BLOG FECHADO

28
Jun 09

O Nome de Deus

 

Dentro de mim havia uma praia,

uma praia onde o mar era branco

e nas rochas viviam pássaros.

O Sol punha-se e nascia a este

e na noite não brilhava a estrela polar.

Dentro de mim, só havia essa praia.

Veio a noite. Como dizia a minha avó,

o céu fechou para obras.

Na minha noite, nessa noite em que só havia silêncio,

o mar calava-se e odiava a areia.

As sombras morriam na escuridão que as vira nascer

e os pássaros eram corvos.

Quando quebrei, fez-se noite profunda.

A praia fez-se morte e cinza.

Os corvos riam-se de mim

e caíam lágrimas negras das suas asas.

Nesse momento, soube o Nome de Deus

e escrevi-o na areia. No entanto, não vieram anjos

trazendo o sol nos dedos.

Pelos vistos, Deus mudara de nome.

Pensei se poderia atar uma corda ao Sol

e puxá-lo,

mas a força fugia-me como ar.

Os corvos ainda me olhavam em escárnio.

Quis afogá-los no mar que odiava a areia.

Mas quebrei, e já não mandava

nem nos braços, nem nas pernas.

Sem sair do mesmo sítio,

caminhei pelo areal.

E em todos os faróis,

que eram olhos e estavam apagados,

escrevi o Nome de Deus.

 

 

Até a um próximo post,

J.F.

publicado por Katerina K. às 11:09

16
Jun 09

Lavei o rosto com água morna. Espalhei o sabonete pela pele e deixei-o sair com a água que o havia abraçado.

O David estava encostado à ombreira da porta, de braços cruzados e apoiado na perna direita. Observava-me com um sorriso trémulo nos lábios.

«Eu não demoro, não te preocupes.»

Ele assentiu e eu envolvi a face na toalha que descansava junto ao lavatório.

«Como dormiste?»

«Bem» respondi.

«Estás pálida.»

«Tenho fome, é normal.»

Ri-me jocosamente e ele apenas abriu mais o seu sorriso.

Pousei a toalha no seu local de descanso original. O David aproximou-se e pegou no sabonete por cima do meu ombro.

«Acrobacias dispensam-se.»

«Nem por sombras!»

Abriu a torneira e molhou-me com um espirro de água. Pelo que o Afonso mais tarde me contou, a minha expressão de surpresa e quase terror não tivera preço.

Praguejei, mas não lhe consegui chegar à face para o castigar com uma estalada, pois ele prendeu-me o braço na sua mão titânica e beijou-me a testa.

Amuei e retirei-me para a cozinha. O Afonso estava no corredor, sentado nos calcanhares, a chorar de riso.

«Homens» cuspi, com desprezo.

Ele trocou os olhos e imitou-me.

Seguiu-se um minuto de silêncio de vácuo.

Então, desatámos a rir.

 

 

 

Até a um próximo post,

J.F.

publicado por Katerina K. às 09:09

14
Jun 09

Acordei. Havia uma névoa de penumbra sobre as cabeças adormecidas do Afonso e do David. Conseguia ouvi-los a respirar profundamene, deitados junto a mim na enorme cama de casal do quarto dos pais do Afonso. Eles não estavam em casa e nós, exaustos, adormeceramos sobre a colcha, ainda vestidos.

As cortinas estavam fechadas, lançando uma cor avermelhada sobre nós.

O Afonso estremeceu, a sua respiração oscilando mas voltado ao normal rapidamente. Estava com a cabeça encostada às minhas costas e as mãos junto à minha coluna. O David  tinha os lábios ligeiramente entreabertos, o ar saindo-lhe por entre a carne cor-de-rosa que os constituía.

Sonhavam, ambos. Tinham as pálpebras cansadas cerradas num sono estável e pacífico. Era belo, vê-los dormir.

Fechei os olhos, encostei-me ao peito do David. Cheirava a cravos. Ele respirou fundo e pôs os braços ao  meu redor. Sorri.

 

 

Até a um próximo post,

J.F.

publicado por Katerina K. às 12:04

11
Jun 09

Frio. Uma camada húmida de gotas frescas sobre a pele.

A noite já vai longa, as minhas mãos cheiram a verdes e a pétalas.

De um lado, o David passa a mão pelos cravos. Do outro, o Afonso limpa os dedos às calças velhas.

Canto o Fado Português, elevo a voz sozinha na noite. Imagino as guitarras na minha cabeça.

O David oferece-me o seu casaco. Agradeço, pois o gelo da noite corta-me a epiderme branca como cal. Visto-o e vejo-me revestida pelo calor corporal que ele deixara no tecido quente.

«Ai, que lindeza tamanha...»

Ouço alguém.

«Meu chão, meu monte, meu vale...»

Cantamos.

«Vê se vês terras de Espanha,

Areias de Portugal...»

O David.

«Olhar ceguinho de choro.»

Ri-me, nem sequer sabia que ele conhecia a letra. Afonso, vai buscar o violino.

David, canta comigo.

Todos cantamos, vozes novas, vozes velhas. E as flores tremelicavam com o som, deitadas na calçada molhada, formando padrões coloridos e figuras.

Passa por nós uma Gaivota.

Olhei o relógio, eram três da manhã.

 

 

 

Até a um próximo post,

J.F.

 

publicado por Katerina K. às 19:07

05
Jun 09

 

Foi ontem à tarde, depois de estudar, que subi as escadas e encontrei o David, vestido de branco, sentado nas escadas. Não me viu, esfregava as mãos uma na outra. Estava à espera de alguma coisa, notava-se. Depreendi que fosse do professor de piano. Passei por ele sem lhe dirigir palavra, não lhe queria arruinar a meditação.

«Joana.»

«Ah, viste-me. Não te queria chatear.»

Ele sorriu.

«Como estás?»

«Bem, cansada. E tu?»

«Roto, mesmo roto. Preciso de uma noite de sono completa.»

Sim, era verdade. As olheiras desenhavam-se à volta dos seus grandes olhos, por detrás dos óculos. Eu sabia bem que ele não dormia, muitas vezes acordei do meu quinto sono com uma mensagem ou chamada dele. Mas atendo sempre, porque gosto de ouvir a sua voz.

Pedi-lhe que tocasse para mim. E assim ele fez. Já há muito tempo que não o fazia, talvez porque durante o ano não passámos tanto tempo juntos como era costume. Ele sentou-se ao piano do salão nobre, limpou as mãos às calças.

«Toca aquilo que eu gosto.»

O David riu-se, e a sua gargalhada ecoou entre as paredes do compartimento e perdeu-se nos candeeiros apagados. As sombras começavam a abater-se.

«Outra vez? Não te cansas?»

Não, pensei, esboçando um sorriso sincero.

As duas primeiras notas encheram-me por completo. Si , dó - fez o piano, levantando-se em glória e sentimento. Senti os olhos a serem assolados por lágrimas. Levantei-me, caminhei lentamente até às janelas e virei-me de costas, para que ele não me visse chorar. Eram lágrimas quentes, lágrimas de alegria. Tantas vezes ouvi o Hélio a tocar aquela peça, sem que ela me fizesse chorar. Mas com o David era diferente, era sempre. O David colhe a música em mãos nuas e deixa-a amadurecer. Acaricia-a, beija-a, educa-a e disciplina-a. E ela obedece-lhe cegamente, como serva submissa e amada. Eu choro e limito-me a ouvir o que ele faz com as mãos.

Fui-me aproximando, e quando o David parou, já eu estava debruçada sobre as cordas do piano a senti-las, revibrando, sob os meus dedos.

«Obrigada.»

«Ora essa, é sempre um prazer. Eu sei que gostas da peça, e eu gosto que estejas feliz.»

Limitei-me a sorrir.

Pouco depois, Prokofiev, Liszt e Bach ganhavam vida nos seus dedos. Dessas vezes, não chorei. Observei-o atentamente, as mãos a mexerem-se rápida e elegantemente, animadas de uma energia quase irreal.

Chegou o Cláudio. O David pousou as mãos no colo, sorriu e levantou-se. Inclinou-se sobre mim e beijou-me os cabelos. Passei-lhe os dedos no braço descoberto da t-shirt. Saí, deixei-o com as sombras e as vibrações das cordas do piano.

 

 

 

Até um próximo post,

J.F.

publicado por Katerina K. às 17:02

03
Jun 09

Hoje a manhã floresceu fria. Quando acordei, o Cláudio e a Lília ainda estavam a dormir. Liguei o esquentador da água, um cheiro leve a gás invadiu a cozinha e beijou os azulejos. Fui tomar banho, coisa que estava mortinha por fazer desde a noite de ontem, mas que ainda não tinha tido oportunidade. A água escaldou-me a pele, molhou-me os cabelos e humedeceu-me os lábios. Saí do chuveiro, aventurei-me no nevoeiro causado pela água quente que até aí me corria pelas costas. Vesti-me. Ouvi o Cláudio a restolhar nos lençóis e a falar com a Lília. Eu queria sair de casa antes que eles decidissem levantar-se. Entretanto, chegou o João para ir comigo para a paragem. O Tomás já nos esperava, o cabelo na habitual organizada confusão. Beijei-lhe a face pálida e ele sorriu.

«Bom dia, alegria! Que porcaria de dia!»

«Estás um poeta, Tomás.»

«Bah, faz-se por isso.»

O João parecia ter adormecido contra a parede caiada de branco. Abanei-o levemente e ele estremeceu. A Ariel juntou-se-nos pouco depois, com os cabelos ruivos apanhados na nuca. Começámos a falar de coisas que não tinham sentido nenhum. Acabámos por perder o autocarro, como consequência. Então, pregámos o tiro à escola e fomos para casa da Ariel dormir e beber leite quente, porque a manhã tinha florescido fria.

 

 

 

Até um próximo post,

Joana F.

publicado por Katerina K. às 14:37

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