BLOG FECHADO

03
Jul 09

A Isabel diz que escrevo posts pequenos. Então cá vem um grandinho. Aproveita, rapariga.

 

Eu tinha combinado sair com a Ariel. Os dias tinham andado cinzentos e tristes, dentro de mim. No céu, o sol brilhava, deitando os seus raios imperialmente dourados na cabina transparente da estação do metro. As minhas costas começavam a arder com o calor que se acumulava. Encostei a cabeça ao plástico duro e cruzei as pernas no granito. Olhei o telemóvel. 1 nova mensagem: David. «Sei que esta mensagem me vai custar os olhos da cara, porque o roaming é lixado, mas quero saber como estás. Quando estive contigo estavas um bocadinho murcha, espero as coisas tenham melhorado. Diz alguma coisa, para eu não ficar preocupado. Eu vou dando notícias, está bem? A minha mãe manda um beijo. Gosto muito de ti.» Sorri. Sempre gostei das mensagens do David, grandes e fluentes, como se estivesse ao meu lado a falar comigo. «Gosto muito de ti.» Eu também, David. Eu também.

Respondi qualquer coisa como «Está tudo bem, não te preocupes. Falamos quando voltares.» Sei que fui um bocado seca, que não lhe retribuí o afecto que ele tão abertamente me tinha dado. No entanto, aquilo era o máximo que eu conseguia dar naquele momento, a quem quer que fosse.

Passou algum tempo, não sei bem quanto, já que estava meia a dormir, meia acordada.

                - A Ari nunca mais chega. O que raio é que ela anda a fazer? – murmurei para os meus botões, uma gota de indignação pendente na minha voz.

Recostei-me. Lembrei-me que podia ler enquanto esperava pela atrasada da Ariel. Tirei Os Maias da mala e empurrei o marcador, o que fez com que se o livro se abrisse na página 224.

Ao meu lado, soou uma jovem voz masculina.

                - Os Maias. Tijolo intragável.

Levantei o olhar. À minha frente, erguia-se um rapaz alto, com cerca de 17 anos. Nunca o tinha visto antes. Sorria-me, modelando os lábios finos e pálidos num desenho sem falhas. Era perfeito, absolutamente perfeito. Perscrutava-me com os seus incríveis e profundos olhos azuis acinzentados. Tinha um rosto oval, tingido de uma cor uniforme e saudável, dourada. Na linha do maxilar crescia-lhe uma barba rala, castanha clara, combinando com a sua juba desalinhada.

                - Sim, um tijolo, mesmo.

                - Li metade.

                - Já é bom.

Um minuto de silêncio.

                - Conheço-te? – perguntei, sabendo bem que não o conhecia.

                - Acho que não. Sou o Mateus.

                - Olá, Mateus. Joana, prazer.

                - Oh!, o prazer é todo meu!

Observei-o com mais atenção. Era verdadeiramente bonito, e não só um tipo atraente. Que rosto impressionantemente belo que me olhava tão despreocupadamente. E que olhos! De um certo, e esquisito, modo, o Mateus era ligeiramente parecido com o David, mas só ligeiramente. O David era um pouco mais baixo, o cabelo muito mais escuro e não tinha aqueles olhos incríveis, mas na sua face estava impressa uma sensação de infantilidade que me derretia o coração de cada vez que olhava para ele. Mas com o Mateus não se passava o mesmo. Era ternamente sensual, como mais tarde a Ariel disse, num gracejo. E caramba, como era verdade!

Sentou-se ao meu lado aquela criatura aparentemente divina. Olhei-o de esguelha. O seu olhar interceptou o meu. Ri-me. Eu estava a ser uma criança danada. Meu Deus, não me lembrava de ser assim desde, sei lá, desde que era mesmo criança.               

                - Para onde vais? – perguntou ele, sorrindo.

                - Vou para o Porto. Saio na Trindade.

                - Que coincidência, também eu.

Eu podia estar a ser criança, mas não estava a ser ingénua. Coincidência, uma ova! Se o Mateus ia mesmo para a Trindade, tinha acabado de decidir isso. Mas quem era eu para contestar que um indivíduo incrivelmente bonito e infinitamente simpático me acompanhasse à Trindade? No entanto, não me lembrei que a Ariel também vinha comigo. Entrei no metro com o Mateus e só quando já estava, diga-se a verdade, na Trindade, é que me recordei da pobrezinha da rapariga.

1 nova mensagem: Ariel. «Desculpa, Jo, mas não vou poder sair hoje. Não percas o metro por minha causa. Desculpa, desculpa. Logo anda cá a casa, a minha mãe convidou-te para jantar. Quanto à nossa ida ao Porto, olha, arranja algum jeitoso e vai com ele. Adoro-te.»

Encostei a cara aos joelhos e desatei às gargalhadas.

Criar mensagem: «Sim, Ari. Não te preocupes. Estás desculpada. E quanto ao jeitoso, bem, arranja-se um qualquer de olhos azuis por aí, nas estações de metro.» Continuar. Procurar nos contactos. Ariel. Enviar. Mensagem enviada.

 

Até a um próximo post,

J.F.

publicado por Katerina K. às 10:28

Olá. Vinha retribuir a visita e quando comecei a ler não consegui parar. Esta maneira tão poética de escrever. Fiquei rendida, quem me dera saber escrever assim. Não sei qual é a tua profissão ou se ainda estudas, mas acho que tens uma vocação para escritora, e daquelas famosas. É lindo a forma como escreves, lindo! Parabéns
A-lupa-de-alguem a 13 de Julho de 2009 às 15:17

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