BLOG FECHADO

27
Set 09

            Violet, passando as palmas das mãos sobre o revestimento do volante, olhava pela janela do carro para a pequena casa dos subúrbios de Detroit, rodeada por uma cerca de madeira. Mais uma vez, ela conferiu a morada que tinha escrita num post-it. Era mesmo aquela, não havia enganos. Mas mesmo assim, Violet sentiu que alguma coisa estava desacertada. A cerca, o jardim com a relva cuidadosamente aparada, as paredes brancas imaculadas, a cortina que cobria a janela da sala de jantar – estava tudo terrivelmente errado, terrivelmente perfeito.

            Na sua tentativa de localizar os restantes membros do grupo que se juntara em Paris naquele Inverno, Violet só conseguira a morada de um deles, o qual era, talvez, aquele que ela tinha menor vontade que encontrar. Lancelot Carter fora o único a esfumar-se por completo após a semana de Dezembro na capital francesa. Depois da detenção do pai, baseada nas acusações pelo assassínio da jovem Jacqueline, Lancelot desaparecera. Violet lembrava-se bem dele: do seu belo aspecto, das feições patrícias, do cabelo escuro sempre bem penteado, dos longos dedos pouco morenos já habituados ao admirável virtuosismo do violino. Ela perguntava-se se o rapaz continuava igual, se mantinha o talento invulgar para a música. Sempre fora o seu grande adversário, e Violet indagou-se se, no dia em que ele deixasse de o ser, se se sentiria aliviada ou arrependida.

            Abriu a porta do carro lentamente, ergueu-se para fora, num só movimento. Avançou para a casa, palmilhando o caminho em largos passos decididos. Tocou à campainha e os pardais calaram-se, dando à luz um silêncio insólito e desconfortável em toda a rua. Esperou uns minutos, nenhuma resposta. Talvez não estivesse ninguém em casa, ou fosse mesmo a morada errada. O melhor era virar as costas e desistir daquela missão tresloucada. No entanto, quando Violet se ia preparar para voltar a Chicago, algo vibrou no silêncio e faiscou-lhe nos ouvidos. Música. O ar estremecia em tons graves, como se o que ela ouvisse fosse percussão. Num ritmo regular, os baques foram-se sucedendo, aumentando de volume, rebentando num solo de bateria magnificamente executado. Violet esqueceu as ideias de desistir, e saltou por cima da cerca, apoiando apenas uma mão na madeira. Atravessou o relvado rapidamente e, à medida que se aproximava das traseiras, mais tinha a certeza que era dali que provinha o som. Dobrou a esquina da casa nervosamente e encontrou um pátio de granito que desembocava naquilo que, há dez anos atrás, devia ser uma garagem. A entrada, que tinha o aspecto de uma porta que era constantemente arrombada, estava recolhida, deixando ver o interior daquele espaço. O compartimento era iluminado não só pela luz do dia, mas também por uma série de toscas lâmpadas fluorescentes pendentes do tecto. Essa falsa claridade era lançada sobre um grupo de rapazes: três altos e bem constituídos espécimes do sexo masculino. Violet via claramente dois deles: um baterista, ruivo e sardento, vestindo-se desleixadamente, e um baixista, moreno como se vivesse num solário, de cabelo negro armado num penteado bem seguro com gel. O terceiro, de costas para ela, vestia-se totalmente de negro, combinando com o cabelo, naturalmente solto sobre o rosto. Pendia-lhe do ombro uma guitarra eléctrica Stagg de rebordo vermelho, a qual era acariciada pelos seus pálidos dedos aracnídeos. Uma banda de garagem. O baterista e o baixista repararam imediatamente na tímida presença de Violet, lançando esgares ameaçadores na sua direcção. Não se deixando intimidar, a rapariga falou.

            - Ahm, bom dia. Estou à procura do Lancelot Carter, ele está?

            O guitarrista, que se mantinha de costas para ela, respondeu, numa voz grave e sensual.

            - Depende. Quem o procura?

            - Violet Simmons. Importam-se de lhe dizer que estou à procura dele?

            O rapaz virou-se, e Violet viu-se confrontada por um rosto espantosamente bem delineado, entrecortado na linha da sobrancelha esquerda por um pequeno piercing. Apesar de todo o aparato roqueiro, da palidez ligeiramente escurecida, do cabelo copiosamente tingido de preto, ela reconheceu-o. Estavam lá as feições patrícias, o queixo mimoso. Perplexa, Violet Simmons apercebeu-se de que o rapaz que a fitava era, de facto, Lancelot Carter.

 

 

 

publicado por Katerina K. às 22:25

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