BLOG FECHADO

27
Ago 08

III

No andar de baixo, David ajudava Isabel com o jantar.

Como o Sr. Fernandes acabara de matar um porco, Isabel e David Carneiro e Simão Pedro Sousa haviam recebido um belo naco de carne que a Sra. Fernandes havia trazido no dia anterior. Esta chegara, corada e suada como sempre, o seu rosto amigável e gorducho sorrindo. Mal lhe tinham aberto a porta, já ela se precipitava para dentro da casa, exclamando na sua voz estridente que estava um belo dia. «Chover? Isso só amanhã! Não, hoje não vai chover. Não confio naqueles da televisão. É como eu digo ao meu Alberto, vai tudo pela lua!» dissera ela, pousando um saco vermelho de plástico em cima da banca da cozinha. De seguida, perguntou pela «querida da Bela», ao que Simão Pedro respondera que «devia estar lá em cima». A mulher, meia eufórica, subiu as escadas com a mão no avental e chamou pela rapariga.

David riu-se interiormente daquela situação que se repetia incontáveis vezes. E a verdade era que Isabel tinha uma paciência de santa. Aguentava ouvir a Sra. Fernandes falar horas a fio de temas profundamente desinteressantes sem uma única queixa.

Fitou-a. A rapariga desfolhava uma alface, completamente distraída e absorta de tudo à sua volta.

Nesse momento, Simão Pedro e Mário desciam com algum alarido. Apareceram ambos onde desembocavam as escadas, um atrás do outro.

Isabel olhou Mário de sobrolho franzido, acabando por levar as mãos às faces, exclamando:

                     - Esqueci-me!

Simão Pedro estranhou aquele grito.

                     - Esqueceste-te de quê?

                     - Convidei o Frederico Medeiros para jantar.

                     - Ui, porquê?!

                     - Já nem sei. Qualquer coisa a propósito de ele querer falar contigo, Simão. Mas sinceramente não me lembro.

                     - Quando é que estiveste com ele?

                     - Hoje de manhã, quando fui à vila comprar pão.

                     - Eu nem fazia ideia que ele já tinha voltado de Londres.

                     - Voltou há três dias, pelo que percebi. Está a dormir na Pensão.

                     - Sim, estou a ver.

                     - Mas mudando de assunto, Mário, ficas para jantar?

                     - Se não for incómodo... - respondeu ele, sorrindo.

                     - Não é incómodo nenhum. Já que ia fazer jantar para 5, porque não fazer para 6?

 

 

Até ao próximo post,

J.F.

 

publicado por Katerina K. às 10:03

21
Ago 08

Mandaram-me um mimo.

Sim, a minha querida Isabel surpreendeu-me.

E só tenho que lhe agradecer. Eu não sou brilhante, apenas digo o que me vai na alma. Brilhante é quem enfrenta a vida com determinação e fé para dar e vender. Brilhantes são pessoas como tu.

E mais uma vez agradeço a tua assiduidade, palavras e encorajamento. É para pessoas como tu, Isabel, que escrevo.

Ninguém melhor para fazer juz ao nome da protagonista do meu romance.

 

Obrigada.

 

 

J.F.

publicado por Katerina K. às 16:18

19
Ago 08

II

Então ouviram-se uns gemidos vindos de fora e Simão Pedro viu uma sombra projectada na parede pintada de branco, à sua frente. A janela abriu-se com um clic e alguém caiu para dentro da casa de banho. O rapaz virou-se na banheira de sobrolho franzido, mas riu ao ver quem era e acolheu aquele visitante inesperado, dizendo:

                     - Bem que podias entrar pela porta, como toda a gente.

                     - Prefiro uma entrada mais dramática.

Foi aquela a resposta que Mário Flores dera a Simão Pedro Sousa. Mário era deveras uma personagem castiça, uma figura um tnto quanto desconchavada, de feições agradáveis mas engraçadas. O seu corpo franzino levantava-se do chão ficando com o pé preso nas calças de Simão Pedro, o qual se apressou a sair do banho e a envolver-se numa toalha.

                     - Sinceramente, Mário, não entendo a lógica de vires por esta janela.

                     - A sebe é mais forte deste lado.

                     - E tu adoras trepar pela sebe!

                     - Por acaso não é mau de todo. As mãos depois ressentem-se mas isso pouco me importa.

Dizendo isto, coçou as sobrancelhas grossas e esboçou um sorriso confuso.

Simão Pedro encolheu os ombros e, afastando as botas da porta para a poder abrir, rodou a chave na fechadura e saiu despachado, arrastando os pés molhados pela carpete do corredor. O cabelo pingava-lhe para os ombros, sendo a água absorvida pela toalha.

A última porta à direita era o seu quarto. Ao lado deste situava-se o de Isabel e a frente do dela o de David. Ao fundo do corredor, na extremidade esquerda, era o velho quarto de hóspedes - onde Alexandre Kerenkov iria ficar - e na extremidade oposta uma pequena saleta antiga para a qual Isabel ia tocar piano ou ler nos dias mais frios de Inverno ou onde se juntavam para jogar uma partida de cartas quando a esposa do dono da quinta mais próxima, a Sra. Fernandes, passava por lá para entregar ovos ou um pote de mel. O quarto de Simão Pedro era virado para o mar que, não muito longe, se espraiava no horizonte. As paredes pintadas de um amarelo pálido, tomavam um tom meio durado com a luz de fim de tarde que entrava pela janela. Não era um quarto excepcionalmente grande mas servia as necessidades do rapaz.

Simão Pedro atirou a toalha para cima da cama e vestiu alguma coisa tirada ao acaso do armário - uma camisa escura e umas calças pretas de ganga. Calçou as sapatilhas e, sacudindo a água do cabelo que nem um cão, passou-lhe a mão numa tentativa de lhe conceder um pouco de ordem.

Mário deixara-se estar fora da porta, trauteando uma qualquer canção que lhe viera à cabeça. Então, perguntou:

                     - Demoras?

                     - Não.

Pouco depois, Simão Pedro saiu do quarto com um sorriso nos lábios.

                     - Vamos descer. A Bela já deve ter começado a fazer o jantar.

Ao descerem o corredor, repararam que a porta da casa de banho tinha sido de novo fechada e não só as botas mas também o resto da roupa suja de Simão Pedro se encontravam encostadas à parede, do lado de fora.

Era Alexandre quem ocupava a casa de banho Não se ouvia muito ruído, apenas o chapinhar da água e a respiração pesada do hóspede.

 

Até a um próximo post,

Joana F.

publicado por Katerina K. às 14:46

16
Ago 08

I

Simão Pedro acabara de se despir e de entrar para a banheira cheia de água estranhamente turva. Recostou-se e ficou coma água pelo quixo.  Havia fechado a porta à chave para não ter visitas inesperadas: nem Isabel, nem Alexandre, muito menos David. Assim sabia estar em paz máxima, pelo menos era o que desejava.

Inspirou e de seguida fez o ar sair pela boca lentamente. Tirou a mão de dentro de água para olhar os dedos, ainda não estavam enrugados. Deixou cair o braço na água num slpash cheio de aparato. No entanto, não se preocupou minimamente com isso. Começava a ficar corado do calor que se acumulava no compartimento. Fechou os olhos, sorriu levemente. Finalmente estava em paz e sossego. Mergulhou.

As botas sujas viam-se contra a porta, a roupa encontrava-se espalhada pelo chão, sobre o tapete verde esbatido. O corpo moreno do rapaz era coberto por água quente através da qual se podia ver o sabão azul, aos seus pés. Silêncio.

 

Até a um próximo post,

Joana F.

publicado por Katerina K. às 22:02

11
Ago 08

A dor desaparecia, David desceu as escadas com alguma dificuldade e olhou pela janela da sala de estar para descobrir de onde viera o som do tiro. Sorriu.

Alexandre Kerenkov aproximava-se da casa, o revólter Colt com o qual anunciara a sua chegada brilhando-lhe na mão. As botas enlameadas roçavam contra a terra do caminho e o sobretudo comprido pingava para o chão. O cabelo claro caía-lhe sobre a testa em farripas molhadas pelas quais passou a mão de dedos compridos. Os seus olhos esverdeados demonstravam cansaço da longa viagem que tivera de fazer para chegar aos Açores, ali, à ilha de S. Miguel. Alexandre, apesar de ter apelido russo, era bem português. A mãe conhecera o pai quando fora à Rússia visitar um tio e voltaram ambos para Portugal. As feições russas estavam bem marcadas na face de Alexandre, qualquer um o confundiria com o pai.

David abriu a porta das traseiras para o recém-chegado entrar e deixou-se estar encostado à ombreira. Alexandre aproximou-se dele com um sorriso curioso nos lábios. Então, disse:

                     - David, há quanto tempo! Estás a ficar um homem!

O rapaz riu-se e, na sua voz meia agridoce, convidou o visitante a entrar. A cozinha revestia-se de azulejos azuis e brancos de temas florais. Os armários de madeira tinham sido pintados de branco há pouco tempo pois, segundo Isabel, ficava melhor assim. Por isso, Simão Pedro passara uma manhã inteira a lixar e uma tarde a pintar para os armários ficarem tão bonitos.

Kerenkov pousou a mochila que trazia a ombro no chão, encostada à parede, perto da porta da sala.

                     - Queres tomar alguma coisa, Alex?

                     - Por acaso estou esfomeado e cheio de sede, mas prefiro esperar pelo jantar.

                     - Isso é capaz de demorar. Há café e pão se quiseres.

                     - Um café sabia bem agora, sim.

                     - Eu vou fazer, então.

                     - Obrigado. Já sabes como gosto dele, bem quente e...

                    - Sem açúcar. Sim, ainda me lembro.

Pegando na cafeteira, encheu-a de água da torneira e colocou-a ao lume, no fogão. Nesse momento, Isabel irrompeu na cozinha, os seus olhos brilhando. No entanto, quando estava pronta a saltar para o pescoço de Alexandre, ele falou:

                     - Agora não, minha querida. Estou sujo da viagem. Talvez mais logo, depois de ter tomado banho e mudado de roupa.

                     - Tudo bem... - respondeu ela, numa voz sumida, enquanto se retirava para a sala e se estirava no sofá.

A cafeteira assobiou e David deitou para dentro dela umas quantas colheres de café moído.

                     - Daqui a uns minutos está pronto.

O visitante olhou pela janelinha das traseiras e viu Simão Pedro a chegar, ainda com as botas de cavalgar enlameadas calçadas. Ao entrar na cozinha, não agiu como Isabel, pelo contrário. Apenas cumprimentou David com um aceno e deu umas palmadinhas nas costas de Kerenkov, enquanto dizia:

                     - Bem-vindo, Alex.

Depois desapareceu nas escadas que davam acesso ao andar superior.

                     - Anda esquisito, o Simão.

                     - Pois, já há algum tempo, mas deixa lá, passa-lhe.

Veio a voz de Isabel da sala.

                     - David, já encontrei aquele livro que andavas à procura.

                     - Ai sim? Onde estava?

                     - Debaixo do sofá, para variar.

Alexandre virou-se e viu a cafeteira a fumegar. Esticou o braço para agarrar uma caneca e entornou o líquido escuro a escaldar para dentro dela.

                     - Perfeito. - disse.
publicado por Katerina K. às 14:48

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