BLOG FECHADO

25
Set 09

Para a Laranjinha.

 

            Jesse Stone abriu a porta de manso, caminhando o mais silenciosamente que conseguia, tendo em conta as colossais Doc Martens Vintage enlameadas que trazia nos pés. Atrás dele, Danny King descobria um mundo no qual nunca antes tinha entrado.

            Uma vasta biblioteca, quase completamente imersa na escuridão, estendia-se frente aos seus olhos como um negro oceano com um cheiro a papel antigo e a cordel. À direita, iluminado pelo brilho de um candeeiro de mesa com vidro verde, estava um homem, sentado, a ler aquilo a que Danny pareceu ser uma obra de Voltaire. Em francês. Ele apoiava-se na palma da mão, deitando nela a cabeça coberta por uma vasta cabeleira preta repleta de caracóis. Escondida entre estes, tilintava suavemente uma argola de prata, pendurada na orelha direita. Os dedos da mão livre, atléticos e compridos como pernas de aranha, tamborilavam num ritmo irritante sobre o tampo da mesa. Jesse aproximou-se, cautelosamente. Danny podia jurar que, naquele denso silêncio, se conseguia ouvir o bater do coração.

            - Olá, Alex. – disse Jesse, num tom calmo e baixo, aveludado.

            O homem levantou a cabeça, fitando-os, e Danny sorriu ao ver um rosto conhecido. O estreito rosto moreno mostrava um retrato de noites mal dormidas e má alimentação, marcado por uma série de círculos negros em volta daquilo que já fora um belo par de olhos azuis-céu. Parecia ter envelhecido uma dezena de anos, sendo óbvia a palidez por baixo do bronzeado permanente. A aliança dourada resplandecia no seu anelar esquerdo, mostrando um brilho semelhante a fogo que encandeou Danny por breves instantes.

            - Jesse! Obrigado por vires.

            Uniram-se num pequeno mas firme abraço.

            - Não te ia deixar ficar mal, Alex.

            - Obrigado.

            Alexander White estendeu a mão a Danny, que a apertou.

            - Daniel, é bom ver-te.

            Sentaram-se os três, e foram banhados pela pequena luz acolhedora do único candeeiro que lançava alguma claridade na noite que se havia instalado no interior daquela biblioteca. Danny ergueu o rosto, e viu nos olhos de Alex uma estranha expressão. Era medo. Sim, medo.

            Jesse apoiou a biqueira da bota na madeira, deixando uma pequena marca de lama. Alexander mexeu-se no seu lugar, numa visível falta de comodidade. Murmurou algumas palavras, passou os dedos pelo cabelo. A mão tremia ligeiramente, numa atitude nervosa que se tentava disfarçar com pouco êxito.

            - Alex. Alex… - proferiu Jesse, pousando os dedos no braço do flautista – Estamos aqui. Diz-nos o que se passa.

            - Foi ela, foi ela.

            - O quê?

            Silêncio.

            - Alex, - insistiu Jesse – nós recebemos a carta do Raoul. Temos de saber o que aconteceu.

            Os olhos do homem abriram-se incrivelmente e fixaram-se nos do rapaz em puro e cru horror.

            - A Céline viu-a, Jesse. Ela viu-a!

 

***

 

Amanhã, dia 26 de Setembro, vou estar no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, nos 1001 músicos.

 

publicado por Katerina K. às 20:31

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