BLOG FECHADO

17
Dez 08

Encaminharam-se para a sala de visitas, onde à mesa já se sentava uma personagem bastante particular. Era uma mulher gorda e baixa, de olhos pequeninos que nem pedras preciosas cravadas numa batata enorme. Tia Mildred usava um vestido castanho hediondo, complementado por um aparatoso colar de pérolas falsas. Os pés, tal como os olhos, eram pequeníssimos, e encontravam-se calçados num par de sapatos rasos de verniz. A sua voz era estridente e tilintava nos ouvidos de um modo extremamente incómodo. Mildred era o tipo de mulher que pensava que a maquilhagem excessiva lhe tirava vinte anos, mas bem pelo contrário, apenas lhe vincava as rugas e lhe concedia um aspecto patético.

            - Meninos, vamos lá a despachar!.- disse ela, abrindo a sua bocarra imensa pintada de um tom algures entre o roxo e o violeta.

Philip sentou-se e Elizabeth, Jillian e Vincent seguiram-lhe o exemplo. Beth cruzou os braços, decidindo não jogar, e iniciou-se a partida de bridge. Pouco depois, fizeram-se ouvir vozes e passos no corredor. Pela voz, percebia-se que se aproximavam duas pessoas – um homem e uma mulher. Surgiram na sala Belinda e Henry Hope. O casal juntou-se à mesa. Belinda, apesar dos seus quarenta e três anos, aparentava ter apenas trinta e cinco, de cabelo negro e olhos azuis. A sua figura, de uma graciosidade extrema, era coberta por um vestido cobre de corte elegante. O marido, de cabelo dourado fino que já começava a branquear, usava um fato azul-marinho de boa qualidade. A roupa que vestiam era o espelho perfeito da sua personalidade. Belinda era o que segurava a família junta, uma mulher de forte carácter, orgulhosa, sem medo, alguém que sabia guardar um segredo. Henry era o típico mulherengo que assentara e constituíra família, de personalidade um pouco misteriosa, mas meigo e de ar altivo.

            - Vão sair? – perguntou Jillian, dirigindo-se à mãe.

            - Sim, daqui a pouco. Os Courage convidaram-nos para tomar uma bebida.

            - Os de White Manor? – indagou Vincent.

            - Esses.

            - Têm um ar suspeito, vão por o que eu digo. Vocês não os conhecem bem. Ouvi dizer que nem sequer são ingleses, que têm dupla nacionalidade! – exclamou a tia.

            - Oh, Mildred, não sejas absurda. – disse Mr. Hope – E mesmo que tenhas razão, não entendo qual é o problema.

A mulher fungou. Nesse momento, Jane pediu permissão para entrar.

            - Sir?

            - Sim, Jane?

            - Um telefonema para Miss Jillian.

            - Quem é?

            - Alguém chamado Fridérico.

Jillian levantou-se de um salto e correu para o telefone. Passado alguns minutos, assomou à porta, exclamando:

            - O Fred volta amanhã!

Philip sorriu, dizendo:

            - Duas copas.

 

publicado por Katerina K. às 19:39

15
Dez 08

Jillian Hope não tinha vontade de jantar. Sentou-se na sala de música, junto à janela, observando o portão da entrada e o caminho de acesso a Lester’s Hall.

Bateram à porta.

            - Sim?

Uma rapariga franzina de cabelo castanho arruivado e olhos verdes espreitou para dentro do compartimento. Era uma das criadas, Jane.

            - Miss? Mrs. Hope mandou perguntar se não quer jantar.

            - Não, Jane. Obrigada.

            - De qualquer maneira, Miss, vou deixar uma ceia fria no seu quarto.

            - Tudo bem.

Fechando a porta lenta e silenciosamente, a criada retirou-se, deixando a rapariga de novo só. No entanto, não ficou sozinha por muito tempo. A sua irmã Elizabeth juntou-se a ela pela porta que unia aquele compartimento à sala de visitas. Beth Hope era um autêntico anjo. Linda, o cabelo dourado que lhe caía pelas costas sobre a blusa reluzindo, os olhos azuis intensos fitando a irmã. Jillian não era tão bonita, mas continuava a ser bastante atraente. Beth acomodou-se num sofá, perto da irmã, que se sentava no peitoril da janela.

            - Sentimos a tua falta, ao jantar.

Jillian suspirou, afastando da cara uns fios de cabelo que lhe haviam caído sobre os olhos.

            - Não tinha fome e estava sem vontade de ouvir o pai falar do dia dele. É sempre extremamente aborrecido.

            - Que exagero, Jill.

            - Achas? – perguntou, apoiando as pernas musculadas e atléticas numa cadeira próxima.

            - Não é a coisa mais divertida do mundo, mas os discursos da tia Mildred são mil vezes mais maçadores.

            - Sim, é verdade.

Bateram à porta de novo.

            - Sim? – perguntou Elizabeth.

Duas pessoas entraram na sala. Uma delas era Vincent Hope, irmão das raparigas e o filho do meio, mais velho que Elizabeth mas mais novo que Jillian. Tal como elas, possuía cabelos loiros e olhos azuis, mas este detinha umas feições um pouco mais duras que as delas. A outra era um homem muito jovem, na casa dos vinte anos, de nome Philip Miller. Era um jovem americano de semblante esculpido num pedaço de mármore. Como Elizabeth dissera da primeira vez que o vira, «tem cara de quem já matou alguém». Ela certamente disseram aquilo num gracejo mas, observando a face de Philip, qualquer um entendia o que a rapariga quisera dizer com aquilo. Pálido, de nariz ligeiramente aguçado, olhos cinzentos assustadoramente brilhantes, traços severos, uma certa malícia em toda a sua expressão. Mesmo assim, era uma pessoa agradável e comunicativa, que sabia dizer uma boa piada no momento certo. Era convidado de Jillian, estudavam ambos oncologia e haviam-se tornado bons amigos.

            - Ah, são vocês. – disse Elizabeth, cruzando os braços.

Não existiam dúvidas de que Beth era uma jovem elegante e de bom gosto. Usava uma blusa decotada e uma saia de pregas pouco acima do joelho. Esta das irmãs Hope parecia ter arrecadado todo o feminismo, o qual era quase inexistente na figura alta e atlética de Jillian, que, de calções de ganga e t-shirt, continuava a fitar o portão pela janela.

            - Sim, somos nós. Vai uma partida de bridge? – indagou Vincent, quase retoricamente.

            - Não vinha mal nenhum ao mundo, suponho que é uma boa ideia. Vens, Jill?

            - Jogar bridge não tem piada sem o Fred.

Jillian tratava Frederico Medeiros por Fred, por este nome ser português e particularmente difícil de pronunciar para um inglês.

            - Vá lá, Jill! Não sejas desmancha-prazeres!

Então, com um suspiro, ela assentiu.

 

publicado por Katerina K. às 21:07

12
Dez 08

A sala era grande, com paredes de pedra que se erguiam como torres. Costumava ser um compartimento frio, por isso instalaram uma lareira. Esta encontrava-se apagada. Era Verão, as janelas estavam abertas para trás de modo a entrar ar fresco e a aproveitar-se a restante luz solar; daí a pouco escureceria.

Na sala de jantar, já a mesa estava posta, as portadas fechadas e o candeeiro de tecto aceso.

Frederico sentou-se no sofá, rodeado por Isabel e David, contando as suas aventuras em Londres e falando dos locais que visitara e pessoas que conhecera. Londres era muito diferente dos Açores. Era uma cidade sombria, coberta por uma névoa sinistra, trespassada pelas badaladas pesadas e habituais do Big Ben. As pessoas eram um pouco o reflexo deste ambiente, mas existiam sempre excepções à regra. Segundo Frederico, Jillian era uma dessas raridades. Ele descreveu-a como sendo detentora de cabelos loiros «parecendo feitos de raios de sol» e de olhos incrivelmente azuis.

            - A mim parece-me uma londrina comum. – disse David, torcendo o nariz.

Mas não era. Jillian Hope fazia de tudo um pouco. Era uma atleta exímia, esgrimista desde os seus sete anos, uma aluna brilhante, uma cozinheira esplêndida. Morava no apartamento ao lado do de Frederico enquanto estudava oncologia. Os pais viviam não muito longe de Londres, numa mansão de nome Lester’s Hall.

Isabel ouvia o que Medeiros contava com uma atenção assustadora. Como ela gostava de ir a Londres com Frederico, visitar a tal mansão e conhecer não só Jillian, mas também os outros amigos ingleses do rapaz.

Simão Pedro encontrava-se na cozinha, a fingir que acabava o jantar, mas estava apenas a ouvir o que o visitante contava, sem dar muito nas vistas. Mário também se absorvia nas histórias de Frederico. Alexandre Kerenkov era a grande ausência, mas não se fez faltar por muito tempo. Daí a nada, já descia as escadas, limpo e arranjado. Simão sorriu-lhe.

            - Já está pronto, o jantar?

            - Quase. Junta-te a eles, vão para a sala de jantar.

            - Tudo bem. Até já.

 

publicado por Katerina K. às 20:10

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