BLOG FECHADO

24
Nov 09

 

                O dia nasceu dourado, ruborizado por mil pigmentos de cor que espalhavam um tom quente e uniforme pelo céu. Ia ser um dia quente, pouco característico do Outono. O sol brilhou entre os pilares do Arco do Triunfo, transportando o seu estatuto imperial e braços de ouro. Uma brisa morna passou pelo pescoço do homem que, solitário, descia a avenida a passo estugado. A sua figura alta e bem constituída deslizava sobre o pavimento do passeio com uma elegância desumana. Vestia um fato negro que o fazia parecer ainda mais magro; no seu peito desenhava-se um triângulo de camisa branca cortado perfeitamente ao meio por uma gravata de seda preta impecavelmente engomada. Entre os dedos da mão bronzeada, segurava uma sóbria pasta rectangular de couro negro. O seu rosto não enquadrava com a geometria do seu corpo, sendo um quadro perfeito de atraentes feições morenas. Um par de olhos azuis tomava o seu lugar na zona escurecida no topo das maçãs do rosto. Passou a mão pelo pescoço, e a sua pele roçou o cabelo castanho exemplarmente penteado. Caminhava determinado, com uma espectacular postura, a postura de quem tinha treino militar. Uns minutos depois, entrou no Café Doirée e sentou-se ao balcão, pousando a mala entre as pernas. Entrelaçou os dedos e depositou os pulsos sobre a madeira, esticando ligeiramente os braços. A empregada aproximou-se dele com um sorriso.

 

                - Bonjour. O que deseja?

 

                - Um café simples, por favor.

 

                - É só?

 

                - Sim.

 

                Após um conjunto de rápidos segundos, a mulher empurrou com o indicador e médio uma larga chávena de um líquido intensamente negro e quente para o balcão em frente ao homem, ficando a observá-lo de modo insistente enquanto mexia numa vitrina repleta de bolos.

 

                - Desculpe, mas tenho a sensação que já o vi aqui antes.

 

                Ele pousou a chávena, ergueu os pujantes olhos azuis e exibiu um convincente sorriso.

 

                - É possível que tenha visto.

 

                Ela semicerrou os olhos num esgar ligeiramente cómico.

 

                - Ei, você não era aquele…

 

                - Sim. – respondeu ele, com uma risada – Era eu. E, por favor, dê-me um desses scones. Têm um aspecto divinal.

 

                Metade da manhã já tinha voado até ao passado quando o homem saiu do café. Por momentos, ficou parado no passeio a olhar para a esquerda e para a direita, como um ponto no meio da multidão. Depois, desceu a avenida rapidamente até ficar em frente a um edifício de pedra maciça, no centro do qual uma porta giratória de vidro embocava as pessoas até elas desaparecerem. Pousou a mala no passeio nu e limitou-se a esperar. De vez em quando, ia espreitando calmamente para o seu relógio Omega, até que uma silhueta que ele conhecia muito bem se recortou no brilho matinal. Era uma mulher, alta e esbelta, com os cabelos cor de canela a cair-lhe pelos ombros em largos caracóis. Manteve-se hirto, a vê-la aproximar-se, até já ser possível ouvir o som que os saltos dela faziam ao embater na pedra do passeio. Quando o viu, a mulher abrandou o passo e desapareceu-lhe o sorriso do rosto. Acercou-se demoradamente, a pensar em cada movimento. Estava já perto dele, e o homem podia ver a sua expressão. Pânico, surpresa, medo e confusão misturavam-se no belo rosto da mulher. Atrás dela, estava o outro, o albino, a observá-lo por entre as pestanas brancas. A mulher ficou a fitá-lo, sem pestanejar, e ele apenas sorria.

 

                - Michael?! – perguntou Violet Simmons.

 

publicado por Katerina K. às 13:53

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