos frascos de compota cheios de água.

            Leah Stone vivia em Dijon, numa modesta casa branca de dois andares que lhe satisfazia todas as necessidades. O edifício ficava do outro lado de uma praça ampla e redonda, no centro da qual uma fonte com uma estátua de bronze esguichava parábolas de água fresca para um lago translúcido murado a granito. O céu azul apoiava os alicerces nos telhados inclinados das casas vizinhas e descrevia um arco em forma de cúpula renascentista sobre a praça, morrendo numa rua qualquer sem placa. Apesar de tudo, Leah sentia falta do tempo chuvoso de Londres, dos nevoeiros cerrados e Verões húmidos.

            A chaleira assobiou irritantemente, soltando um pálido fio de vapor que formou uma coluna de condensação no azulejo. Leah apanhou o longo cabelo castanho na nuca, atravessou a sala alcatifada e calçou os sapatos para entrar na cozinha. Pela única janela, um raio de luz incidia na mesa das refeições após atravessar as cortinas. A rapariga, num calmo movimento, cobriu o fundo da caneca com folhas de chá enegrecidas, acabando por as envolver num manto líquido de água quente. Esta, aos poucos, foi sendo tingida de um tom arroxeado à medida que soltava uma deliciosa fragrância a frutos silvestres e a bosque. Leah sentou-se à mesa, beberricando hesitantemente o fluído. Aquele sabor lembrava-lhe a casa da avó Muriel, tardes de Outono e biscoitos caseiros, a luz dourada do campo e o riso ventoso de Jesse. Jesse. O seu rosto albino brilhou na claridade da memória como se tivesse luz própria. Já não o via há quantos anos? Dois? Não mais que três. Sentia a sua falta. Sempre tivera vergonha de admitir a doce atracção que ele exercia sobre ela, apesar de serem irmãos adoptivos. Toda a sua figura exalava escura confiança e poder, mesmo em criança. Esse domínio, precoce e arrasador, fez dele um maciço de personalidade e obscuros contornos. Nunca tivera barba, e o seu rosto branco aparecia como um espectro nos seus sonhos. A última vez que o vira, em Paris, amargurara-a. Gostava de lhe poder contar tudo o que sabia, as palavras em fuga que se lhe cravavam no peito insistentemente e lançavam sabor azedo sobre si mesma. Gostava que certas coisas caíssem na escuridão do esquecimento e não fossem mais que passado. No entanto, certas coisas não eram para ser ditas.

            Tocou a campainha, num pio intermitente que tremia nas paredes.

            A rapariga, ainda de olhos baixos, pensando nas coisas proibidas, abriu a porta. Do outro lado, ouviu o vento a roçar-lhe nas orelhas e uma voz familiar que lhe soava estranhamente nova:

            - Olá, Leah.

publicado por Katerina K. às 22:59

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