BLOG FECHADO

02
Jan 09

Isabel levantou os pratos e colocou na mesa uma taça com fatias de ananás. No fim da sobremesa, serviu-se o café em pequenas chávenas frágeis.

Frederico estava do lado direito de Simão Pedro que, como o mais velho, se sentava no topo da mesa. Levando a chávena à boca, o violoncelista olhou o outro rapaz de soslaio e, enchendo o peito de ar, como que a ganhar coragem, perguntou:

            - Simão, posso levar a Isabel comigo a Londres?

À volta da mesa houve todo o tipo de reacções àquela pergunta. Isabel saltou da cadeira, ficando de olhar brilhante fixo em Frederico, num misto de incredulidade e euforia. Mário soltou um «oh!» de surpresa. Alexandre sorriu. David franziu o sobrolho, sem saber o que dizer. Simão Pedro pousou a chávena com força no pires, respondendo:

            - Não.

            - Porque não? – indagou Isabel, agora de olhar abatido e suplicante.

            - Tu, sozinha, em Londres? Não me parece.

            - Ela não vai estar sozinha, vai estar comigo. – disse Frederico.

            - Com o devido respeito, Medeiros, tu mal dás conta de ti, quanto mais dela!

Foi então que se levantou uma voz inesperada na seguinte frase:

            - Eu vou com eles.

Todos os olhares se fixaram em David, que agora exibia um sorriso matreiro nos lábios. A situação era bem clara: David queria provocar Simão Pedro a todo o custo. Este último fitou-o, dizendo:

            - Não respondo a provocações.

            - Sou maior de idade, sei perfeitamente como cuidar de mim e da minha própria irmã.

            - David, não.

            - Porquê?

            - Tu sabes bem porquê.

O rapaz baixou o olhar. Isabel sentou-se, triste e desanimada. Frederico suspirou, como se dissesse: «Bem, pelo menos tentei.»

            - Eu, pessoalmente, não vejo mal nenhum em ele irem a Londres. Ia ser excelente em todos os sentidos. E o David tem razão, nem ele nem a Isabel são umas crianças.

Fora a voz de Alexandre Kerenkov que aparecera de modo a interceder por Frederico, David e Isabel.

            - Ouve, Alex, tu és convidado aqui na minha casa. Aconselho-te a não me desautorizares.

            - A casa não é tua, Simão. É minha. – disse Isabel, furiosa – O convidado aqui és tu.

            - Tudo bem, façam como vos aprouver!

E, fechando a porta com uma força descomunal, Simão Pedro abandonou a sala de jantar. Os restantes ficaram em silêncio alguns momentos, até Isabel irromper em gargalhadas, exclamando:

            - Vou a Londres!

Frederico sorriu e disse:

            - Vou fazer um telefonema, já volto.

 

            Quando deram as nove horas, Isabel subiu ao andar de cima, atravessou o corredor e entrou na saleta. Fechando a porta atrás de si, respirou fundo. Lá estava o piano um Yamaha velho que o pai comprara antes de ela nascer. Sentou-se no banquinho de madeira e começou a tocar Für Elise, de Beethoven. Lembrava-se vagamente de ver a mãe tocá-la, ou talvez isso fosse apenas uma fantasia. Na verdade, não se recordava da mãe, a sua imaginação fazia todo o trabalho, e também não sabia nada sobre ela. O pai nunca falava disso. Mas, depois da morte de Eduardo Carneiro, ou pelo menos do seu desaparecimento, as memórias da tal mulher que fora um dia mãe do seu filho e filha esfumaram-se num abismo. Sentia falta do pai e da mãe…

Isabel abanou a cabeça vigorosamente, não queria pensar nisso. Já ninguém falava do pai. Ou da mãe.

publicado por Katerina K. às 16:19

Os Courage eram um casal deveras engraçado e encantador. Edward estava nos seus cinquenta e poucos, um nada grisalho, com olhos castanhos atentos e vivos e pele morena. No pescoço, via-se um sinal escuro, vagamente escondido pela gola da camisa branca. Na mão, transportava um copo de whisky com soda, enquanto passeava o seu corpo alto de ombros largos de um lado para o outro da sala. Fixando o olhar no átrio, levantou a voz, chamando:

            - Adrianne!

Uma mulher relativamente alta e magra desceu as escadas.

            - O que foi, Edward?

            - Queria saber onde estavas.

A esposa juntou-se a ele na sala de visitas, dirigindo-se à mesa das bebidas e enchendo um cálice com vinho do Porto.

            - Bem, agora estou aqui.

Adrianne Courage tinha trinta e sete anos e era o bom gosto em pessoa. As suas preferências eram as melhores - e as mais caras – não só em vestuário mas também em tudo o resto. O seu corpo, enrolado num vestido negro de trespasse, era envolto por uma nuvem de um odor peculiar mas agradável.

Aproximando-se do marido, perguntou:

            - Os Hope estão atrasados, não estão?

            - Não. – respondeu ele, prontamente – O Hope nunca se atrasa para nada.

            - Há sempre uma primeira vez para tudo. – disse Adrianne, torcendo o nariz.

            - És tão irritante!

            - Só quando quero, querido.

E, passando a mão pelo cabelo habilmente apanhado num puxo, afastou-se graciosamente para abrir a porta, pois a campainha acabara de tocar.

O relógio bateu as nove badaladas.

publicado por Katerina K. às 13:56

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