BLOG FECHADO

14
Jul 08

David sentou-se contra a parede do quarto vazio em dores excruciantes. O suor caía no soalho escurecido em gotas compridas que se deitavam na madeira delicadamente. O papel de parede azul às listas finas trazia a memória de lágrimas derramadas. A chuva caía feroz, na vidraça, desfocando o céu coberto de nuvens cinzentas disformes rasgadas por relâmpagos. David sentou-se na penumbra de um canto, afogando-se na solidão da sua dor. Fechava os olhos para as lágrimas não caírem e cerrava os lábios para calar os gritos.

A tempestade furiosa levava a fraqueza do mundo com ela,  diluída na chuva, misturada com o vento, embutida nos trovões.

O pequeno estábulo estremecia timidamente, abrigando os cavalos, Isabel e Simão Pedro. Ela sentava-se num monte de feno agarrando as pernas contra o queixo. Ele, encostando ao compartimento de Viriato, brincava com a navalha.

                    - Que se passa? - perguntou ele.

A rapariga não respondeu, sentava-se ali quieta e muda, de olhos baços e lábios descaídos. Simão não insistiu, sabia que a seu tempo ela responderia.

                     - Estou preocupada com o meu irmão.

O jovem olhou-a, sério, os olhos azuis como mar revolvendo-se em ondas iradas.

                     - O David não merece preocupação.

Ela fitou-lhe os olhos infinitos, como que incrédula.

                     - Isso é mentira, Simão.

                     - Não é. Tu sabes, Bela, tu sabes.

                     - Eu sei? Será que sei? Nunca me disseste o porquê deste ódio um pelo outro!

Ele virou-se de costas para não a enfrentar.

                     - Não é da tua conta.

                     - A mim parece-me que é.

                     - Parece-te mal.

Dente de Leão observava-os de olhos suplicantes e esfomeados. Viriato deitava-se, apenas conseguindo ver o topo da cabeça de Simão Pedro, coberta pelo cabelo claro.

Isabel encostou-se ao feno, fazendo o cabelo castanho selvagem espalhar-se na palha fofa e quente. O rapaz olhou-a por cima do ombro, meio embaraçado, dizendo:

                     - Desculpa, sabes que me irrito facilmente.

Ela revirou os olhos e suspirou demorada e profundamente, como se dissesse: «Tudo bem, já não é a primeira vez!».  No entanto nada disse, limitou-se a esticar as pernas e aconchegar a cabeça nas mãos.

Viriato relinchou, indignado. Simão abriu a comporta e deitou-se ao lado do animal, afagando-lje a barriga com carinho. Este expirou sonoramente.

Seguiu-se um último trovão e a chuva começou a acalmar, restando apenas uns choviscos teimosos.

Isabel levantou-se para dar de comer a Dente de Leão.

Então, ouviu-se um tiro.

 

Até a um próximo post,

Joana F.

publicado por Katerina K. às 19:51

Até me arrepiei... estava a gostar da história, do ambiente, embora pesado, das fantásticas descrições... e arrepiei-me com o tiro, até sustive a respiração.
por favor, não demores muito a publicar o resto da história :D

beijinhos
Lili*
Palavreadora a 20 de Julho de 2008 às 20:20

Olá amiga
Já há um tempo que não passava por aqui mas continuo a achar que escreves muito, muito bem!
vou acompanhar a história que estou a adorar.

Bjinho
Subjectividades a 30 de Julho de 2008 às 17:23

Julho 2008
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

13
15
16
17
18
19

20
21
22
23
24
25
26

27
28
29
30
31


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

RSS
arquivos
A Banda Sonora dos Rascunhos


MusicPlaylist
Music Playlist at MixPod.com

mais sobre mim
pesquisar
 
favoritos

#5

blogs SAPO