BLOG FECHADO

31
Jul 09

O que ouvimos não fora propriamente um barulho. De qualquer modo, fora o suficiente para todos os pêlos da parte de trás do meu pescoço se eriçarem. Agarrei o David com mais força, praticamente enterrando o seu braço no meu flanco, entre o escuro do cabedal do meu casaco. Sustive a respiração por um momento, quedando-me imóvel na escuridão da casa.

            - O que foi aquilo? – sussurrei.

            - Pode ter sido muita coisa. – respondeu ele, placidamente.

Outro barulhinho crepitou na escuridão. Senti o David a puxar por mim. Procurei a mão dele com o braço que tinha livre, pegando nela languidamente, os meus dedos indo ao encontro dos dele.

Ouvi a sua voz soar calma, quase doce.

            - Tranquila.

            - Estou tranquila.

Avançámos cegamente, sem saber exactamente para onde estávamos a ir. De repente, vimos que um laivo de luz cortava a gélida escuridão. Provinha de uma sala com a porta entreaberta, deixando a luz sair suavemente pela fresta. Outro barulho.

            - Vem dali.

Percebi que ele assentiu lentamente. Depois de termos dado uns passos em frente, o David parou. Não percebi imediatamente o porquê daquela hesitação. No entanto, uns segundos depois, ouvi alguma coisa que se sobrepunha ao silêncio. Era música, uma música tão baixa que se podia quase considerar um murmúrio.

O raio de luz iluminava vagamente o rosto do David. Estava totalmente relaxado.

            - Isto é…

            - Rachmaninov. – completou ele.

Subitamente, um sorriso rasgou-se-lhe no rosto. Soltou uma risada curtíssima e quase imperceptível. Fez-se silêncio uma vez mais, e de novo se ouviu a música.

O David esticou o braço e, apoiando a palma da mão na madeira morena da porta, abriu-a. Ela deslizou para trás demoradamente, sem um ruído, mostrando uma sala que eu bem conhecia: a sala do piano. Era ali que tudo acontecia, por assim dizer; o sítio onde o David passava a maior parte do seu tempo. Um belíssimo Steinway & Sons de cauda completa erguia-se no meio do tapete que cobria o soalho de todo o compartimento. De repente, vi a figura. Ao princípio, tomei-o por um fantasma. Depois, percebi que era um homem. Encontrava-se de costas, sentado ao piano, as suas mãos espectrais deslizando pelas teclas tão brancas quanto a sua pele. Nesse momento, uma certa frieza cresceu dentro de mim. Ouvi-o a expirar pela boca, lentamente. Um formigueiro subiu-me pela espinha, obrigando-me a estremecer. Aí, soube que ele tinha notado a nossa presença. Baixou os braços, levou as mãos ao banco forrado a veludo. O David, ao meu lado, sorria. Então, o homem virou-se e pude ver o seu rosto cor de luz.

 

publicado por Katerina K. às 14:32

Tinha acabado de comentar o post anterior a dizer que queria descobrir que barulho era aquele, e quando acabei já estava aqui o post ^^ senti-me mesmo feliz!

Música? Uau +.+ Mas o David parece conhecê-lo e tu conhecias? Ai.. quero tanto continuar a ler...

Sandy a 31 de Julho de 2009 às 14:50

Para isso vais ter de esperar pela quarta parte! (:
Vai visitando, pode ser que qualquer dia tenhas a surpresa do capítulo seguinte já estar publicado!

Beijinho flautístico,
J.F.

Vou vir ^^ Obrigada por escreveres e partilhares =)

Porque não o faria? Não sou egoísta, gosto de partilhar as minhas escritas com o mundo. (:
Quanto ao post, vou levantar um bocadinho do véu. ;) Sim, o David conhece o homem! :D

Beijinho flautístico,
J.F.

Sim, mas há muita gente que nao gosta quando os outros lêm. Ainda por cima tu que escreves tão bem! Podias (e acho que devias) publicar um livro.

A serio? Realmente parecia, porque ele sorriu ^^ Depois tenho de vir cá ler o resto.

Beijinhoos*

Eu quero mesmo publicar. Mas as editoras é que decidem!

Beijinho flautístico,
J.F.

As editoras não vão (nem podem!) dizer-te não...

Beijinhos

Ficaste fã :P

Beijinho flautístico,
J.F.

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