BLOG FECHADO

18
Set 09

            Já passava da meia-noite quando um ligeiro baque me acordou. Virei-me nos lençóis e afastei as cortinas com as mãos, espreitando por entre elas. No canto do quarto, uma figura negra apoiava-se na parede. Deu um passo em frente, e a luz lunar incidiu nos seus contornos esbeltos.

            - Shiu. – disse ele, levando um dedo aos lábios.

            - Ah, Anjo. És tu.

            Desenhou-se no seu rosto um sorriso a contraluz.

            - Desculpa estar a acordar-te. Queria mostrar-te uma coisa.

            Levantei-me, surpreendentemente alerta para aquela hora da noite. Segui-o na escuridão do corredor, guiando-me apenas pelo som que os seus pés descalços faziam ao deslizar na madeira e por um fiapo de luz ao fundo, vindo de uma janela solitária. Subimos umas escadas estreitas e vi-me num amplo sótão, com uma única e gigantesca janela de vidro duplo, da qual era possível ver a lua, grande e prateada, contra a negrura nocturna. O compartimento estava pouco mobilado, apenas uma cama, um candeeiro vertical, uma mesa – onde se viam várias torres de livros e de partituras – e um sofá. Atravessámos o quarto improvisado com uma certa indiferença, dirigindo-nos à janela. O Anjo premiu o vidro com a palma da mão e este deslizou suavemente para o lado. Incrédula, observei-o a avançar para o telhado. Rodou sobre si mesmo e observou-me, estendendo-me o braço. Caminhei a medo até as nossas mãos se encontrarem e ficarem encaixadas uma na outra. O telhado não era inclinado, e descia apenas muito discretamente. O Anjo sentou-se, acabando por se recostar na superfície da cobertura. Imitei-o, sem deixar de hesitar.

            Deitei-me ao seu lado, com as mãos sobre a barriga. Os meus olhos ficaram paralelos ao céu, que naquele momento parecia o vestido de uma viúva, cravejado de flamejantes pedras preciosas que refulgiam ociosamente na noite. A lua, da cor de uma moeda da sorte, iluminava o rosto do Anjo. Neste, quando ele falou, vi um lampejo de tristeza.

            - Eu sei o que a Núria te disse.

            Fechei os olhos.

            - Estavas a ouvir?

            - Não, mas eu sei. Sei muita coisa.

            Quando não respondi, ele continuou.

            - Quero que saibas que…que ela tem razão. Eu não sou boa pessoa. Tenho necessidade de me afastar do mundo, das pessoas. Não mantenho afectos, porque sei que são assuntos complicados, demasiado complicados. Analiso as coisas com frieza porque assim sei que faço o que é objectivamente correcto.

            Abanei a cabeça com força.

            - Este mundo é tudo menos objectivo.

            - Isto faz parte da minha personalidade. – prosseguiu ele, passando por cima do meu comentário – Não escolhi ser assim, mas já que sou, decidi abraçar as minhas características. De que me adianta repudiar o material de que sou feito? Sou frio, literalmente. Não sou uma pessoa agradável, que inspire confiança. Nasci uma sombra, fui criado como um vulto, para passar despercebido como um ponto cinzento numa multidão negra. Quero que entendas isso.

            - Não entendo. – disse eu, fitando-o bem nos olhos indefiníveis – Não anseias por afecto, por calor humano?

            Ele sorriu tristemente e suspirou, apoiando-se no cotovelo.

            - Anseio por algo que só tu me podes dar.

 

publicado por Katerina K. às 10:34

Muiito? Espera lá, um humano que é humano não resiste ao amor e luxúria. Soo, que vai aconteceeer?

Filipa a 18 de Setembro de 2009 às 22:07

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