BLOG FECHADO

30
Nov 09

            Jacqueline empurrou uma chávena de chá através da mesinha de cabeceira e sentou-se na poltrona que era parcialmente escondida pela cortina. Cruzou a perna, revestida pela seda negra translúcida que se demorava na pequena curva do seu tornozelo. Havia algo no seu olhar, uma tristeza fria e morta, que cobria o quarto com uma claridade metálica.

            - Bom dia, Leah.

            Os lençóis roçaram um no outro e o rosto corado de Leah Franklin assomou na almofada.

            - Bom dia.

            - Dormiste bem?

            - Sim. E tu?

            Jacqueline esboçou uma contracção dos lábios semelhante a um sorriso.

            - Isso interessa mesmo?

            A manhã, clara como neve, nascera por cima dos prédios e das casas, por cima dos pássaros, rasando as árvores e suspirando uma brisa fria sobre os passeios. As folhas vermelhas agarravam-se aos ramos secos numa tentativa de sobrevivência, mas o Outono atirava-as para o chão, formando um tapete rúbeo que cobria o solo serenamente. Jacqueline gostava daqueles dias, frios e brancos, que se estendiam por Paris como uma lufada de paz. Sim, ia deixá-los ter paz por um momento.

            Leah sentou-se na cama e levou a chávena aos lábios. Lentamente, pousou-a no regaço e engoliu o líquido hesitantemente.

            - Jackie, preciso de perguntar-te uma coisa.

            Jacqueline endireitou-se na poltrona e apoiou o rosto numa mão.

            - Diz-me.

            - Vais matar-me?

            - Não! Que pergunta idiota é essa?!

            - Não sei. – balbuciou – Oh, Jackie, tens de compreender que esta situação é assustadora! Raptaste-me, tiraste-me da minha casa, impedes-me de ver o meu irmão…

            - Ele não é teu irmão. – vociferou Jacqueline – Tu sabes disso tão bem como eu. O Jesse Stone é um oportunista e um idiota em quem não se pode confiar.

            - Eu e o Jesse podemos não ser irmãos de sangue, mas fomos criados como tal, e nada vai mudar isso, Jacqueline. Mas o teu problema não é o Jesse, é o Raoul.

            Jacqueline levantou-se abruptamente, e os seus olhos ficaram negros como se estivesse possuída pelo Diabo.

            - Nunca, mas nunca mais, digas esse nome em minha casa! Há pouco perguntaste-me se eu te ia matar, eu disse que não. Pois bem, mas a ele vou matar, e vai ser tão lento e doloroso que ele vai desejar nunca ter nascido. Aliás, vou matá-los a todos: a Violet, o Lancelot, o Jesse, o Danny, o Edward…Vou deixar o Raoul para o fim, para que ele veja o que causou. E a Donna…a Donna vou deixá-la viver. Vejo demasiado de mim nela, e sei que apenas é uma pobre inocente. Mas a eles, os outros, não os vou deixar escapar.

publicado por Katerina K. às 14:14

29
Nov 09

                O Agente Especial Michael Collins sorriu, mostrando uma resplandecente linha superior de dentes brancos como neve.

                - Olá, Violet. Como estás?

                Ela limitou-se a fitá-lo com um olhar incrédulo. Edward aproximou-se, com um esgar incendiado pelo atrevimento. Estendeu a mão a Michael, o qual a apertou com demasiado entusiasmo. Jesse, encostado à parede parda do Le Château, guardou as mãos nos bolsos com desconfiança. Nos seus olhos incolores, brilhava uma arrepiante intensidade, como lanças a arder no céu enevoado. Deixou-se ficar na retaguarda, envolto no seu sobretudo negro, o qual adejava lentamente com a brisa matinal. Uma folha de jornal colou-se-lhe à bota e Jesse vergou-se para a afastar. Nesse momento, sentiu o quente olhar de Michael pousado em si. Fitaram-se durante um longo minuto, como se conversassem sem palavras por entre as pálpebras semicerradas. Edward arrastou os pés pelo passeio e apoiou o cotovelo no ombro de Jesse. Este lançou-lhe um esgar torcido e soltou um grunhido na direcção da atmosfera.

                - Respira. – murmurou Edward.

                - Estou a respirar bastante.

                - Estás branco, Jesse.

                - Eu sou branco.

                - Mais branco do que o costume, quero eu dizer.

                - Whatever.

                Jesse ajustou o sobretudo e caminhou na direcção contrária de cabeça baixa. Violet viu a sua figura desaparecer lentamente entre a cor da multidão, misturando-se como fumo entre as palavras e as vidas. Nesse momento, foi invadida por uma sensação terrivelmente confusa. Por um lado, estava aliviada por Jesse se ter ido embora. Por outro, sentia-se embaraçada por estar sem ele. No entanto, encontrou algum conforto na face atraente e tropical de Michael, como se ele fosse uma intensa bebida alcoólica a correr-lhe calidamente nas veias. Sentiu subitamente um braço a envolvê-la pela cintura, e viu-se arrastada para a realidade.

                - Violet, posso falar contigo um segundo? – perguntou Edward, com um sorriso falso no rosto.

                - Claro, claro. Michael, com licença.

                Edward certificou-se que se afastavam o suficiente, de modo a que Michael não conseguisse ouvir o que estava a ser dito. Quando pensou que a distância era a ideal, pousou levemente as mãos nos braços de Violet, fitou-a no fundo dos olhos e murmurou uma pergunta.

                - O que raio é que estás a fazer?

                - Eu?! Nada.

                - Violet, não me tomes por idiota. O que é que se passa?

                Ela mordeu o lábio inferior e respirou pesadamente. A verdade era que não sabia responder bem à pergunta que lhe tinha sido feita. Estava demasiado fora de si para poder pensar. Atirou os largos caracóis para trás num movimento gracioso e fitou o outro com um brilho impiedoso no olhar. Edward percebeu que ela não ia responder, mas soube também que aquele refulgir, aquele lampejo que lhe atravessou os olhos cor de caramelo era enganador. Passava-se alguma coisa com Violet, dentro dela. Havia tempestades nas suas palavras.

 

publicado por Katerina K. às 17:58

24
Nov 09

 

                O dia nasceu dourado, ruborizado por mil pigmentos de cor que espalhavam um tom quente e uniforme pelo céu. Ia ser um dia quente, pouco característico do Outono. O sol brilhou entre os pilares do Arco do Triunfo, transportando o seu estatuto imperial e braços de ouro. Uma brisa morna passou pelo pescoço do homem que, solitário, descia a avenida a passo estugado. A sua figura alta e bem constituída deslizava sobre o pavimento do passeio com uma elegância desumana. Vestia um fato negro que o fazia parecer ainda mais magro; no seu peito desenhava-se um triângulo de camisa branca cortado perfeitamente ao meio por uma gravata de seda preta impecavelmente engomada. Entre os dedos da mão bronzeada, segurava uma sóbria pasta rectangular de couro negro. O seu rosto não enquadrava com a geometria do seu corpo, sendo um quadro perfeito de atraentes feições morenas. Um par de olhos azuis tomava o seu lugar na zona escurecida no topo das maçãs do rosto. Passou a mão pelo pescoço, e a sua pele roçou o cabelo castanho exemplarmente penteado. Caminhava determinado, com uma espectacular postura, a postura de quem tinha treino militar. Uns minutos depois, entrou no Café Doirée e sentou-se ao balcão, pousando a mala entre as pernas. Entrelaçou os dedos e depositou os pulsos sobre a madeira, esticando ligeiramente os braços. A empregada aproximou-se dele com um sorriso.

 

                - Bonjour. O que deseja?

 

                - Um café simples, por favor.

 

                - É só?

 

                - Sim.

 

                Após um conjunto de rápidos segundos, a mulher empurrou com o indicador e médio uma larga chávena de um líquido intensamente negro e quente para o balcão em frente ao homem, ficando a observá-lo de modo insistente enquanto mexia numa vitrina repleta de bolos.

 

                - Desculpe, mas tenho a sensação que já o vi aqui antes.

 

                Ele pousou a chávena, ergueu os pujantes olhos azuis e exibiu um convincente sorriso.

 

                - É possível que tenha visto.

 

                Ela semicerrou os olhos num esgar ligeiramente cómico.

 

                - Ei, você não era aquele…

 

                - Sim. – respondeu ele, com uma risada – Era eu. E, por favor, dê-me um desses scones. Têm um aspecto divinal.

 

                Metade da manhã já tinha voado até ao passado quando o homem saiu do café. Por momentos, ficou parado no passeio a olhar para a esquerda e para a direita, como um ponto no meio da multidão. Depois, desceu a avenida rapidamente até ficar em frente a um edifício de pedra maciça, no centro do qual uma porta giratória de vidro embocava as pessoas até elas desaparecerem. Pousou a mala no passeio nu e limitou-se a esperar. De vez em quando, ia espreitando calmamente para o seu relógio Omega, até que uma silhueta que ele conhecia muito bem se recortou no brilho matinal. Era uma mulher, alta e esbelta, com os cabelos cor de canela a cair-lhe pelos ombros em largos caracóis. Manteve-se hirto, a vê-la aproximar-se, até já ser possível ouvir o som que os saltos dela faziam ao embater na pedra do passeio. Quando o viu, a mulher abrandou o passo e desapareceu-lhe o sorriso do rosto. Acercou-se demoradamente, a pensar em cada movimento. Estava já perto dele, e o homem podia ver a sua expressão. Pânico, surpresa, medo e confusão misturavam-se no belo rosto da mulher. Atrás dela, estava o outro, o albino, a observá-lo por entre as pestanas brancas. A mulher ficou a fitá-lo, sem pestanejar, e ele apenas sorria.

 

                - Michael?! – perguntou Violet Simmons.

 

publicado por Katerina K. às 13:53

23
Nov 09

                Jesse estava deitado na chaise longue do quarto, com as longas pernas esticadas e unidas nos tornozelos. Observava uma réstia de luz nocturna que entrava no quarto e se espraiava no tecto. Era apenas naqueles momentos, nos quais estava sozinho na escuridão, que podia pensar, pensar nas coisas que tinha feito. No entanto, naquele momento, não conseguia deixar de pensar no agente do FBI, Michael Collins, e naquilo que a sua visita traria: mais memórias.

                Bateram à porta, numa insistência quase desesperada. Quando ninguém respondeu, voltaram a bater.

                - Quem é? – perguntou, enquanto se levantava e vestia a camisa.

                - Sou eu.

                Abriu a porta e viu-a.

                - Violet?

                - Posso entrar? – disse ela, enquanto limpava os olhos com a manga do casaco.

                - Claro.

                Ela entrou no quarto a passo lento, quase como se observasse cada detalhe com ínfima atenção. Vinha descalça e despenteada, com as mãos escondidas num casaco de malha grosso que lhe roçava os joelhos.

                - O que te traz por aqui? – perguntou ele.

                - Queria saber se ainda tens sabonete. O meu acabou.

                - Tenho, sim. Mas porque não pediste ao Edward? Afinal, ele está no quarto ao lado do teu.

                - O Ed a esta hora já está no seu sétimo sono. – riu-se do seu próprio gracejo.

                Pela primeira vez, Violet apercebeu-se de que aquele quarto era maior do que o seu. Um incontável número de raios prateados atravessava o silêncio como garras rectangulares esculpidas nas paredes. Aparte disso, só escuridão. Ele sentou-se aos pés da cama e ficou a fitá-la, como se ela fosse uma obra de arte.

                - Porque é que as coisas entre ti e o agente do FBI não resultaram? – perguntou ele.

                Violet acomodou-se na chaise longue, inclinando-se para a frente.

                - Na altura, ele não era agente do FBI, - respondeu ela – era apenas o irmão da minha melhor amiga.

                - E o que é que mudou?

                - Eu queria ir para Chicago, ele preferia ficar em Washington. Foi o que aconteceu. – encolheu os ombros com um suspiro.

                - Só isso?

                - Só.

                Jesse humedeceu os lábios antes de fazer a pergunta seguinte.

                - E entre nós, o que é que não resultou?

                Ela sorriu, inesperadamente, mas fora um sorriso triste, quase apagado.

                - Somos demasiado diferentes, Jesse. Quer dizer, já olhaste bem para nós?

                - Tens razão, mas tenho pena. De qualquer modo, é melhor assim. Eu não sou boa pessoa.

                Violet ergueu os olhos e fixou-os nele com uma candura de outro mundo.

                - Claro que és. É por isso que estás aqui, que nos pagaste o jantar, que gostas de ficar sozinho para pensar. Tens sentimentos e consciência como o resto de nós, mas tu sabes escondê-los.

                Ele não respondeu, sabendo que o que ela acabara de dizer era totalmente inatacável. Ela sempre fora a figura autoritária, maternal, que mergulhava toda a gente num carinho sobrenatural. E havia coisas, como aquela, que nunca mudavam. Quando Violet se sentou ao seu lado e passou o longo dedo cor de mel pela cicatriz que lhe rasgava a branca mandíbula, Jesse soube que a noite ia ser longa.

publicado por Katerina K. às 14:10

22
Nov 09

                Violet sentou-se à mesa com a agilidade de um gato e lançou um esgar flamejante através da mesa. Edward, à sua frente, sentiu aquele olhar como uma mordidela de crocodilo.

                - Continuas chateada comigo? – perguntou, incrédulo.

                - Claro.

                - Ok, Violet, estás a ser infantil como tudo.

                - Ah, agora eu é que estou a ser infantil?

                - Isto é por eu ter ligado ao Michael?!

                Ela fitou-o arrepiantemente e, esticando o braço para o copo, bebeu um longo golo de Romanée Conti tinto. Deixou o vinho bailar-lhe dentro da boca e brincar-lhe com a língua com um sabor áureo e dourado.

                - Oh meu Deus, isto é tão bom que deve ser mesmo caro. Não sei quem vai pagar, mas o meu paladar agradece.

                Edward inclinou-se sobre o ouvido de Jesse e sussurrou:

                - Isso, dá-lhe álcool.

                Jesse atirou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada deliciosa. Nessa noite, decidira levar o grupo a um restaurante onde não se pudesse comer por menos de trezentos dólares. E lá estavam eles, sentados à volta de uma mesa coberta por uma toalha de veludo vermelho de onde se erguia um castiçal clássico pintado de negro.

                Violet, com as faces tingidas de um cor-de-rosa saudável, fixou o olhar na figura bem delineada de Jesse. Estava elegante, talhado pelo perfeito fato preto e camisa nívea Armani feitos à medida. O cabelo, habilmente penteado para trás, refulgia à luz das velas. O seu rosto albino era realmente belo.

                - Hum, Ed, diz-me: que conversa era aquela do Michael? – perguntou Jesse, num sussurro curioso.

                Edward limpou os lábios com o guardanapo e apoiou os cotovelos na mesa, conjurando um olhar interessado.

                - Bem, como sabes, o Michael Collins é o antigo namorado da Violet. Foi bom enquanto durou, certo? – Violet enrubesceu – Mas agora o pobre rapaz está a trabalhar no FBI. Não me perguntes como é que ele passou da pintura à investigação criminal, porque não faço a menor ideia. Mas o que interessa é que ele tem acesso a meios aos quais nós não podemos chegar.

                - Ah. Agente do FBI, hen?

                Edward escondeu um sorriso atrás do guardanapo.

                - Eu não queria que ele chamasse o Michael. Não queria mesmo. Mas o Ed é um teimoso. – proferiu Violet, revirando os belos olhos ambarinos.

                - Admite que tens saudades dele. – atirou Danny.

                - Não vou admitir nada. Sabes há quantos anos eu não vejo o Michael? Dois! Sei lá, ele pode já ser casado e ser pai de filhos.

                - E tu estás extremamente ralada com isso. – disse Edward, com uma risada.

                Violet afogou o rosto no copo.

                - Acho que vou pedir bife tártaro. – proferiu Lancelot.

                E pousou a ementa sobre a mesa.

publicado por Katerina K. às 12:35

21
Nov 09

                - Cornélia Arnaut? – Edward comprimiu os lábios – Sim, lembro-me dela. Era uma rapariga extraordinária. Se bem me recordo, a mãe dela era checa e o pai francês, o que fazia dela detentora de uma beleza exótica. Muito loira, olhos muito verdes. Mas, aparte isso, sempre foi uma excelente intérprete, apesar de não ser a melhor técnica. Estudou no Le Château uns anos, creio que na mesma turma que a Jacqueline. Chegou a ser acompanhadora do Jesse, não é verdade? – procurou confirmação com o olhar.

                Jesse assentiu, com um sorriso nos lábios.

                - É verdade, sim. Não era a rapariga mais inteligente de sempre, mas fazia razoavelmente bem o trabalho dela.

                - Ela e a Jacqueline eram amigas? – perguntou Violet, enquanto se acomodava no sofá lateral do Café Doirée com uma caneca fumegante entre as palmas das mãos.

                - Muito amigas. – respondeu Danny – Aliás, elas as três, a Jackie, a Leah e a Cornélia, formavam um grupo e tanto. Andavam sempre juntas até a Jacqueline, bem, supostamente morrer. Depois, a Leah e a Cornélia saíram do Le Château e, que eu saiba, nunca mais se falaram.

                Violet sentou-se sobre as pernas e beberricou o cálido líquido castanho macio.

                - Então temos de esclarecer uma coisa. – fez uma mínima pausa teatral – Elas as três eram amigas. A Jacqueline morreu. A Leah e a Cornélia separaram-se. A Jacqueline volta da mentira que se tinha instalado e decide, primeiro, raptar a Leah e depois usar o nome da Cornélia como se fosse o seu. Não estou muito bem a perceber, isto leva-me a crer que há mais nesta história do que parecia ao princípio, que o que está em causa não é apenas a Jacqueline, mas também este grupo.

                - Verdade. – disse Jesse, enquanto acabava o seu espresso – Isso faz sentido. Nós já sabemos que a Leah está com a Jacqueline, não há dúvidas nenhumas disso. Mas agora a principal questão é onde está a Cornélia.

                Edward semicerrou os olhos. Cornélia…onde estás Cornélia? Encontrá-la seria quase impossível, nem sequer sabiam se ela continuava em França. Por um lado, podia ter ido viver com a mãe para a República Checa. Por outro, podia estar com o pai em Lyon. Até podia estar sozinha nos Estados Unidos. Havia um incontável número de hipóteses a ter em consideração, e isso fazia daquela tarefa inútil. Precisavam de alguém que se soubesse mexer na sociedade discretamente, como uma enguia. Edward sorriu e pegou no iphone com ambas as mãos, procurando ansiosamente qualquer coisa na lista telefónica ao deslizar os polegares sobre o ecrã.

                - O que estás a fazer? – perguntou Violet, inclinando-se sobre ele de modo curioso.

                - À procura do número de uma pessoa nossa conhecida.

                - Nossa conhecida?

                - Sim. Quer dizer, mais tua do que minha, mas nossa de qualquer maneira.

                - Edward, estás a confundir-me.

                - Eu sei. – soltou uma risada impertinente e levou o telemóvel ao ouvido.

                Poucos momentos depois, falou para o iphone num tom tão profissional que quase parecia infantil.

                - Michael Collins? Daqui Edward Cole.

publicado por Katerina K. às 11:21

20
Nov 09

 

                Lancelot Carter ouviu a pesada porta da sala de visitas da prisão abrir-se com um silvo. As suas narinas foram envolvidas por um cheiro tépido a metal e a tabaco. Do outro lado, viu o pai. Cabisbaixo, de pele macilenta e cinzenta, brincava com os dedos aracnídeos. Mechas do cabelo negro caíam-lhe sobre os olhos tristemente. Envergava um fato de macaco cor de laranja que lhe estava grande demais sobre uma t-shirt branca de lixívia. Lancelot deslizou a alça do estojo da guitarra sobre o ombro e respirou fundo. Estava na hora. Aproximou-se da mesa metálica, puxou a cadeira para trás e sentou-se calmamente. Paul Carter continuava a fitar as mãos, sem descolar os olhos da superfície espelhada da mesa.

                - Olá, pai.

                Lentamente, o homem levantou o olhar para o rosto do filho. Por momentos, ficou a observá-lo como se não o reconhecesse.

                - Lance? – a sua voz rouca soou grave e profunda.

                - Sim, pai, sou eu.

                O homem parecia incrédulo, como que arrancado de um sonho para ser obrigado a ver a realidade.

                - Estás tão diferente…

                - Estou diferente, estamos todos diferentes. Não sou pessoa de ficar parada no tempo, tu devias saber disso melhor que ninguém! Mas esse tipo de coisa não interessa agora. Diz-me lá porque é que me chamaste aqui com tanta urgência.

                Um brilho opaco revestiu os olhos de Paul Carter. Lambeu o lábio inferior e tossiu pesadamente.

                - A Jacqueline Soleil veio visitar-me. – o seu rosto ficou sério e duro como pedra.

                A única reacção da parte de Lancelot foi um longo suspiro.

                - Ouviste-me, Lancelot? A Jacqueline está viva!

                O rapaz passou os dedos pelo cabelo, recostou-se na cadeira e cruzou os braços.

                - Eu sei, pai.

                - Já sabias?! Há quanto tempo?

                - O suficiente.

                Paul mergulhou a cabeça nas mãos. Por momentos, lembrou-se da voz dela.

               

                - Sabes, Carter, - disse ela, na sua voz sensualmente aveludada – tu acabaste por conseguir o que querias. Mataste-me. Mataste-me por dentro. Até te agradeço por isso, realmente. Acabaste com a Jacqueline, que era muito acertada, inocente e preocupada com os outros. Apodreci durante dois anos, sozinha, a pensar que podia chegar ao Le Château quando estivesse pronta e que toda a gente ia estar à minha espera, de braços abertos. Tentei fazê-lo, mas vi todos a seguir as suas vidas. Até o Raoul. Agora, ele está feliz ao lado daquele saco de carne. E o incrível é que ela é magnificamente parecida comigo. – riu-se cruelmente – Entretanto, eu ando escondida. Mas a Fénix renasce das cinzas, não é? Creio que todos podemos fazer o mesmo, desde que tenhamos os meios. E tu, Carter, vais assistir àquilo que vou fazer. A ti, não te posso tocar, estás bem seguro. Bem preso. Mas o teu filho, o teu querido filhinho, não. Ele e os amigos andam a pedi-las, ao meterem aqueles narizes onde não são chamados. Portanto, só tenho que te agradecer pela transformação que me deste. Espero que sejas muito, muito feliz, Carter.

 

                - Pai? Pai, estás a ouvir-me?!

 

                Paul abanou a cabeça, afastando da memória aquele implacável momento.

                - Lancelot, ouve o que te vou dizer. Tu tens de sair de França, o mais rápido possível. Volta para Boston, porque se ficares aqui, se continuares sem sair do mesmo sítio, ela vem atrás de ti e dos outros e vai dar cabo de vocês.

                O rapaz exibiu um sorriso pálido.

                - Pai, não estás a perceber. Eu não posso fazer isso. Fugir é ser cobarde, e neste momento a última coisa que precisamos é um cobarde. Eu prometi à Violet e ao Jesse que resolvia isto com eles, e não vou deixá-los ficar pelo caminho por causa dos devaneios de uma louca.

                Levantou-se bruscamente, caminhando em direcção à pesada porta da sala de visitas. O guarda prisional afastou-se para deixar Lancelot passar. À medida que se afastava pelo corredor revestido por azulejos brancos em forma de quadrados, o músico viu a sua mente ser invadida por tudo o que o pai lhe dissera. Ela vai dar cabo de vocês. Raoul dissera o mesmo.

                Os seus passos ecoavam no longo corredor como sinos. Ia-se aproximando da porta, pela qual entrava uma tímida luz matinal. Ao entrar no carro, fechou a porta. Apoiou os cotovelos no volante e as faces nas palmas das mãos, observando o sol através do vidro fronteiro.

                - Que cara. Não correu lá muito bem.

                Lancelot recostou-se no banco, dirigindo o olhar para o espelho retrovisor. No banco de trás, Jesse Stone brincava com a navalha.

                - Tens razão. Não correu. Ele tentou assustar-me, afastar-me deste assunto. Tal como o Raoul fez connosco.

                - A Jacqueline veio visitá-lo, foi?

                - Sim. E deu-lhe um abanão jeitoso. À entrada, perguntei ao guarda prisional se ele se lembrava de ter visto uma rapariga a vir visitar o meu pai. Ele disse que só se lembrava do nome que ela tinha dado no registo: Cornélia Arnaut.

                Jesse franziu o sobrolho níveo, e os seus olhos ganharam uma intensidade que se assemelhava a cor.

                - Cornélia Arnaut? De certeza?

                - Pois, eu sei o que estás a pensar.

                - Porque é que ela deu o nome da Cornélia? Ela nem sequer estava em Paris naquele Inverno! Só se…

                - Só se o quê?

                - Arranca, Lance. Tenho de falar disto ao Edward.

publicado por Katerina K. às 09:40

19
Nov 09

                Leah virou a cabeça na almofada e franziu o cenho. Entreabriu os olhos e levou a mão ao rosto. Que horas seriam? O seu corpo rugiu dentro dos lençóis, e apercebeu-se que estava ainda vestida. Os olhos, toldados de um turvo cinzento, começavam a ficar desprovidos da névoa do sono. À medida que isto acontecia, Leah apercebia-se de que não conhecia o quarto no qual estava. As paredes eram cobertas por um papel de parede verde-água com motivos clássicos. Do tecto, pendia um candeeiro de cristal que ainda não estava adaptado para a electricidade, e velas encavalitavam-se na armadura dourada. Uma grande cómoda pintada de branco erguia-se contra a parede, escondendo uma ínfima porção de um espelho oval com moldura de ferro. Por todo o quarto, flutuava uma doce fragrância a orquídeas e a mel. Todo o compartimento tinha um aspecto antigo, demasiado antigo, quase saído de uma revista de decoração de 1910. As cortinas, zelosamente fechadas, deixavam entrever uma linha trémula de luz alaranjada, de fim de tarde. Leah levantou-se lentamente, ao sentir a cabeça latejar de modo pesado com cada movimento. Retinha na boca um sabor adocicado e enjoativo que se lhe espalhava pelo corpo num torpor adormecido. Ao sentar-se na borda da cama, com os pés descalços assentes na carpete, apoiou os cotovelos nos joelhos e encaixou o rosto nas mãos. As tonturas foram abrandando, e quando se sentiu capaz de se levantar julgou ter ouvido um barulho. Fora apenas um pequeno estremecimento no ar, como uma barata a atravessar um corredor, mas ainda assim estava lá. Quando o voltou a ouvir, teve a certeza.

            - Quem está aí?

      Só um pequeno vibrar das lágrimas de cristal que pendiam do candeeiro quebrou o acolhedor silêncio que reinava no quarto.

            - Quem está aí? – repetiu ela, levantando-se e levando uma mão à cabeceira da cama.

            Mais silêncio, até que um riso cheio gatinhou na escuridão dos fundos e uma voz feminina ondulou entre as paredes.

            - Acalma-te, Leah. Ninguém te vai fazer mal.

         Leah reconheceu a voz, apesar de estar consideravelmente diferente da última vez que a ouvira: era a mesma voz da pessoa que lhe batera à porta de casa, a voz que pensava nunca mais ouvir.

            - És tu? – perguntou, hesitantemente.

            - Claro que sou eu, quem esperavas que fosse? – respondeu a voz.

        Na escuridão, atingido por um raio de luz vindo da janela, brilhou uma camada de cabelo tão negro que parecia azul-escuro na claridade. Um par de olhos refulgiu como rubis por baixo dos fios de cabelo.

            - Porque é que me trouxeste para aqui?

            - Tenho de te proteger. Deles. – um pingo de raiva dependurou-se da voz.

            Leah recuou demoradamente até que as suas pernas ficaram encostadas à fria madeira da cama.

            - Estás a assustar-me…

            - Eu não vou deixar que eles te descubram. Nunca mais.

            - Estás a assustar-me, Jacqueline!

            O esbelto corpo de Jacqueline Soleil apresentou-se na claridade alaranjada do quarto. Continuava bela, assustadoramente bela, dentro de um vestido negro que lhe acentuava as formas atléticas. Mas o rosto…o rosto era mais branco que a luz. Sorriu, e os olhos contraíram-se num esgar mais frio que a morte.

publicado por Katerina K. às 09:35

14
Nov 09

            Paul Carter, na escuridão da sua cela, deitava-se de olhos cerrados na cama, deixando a sua respiração profunda ser o único ruído que se manifestava. Cumpria o terceiro ano da sua penitência de quinze, encarcerado num mundo de betão que o rodeava e perseguia, até mesmo nos sonhos. Ganhara o hábito de não dormir mais de quatro horas; sabia os olhos que se cravavam nele através das grades e que brilhavam na penumbra dos segredos. Ouviu o discreto tamborilar de dedos do guarda prisional no corrimão das escadas e o desafinado assobiar com o qual insistia em presentear os presos. Esgrimiu o cassetete contra as grades de ferro, apertando o taser bem dentro da mão esquerda. Paul não se moveu, continuando de olhos fechados e mãos cruzadas sobre o peito, sem que qualquer expressão se manifestasse. O guarda deteve-se em frente à sua cela, a bater insistentemente com o cabo do cassetete no ferro. Uma, duas, três vezes; o som da pastilha elástica de nicotina a ser mastigada e revolvida dentro da boca.

            - Sabes, Carter, - a voz do guarda soou como melaço na escuridão – sempre quis saber porque aqui estás. Quer dizer, quinze anos é um pedaço, e tu pareces ser um tipo atinado. O que te deu?

            - Cala-te, Malko. – replicou Paul, num bloco poderoso, mas calmo, de voz.

            Malko sorriu, encostando-se à porta da cela com brusquidão.

            - Vá lá, não sejas assim.

            - Vai-te embora.

            A voz do preso vizinho, Georges Medina, fez-se ouvir através das paredes.

            - Aqui o nosso amigo Carter roubou uns bancos, matou uma miúda e tentou matar o namorado dela.

            O guarda prisional soltou uma gargalhada de satisfação.

            - E só apanhaste quinze anos? Deves ter um advogado daqueles.

            Na mente de Paul brilhou um rosto, o rosto de Jacqueline Soleil.

            Não a matei, pensou, mas mandei matá-la.

 

            A manhã seguinte deu-se a conhecer numa claridade branca que entrou gradualmente pela única janela da cela. Paul Carter estava sentado no chão, com a cabeça encostada ao lavatório, a desenhar num pedaço de papel com um lápis de carvão roído: era um olho, grande e belo, com compridas pestanas que partiam das extremidades das pálpebras. Da cela do lado, ouviu-se a tosse rouca de Medina e o som de água a escorrer pelo ralo. A porta gradeada deslizou para o lado com um guinchar metálico e Malko encaixou o seu grande corpo no umbral. À luz matinal, o guarda parecia uma enorme estátua coberta a serapilheira, a sua pele a brilhar gordurosamente quando os feixes luminosos lhe atingiam a fronte. Pigarreou.

            - Ouve lá, Carter, estás acordado?

            - Claro.

            O silêncio foi imediato e obrigatório, quase como um buraco negro no tempo. Malko sentiu-se involuntariamente arrepiado com o timbre de voz do preso. Limpou o suor da testa à manga do uniforme e rematou a conversa.

            - Levanta-te e mexe-te. Tens uma visita.

publicado por Katerina K. às 22:16

10
Nov 09

            Raoul ergueu o olhar, fixando-o no rosto sério de Jesse. Este último expirou sonoramente pelo nariz e passou os longos dedos pelo cabelo, preparando-se para falar.

            - E agora, o que vais fazer? – perguntou.

            Raoul recostou-se no sofá Sheraton e levou a mão aos lábios. O silêncio em que se mergulhou, denso e gelado, fixou-se nos ombros de Jesse com o peso da culpa. Parara de chover, mas elegantes bagos líquidos espalhavam-se pelos vidros da ampla janela do apartamento de Raoul. Na mudez da sala, planava o ritmo entrecortado de uma tímida respiração, vinda da parte mais afastada da casa. Esse som, doloroso e negro, chegou desconfortavelmente aos ouvidos de Violet.

            - Temos de fazer alguma coisa. Isto não pode ficar assim. – disse ela, pensativamente – A Jacqueline anda à solta em França a caçar todos os que têm alguma coisa a ver com o que se passou naquele Inverno. Mais tarde ou mais cedo, vamos ser nós os alvos. E aposto que ela te vai deixar para o fim, Raoul.

            Ele fixou na rapariga os seus poderosos olhos azuis e explodiu numa ansiedade engarrafada durante muito tempo.

            - A Jacqueline está doente! Ela, nestes últimos anos, andou a planear tudo o que agora anda a fazer! Eu conheço-a, conheço-a bem. Sei do que ela é capaz quando se quer vingar. Vocês todos pensam que sabem quem ela era, mas não sabem! A Jackie demorou três anos a montar o plano do que nos vai fazer, podem ter a certeza que não há nada que a possa parar. Nem mesmo nós. Não nos podemos esconder dela, nem daquilo em que ela se tornou.

            Danny inclinou-se para a frente, entreabrindo os lábios numa expressão de incredulidade.

            - Estás doido? Sugeres que fiquemos aqui quietos à espera que ela nos venha espetar uma bala no crânio?!

            Raoul não se mexeu. Talvez isso fosse o melhor, pensou. Assim, a culpa esfumar-se-ia como vapor de água num dia de Verão, e tudo seria negro e profundo. Era tudo complicado demais, sentia ter arrancado a vida de Donna e tê-la arrastado para um sítio onde ela não queria estar. Passava os dias sozinha, trancada no quatro, a chorar copiosamente ou a fitar um ponto qualquer da parede. Fizera dela uma reclusa de si mesma, e nunca se havia de perdoar por isso. Jacqueline nunca havia de morrer.

            Na tensão apocalíptica que reinava na sala, apenas uma figura se mantinha totalmente calma, exalando uma aura de paz branca e duradoura. Jesse, sentado no cadeirão de orelhas que estava de costas para a varanda, era rasado pela luz prateada do exterior. Pensava, furiosa e rapidamente, mil imagens a passar-lhe como flashes em frente aos olhos. Sim, a Jacqueline viria para os caçar. Um a um. Lentamente. Saboreando cada momento da sua vingança como mel a escorrer-lhe pela língua. E esse seria o seu maior erro. Jesse sorriu, banhando-se na perversidade daquilo que acabava de planear. Sentiu os olhos cor de whiskey de Violet pousados em si, e o sangue borbulhou-lhe no peito. Quebrando a vibrante discussão que se havia desencadeado, falou pausadamente, num tom tão baixo que os outros se tiveram de esforçar por ouvir.

            - Há uma saída. Não tem vitória garantida, mas temos de tentar.

            Edward alargou o colarinho da camisa e passou os dedos pela mandíbula.

            - O que estás a pensar?

            Jesse esboçou um sorriso quase inexistente.

            - Vamos caçá-la antes que ela nos cace a nós.

 

publicado por Katerina K. às 21:53

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