BLOG FECHADO

15
Set 09

Para a Sara, mais uma vez.

 

            O quarto, o meu quarto, cheirava a frutos silvestres, particularmente a amoras. Era um cheiro doce, embriagante e deliciosamente forte. O compartimento era de madeira, forrado com um papel de parede às listas verticais azuis claras e escuras. Existia um toucador em pinho, coroado por um colossal espelho emoldurado a ferro negro, inúmeras estantes, repletas de todos os livros que eu poderia ler na vida, uma secretária discreta que reparei ter sido posta especialmente para mim e dois belos cadeirões brancos Sheraton. Ao fundo, na parede oeste, estava encostada uma magnífica cama de dossel, com as cortinas, de linho semi-transparente, completamente corridas. Da janela, que dava acesso à varada, eu conseguia ver o mar, sobre o qual planava uma névoa púrpura que se estendia ao longo do horizonte.

            O Anjo, enquadrado no umbral da porta, observava-me com os braços cruzados e um sorriso no rosto, como se aquilo fosse a coisa mais divertida do mundo.

            - Gostas? – perguntou – Era o meu quarto, mas mandei fazer algumas alterações, e agora é teu.

            - Era o teu quarto?

            Ele assentiu com um gesto de cabeça.

            - Onde vais dormir agora?

            - Ah, não te preocupes comigo. Eu depois mostro-te.

            Avançou gentilmente na minha direcção e indicou-me a varanda. Abrimos o vidro, e entrou para dentro do quarto uma delicada brisa salgada e morna, típica do final do dia. Fomos banhados por uma estranha e escassa luz cor de mel. Ao aproximarmo-nos da grade, o braço dele tocou suavemente no meu, tal como os nossos dedos. Senti um pequeno choque, que não durou mais de um segundo – electricidade estática, pensei – e voltei a dar conta apenas de quão fria estava a sua pele. A vista dali era perturbante, de tão única. Via-se a praia, desdobrando-se pela costa até desaparecer nos píncaros da distância, os rochedos, as dunas, uma pequena cidade na orla de uma enseada distante e, claro, o oceano, reluzindo na luz do entardecer como se diamantes cobrissem a sua superfície. Na areia da praia, um pouco mais à frente, distingui o sítio onde eu e o Anjo estivéramos sentados: dois círculos indistintos, prestes a ser devorados pela água.

            - Tudo o que vemos ou nos parece ver não passa de um sonho dentro de outro sonho. – ouvi-o dizer, enquanto levava ao sítio a teimosa mecha de cabelo que insistia em ficar suspensa em frente aos olhos.

            - Edgar Allan Poe. – disse eu, reconhecendo a citação.

            - Muito bem. – sorriu, lançando-me um esgar – Gosto muito de Poe.

            - Também eu.

            Estremeci com o grito de uma gaivota, mas ele ficou impassível. Uns segundos depois, ainda estava eu magnetizada pelo pulsar de vida nos seus olhos, ele roçou-se no meu braço, ao afastar-se na direcção da porta e, antes de desaparecer na aparente escuridão do corredor, murmurou alguma coisa.

publicado por Katerina K. às 19:11

ah... que fofinha! muito obrigada :) Joana, tu és um espectáculo, para além de escreveres bem 'ca "sa" farta!, és super simpática :) srsly!
Bem, agora vou ler e reler muito bem
Sara a 15 de Setembro de 2009 às 19:15

pois ainda é mais cansativo :\
Inês a 15 de Setembro de 2009 às 19:47

é complicado :\
Inês a 15 de Setembro de 2009 às 19:53

mesmo lindoo. epá, tens mesmo que publicar um livro. seja qual for o género, eu vou adorar :tt
Catherine a 15 de Setembro de 2009 às 19:55

Adorei *-* O Anjo é tão romântico. <3 É impressão minha ou ainda está por vir amor?

Beijinhos!
Filipa a 15 de Setembro de 2009 às 20:42

O que tu me fazes...
Primeiro Regina Specktor e agora Poe?
Eu simplesmente adoro-o.
Estive completamente viciada nos seus contos e na Annabel Lee, durante o primeiro trimestre do ano. A minha apresentação oral de Português foi sobre ele.
Adoro-o.
E de facto, os teus textos lembram-me um pouco os dele. Numa vertente menos assustadora, macabra ou sarcástica e, sem dúvida, mais moderna. Mas igualmente misteriosa.
O meu conto preferido: O Gato Preto (como não podia deixar de ser, embora também aprecie muito Os Óculos)

Já percebeste por que a tua escrita me cativa tanto...

Beijos
Ana
Jane Doe a 15 de Setembro de 2009 às 20:46

Então? :O
o quinze é muito chocante ou acontece algo que a gente não quer mesmo que aconteça? xD
Catherine a 15 de Setembro de 2009 às 21:19

Esspera? Tolinhas? OMG! Que vai acontecer? *-*

Não me mates de curiosidade, por favor.

Beijinhos!
Filipa a 15 de Setembro de 2009 às 21:30

Oh My God. Oh My God! Espero que eles se juntem. Eu emociono-me com aqueles toques básicos, apenas quando POR ACASO se tocam ou quando ele lhe lança um olhar impenetrável e esperançoso. Por favor, por favor, não mates ninguém. Literalmente! Eu quero que eles namorem vivos, não com os anjinhos, ok? Sinceramente os meus comentários estão a ficar um pouco mórbidos. É da emoção, tu sabes.

Adooooro o teu blog mais que tudo! :-)

Beijinhos!
Filipa a 15 de Setembro de 2009 às 22:07

ehehe :D
afinal não sou assim tão anti-social. conheço muita gente na turma, mas a que não conheço já falei para duas raparigas :)
também há umas pronto meio pro (nojento). mas enfimm
Inês a 15 de Setembro de 2009 às 22:09

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