BLOG FECHADO

19
Set 09

            Aquelas palavras, simples, mergulhadas na mais agoniante tristeza, saíram-lhe de entre os lábios pálidos e foram levadas pelo vento, a bruxulear de longe. Seguiu-se o silêncio, morno e denso, que me fazia a sensação se estar a flutuar num imenso oceano de nada. Os seus olhos, fixos em mim, raiados de violetas reflexos, estavam cheios de palavras. Por um momento só houve isso: um silêncio amargo que me estrangulava com mão de ferro e me cozia a partir de dentro. Nesse instante, tão curto que quase não existiu, percebi que tudo o que o Hélio, o David e a Núria me haviam dito não importava, que eram palavras ocas, porque eu havia lido o Anjo, nas entrelinhas labirínticas do interior dos seus olhos.

            Ele inclinou-se sobre mim, o seu hálito a acariciar-me os poros gentilmente. Não me mexi, ficando a fixar-lhe o olhar espantosamente belo, à medida que este se tornava cada vez mais difuso, ao aproximar-se. Os seus lábios gélidos tocaram os meus, e tudo à minha volta se extinguiu na candura avassaladora daquele beijo. O meu coração batia-me freneticamente contra a caixa torácica, num ritmo assustadoramente perto do perigoso. Eu sentia o compasso do dele, estranhamente calmo, mas palpitante como o coração de uma ave. Éramos sombras fundidas no telhado, recortadas no luar prateado e invulgarmente amplo. Aquele foi um beijo quase infantil, inusitado, tão elementar na sua brandura que me deixou de rastos. Os seus lábios mantiveram-se fechados, a roçagar os meus naquela frieza mórbida.

            Devagar, senti-o a afastar-se de mim, num movimento firme mas suave. Ficou uma fenda entre nós, na escuridão, na qual se delineavam os limites dos nossos lábios. Senti-o a expirar num gesto lento, lançando o ar demoradamente sobre o meu rosto, fazendo com que as minhas pestanas se agitassem. Vagaroso, voltou a deitar-se ao meu lado. Abri os olhos, olhei o seu semblante. Estava insolitamente corado, o rubor a espalhar-se-lhe pelas faces incolores num efeito que eu nunca tinha visto antes. Cruzou as mãos brancas sobre a barriga, ficou a olhar as estrelas enquanto a sua habitual palidez voltava.

            - E agora, o que nos espera? – perguntei.

            - Tudo.

            Levantei-me, voltei para dentro. Fiquei uns momentos a olhar pela janela, a vê-lo cruzar as compridas pernas e ficar no mesmo sítio onde o deixei.

publicado por Katerina K. às 12:23

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