BLOG FECHADO

06
Ago 09

A pedido da minha cara Isabel, postei a sexta parte d'O Rapaz Cor de Luz mais cedo. Espero que gostem.                 Joana F.

 

Eu estava deitada na cama do David, com o pijama vestido. A única coisa que iluminava o quarto era o brilho fosco da televisão. Na minha mão, pendia o comando, bamboleante como um ramo à brisa da tarde.

Na casa de banho adjacente, conseguia ouvir a água a correr e o David a escovar os dentes. Pisquei os olhos umas quantas vezes antes de inspirar fundo e formular a pergunta que me bailava nos lábios.

            - Quem é ele?

O David assomou à porta, a toalha à volta da cintura e a boca envolta em espuma com cheiro a mentol.

            - Hã?

            - O Anjo.

Ele riu-se.

            - Vais insistir nesse assunto?

            - Sim, até me dares uma resposta concreta.

Olhei-o, apática, e ele sentou-se a um centímetro de mim, na borda da cama.

            - O que tens contra ele?

            - Nada, absolutamente nada. Mas ele assusta-me.

O David suspirou, limpando a boca à toalha. Levantou-se e agarrou nas calças do pijama. Dirigiu-se à casa de banho, voltando em menos de vinte segundos. Sentou-se, as costas nuas encostadas à cabeceira da cama.

            - Se queres que te diga, não sei muito sobre a vida do Anjo. – proferiu, num tom frágil que imediatamente estranhei – Quer dizer, conheço-o bem, mas sei o suficiente para não querer saber mais.

Calou-se. Mantive-me em silêncio, à espera. A luz morta da televisão alternava entre o azul e o verde, tingindo o quarto. Por fim, virou-se para mim e cruzou as pernas. Falou num tom ponderado, no limiar do grave, como se me estivesse a contar uma história para adormecer.

            - Conheci o Anjo há dois anos. Na altura, ele já era uma personagem um bocado insólita. Nem fui eu que me dei a conhecer, o Hélio tratou de nos apresentar. Eu já tinha ouvido falar dele, comentários vagos aqui e ali. Quando o vi a tocar, achei grotesco, para ser o mais sincero possível. Não por ele tocar mal, mas por as suas interpretações serem terrivelmente densas. Com o tempo, melhorou ligeiramente, mas não por vontade própria. A sua paixão é Rachmaninov. Foi assim que percebi que era ele quem estava na sala do piano. Mais ninguém toca Rachmaninov daquela maneira, ninguém. Fiquei surpreendido, pensei que ele estivesse em Sintra.

            - Não sabias que ele cá estava? Eu já o tinha visto, na sala de jantar, com aquela rapariga bonita.

            - A Núria. – sorriu.

            - São amigos?

            - São irmãos.

publicado por Katerina K. às 11:37

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