BLOG FECHADO

26
Jan 10

             Sawyer sentou-se no chão do quarto, juntou as pernas e cruzou os braços. Tinha tido o cuidado de fechar as janelas e baixar as luzes. No entanto, um fio branco de claridade entrava irritantemente pela janela. Ele tentou abstrair-se daquela luz indesejada. Pelo chão, havia disposto um conjunto de fotografias. De um lado, arrumara as imagens dos crimes d’A Rainha. Do outro, as imagens dos do novo ladrão. Sabia que não era ela a cometer os roubos, o estilo era demasiado diferente, se bem que analítico. O objectivo d’A Rainha sempre fora apenas furtar os diamantes; no entanto, o novo criminoso não se limitava a fazê-lo, parecia ter também um mórbido prazer em assustar de morte todos aqueles que se trespassassem no seu caminho. Os diamantes roubados eram, também, diferentes. A Rainha escolhia as pedras a dedo, sendo óbvio que tinha um profundo conhecimento sobre o tema. Não se tratava apenas de uma cleptomaníaca. Ela tinha objectivos, uma lista extensa daquilo que queria. O novo criminoso, a quem os tablóides não hesitaram apelidar de Corvo, não tinha metas. O seu método era claramente perfeito, mas roubava os diamantes com maior exposição mediática, e não aqueles que realmente valia a pena roubar. Não que esses fossem menos valiosos, mas havia muitos outros com características mais raras aos quais ele não prestou atenção. Isso separava A Rainha e o Corvo, claramente. Sawyer, passando os olhos pelas fotografias mais recentes, procurou algum detalhe, alguma coisa oculta que lhe acendesse uma faísca no cérebro. Catalogou na mente tudo aquilo que o olhar captava. No entanto, não encontrou nada lhe que saltasse especialmente à vista. Fechou os olhos. Não precisava deles para ver os crimes d’A Rainha, havia memorizado aquelas imagens há muito tempo. Sabia que nada de extraordinário se lhe ia manifestar, perdera a esperança após extensa procura e pesquisa. Não havia valido a pena. Ela era mais inteligente que ele.

            Durante os últimos sete anos, Sawyer tivera o tempo suficiente para processar tudo aquilo. Ainda lhe parecia incrível o facto de haver tal mente que conseguisse engendrar um esquema tão magistralmente arquitectado. Os seus olhos azuis não lhe saíram da mente, como se o observassem de um postigo divino, de uma abertura para uma vida que lhe parecia real mas que podia não ser. Escrutinando-o. Impedindo-o de aceder ao nível mais profundo da memória e da compreensão. Durante os primeiros tempos, no hospital, a curiosidade e a revolta lutavam dentro dele. Não conseguia esquecer a voz dela, quente como brisa exótica, as palavras que ela dissera e ele sabia serem cruéis. A dor impedia-o de apagar as coisas que não queria guardar. Toda a gente havia sofrido com aquilo: ele, Dexter, os pais, os colegas, os amigos, até mesmo Marianne Gray. Especialmente Marianne Gray. A relação deles nunca fora a melhor, e ele sabia o amor que Dexter nutria por ela (aliás, essa fora a verdadeira razão porque Dexter voltara a Washington, mesmo que não o tivesse admitido), mas Sawyer não podia deixar de manter um certo carinho, se bem que discreto, em relação a ela. Haviam enfrentado muita coisa, partilhado muita informação e ajuda mútua. Haviam passado noites em branco a discutir pormenores controversos dos casos. Mesmo assim, tinha partido sem a avisar, e ela ficara extremamente magoada. Mas isso eram águas passadas.

            Sobre a consola, no sítio onde devia estar a televisão, Sawyer havia pousado uma alta torre de pastas cor de creme. Ele esticou o braço para conseguir pegar numa delas, aquela que se encontrava no topo. Abriu-a e levou o dedo aos lábios para o humedecer. Voltou as inúmeras páginas. Tratavam-se dos comprovativos de compra de vários dos diamantes que A Rainha havia roubado. Pelos vistos, ela tinha vendido todas as suas preciosas pedras pouco depois dos assaltos. Todas menos uma: Nebulosa. Esse detalhe em particular intrigava-o. Porque é que ela havia vendido todos os diamantes menos aquele? Ela sabia bem que, se fizesse as vendas da maneira certa, nunca poderia ser detectada. Então porque não vendera o Nebulosa? Tinha de haver alguma razão, mas essa razão escapava-lhe. Subitamente, reparou num dos comprovativos. O vendedor havia assinado, ironicamente, Elizabeth Queen. No entanto, não tinha sido isso a chamar-lhe a atenção. Como nunca reparara naquilo antes? Provavelmente, aqueles comprovativos haviam chegado ao FBI depois de ele já se ter retirado do caso. O documento era proveniente de uma casa de penhores com sede fixa em Washington, casa a qual já havia sido revistada várias vezes antes do caso por suspeitas de que o dono, um indivíduo a quem chamavam Iggy, tinha ligações a várias cadeias criminosas de tráfico de jóias e pedras preciosas. Um dos diamantes tinha sido deixado lá, em troca da modesta quantia de dois milhões de dólares. Como é que o dono de uma loja de penhores podia ter acesso a dois milhões de dólares?

            Sawyer levantou-se e abriu a janela. Ou muito se enganava, ou aquele indivíduo ia dizer-lhe quem era A Rainha.

publicado por Katerina K. às 19:53

Está mesmo lindo : D
pαtrýciαtk. ♥ a 26 de Janeiro de 2010 às 20:00

Que emoção de capítulo, omg *-*

Não menosprezando os teus sentimentos em relação a isso com o moço, eu acho que interessante, interessante era voltar a falar contigo. DECENTEMENTE. isto assim não dá com nada, méns. >.
inês. a 26 de Janeiro de 2010 às 20:21

e até lá, como é que eu vivo? explica-me.
inês. a 26 de Janeiro de 2010 às 20:29

chama-me pita, parva, tudo o que tu quiseres, mas eu sinto a falta das nossas conversas.
inês. a 26 de Janeiro de 2010 às 20:33

Entendo mas pensa nisso :)
Lary P. * a 26 de Janeiro de 2010 às 21:40

Acho engraçadíssimo os apelidos que dás aos criminosos. xD
E será que o Sawyer encontrou uma ponta solta no tão bem elaborado nó que a Rainha concebeu? :O
Ritaa a 26 de Janeiro de 2010 às 21:43

Uhh :D
Eu adorei, adoro sempre :D
cαтн Ϟ a 26 de Janeiro de 2010 às 21:48

Ainda estou em *baba* com o teu último comentário. Não sabes como me deixaste feliz :)

Amanhã venho cá pôr a leitura em dia.

Beijinho*
SaraM a 26 de Janeiro de 2010 às 22:00

Parecem ambos ladrões muito inteligentes. Mas esse Corvo é mais sarcástico e um pouco menos esperto que a Rainha, parece-me.
Outro capítulo muito bom. Fico sem o que dizer, a tua escrita vicia e deixa-me sem mais nada a dizer a não ser que está bom.
Violinista a 26 de Janeiro de 2010 às 22:21

AH Tão boniiito. O Sawyer é tão intrigante. Quero ler mais, quero ler tudo! Intriga, mistério, segredos. Só tu mesmo! Adorei.
Beijinhos. (:
Inées. a 27 de Janeiro de 2010 às 00:02

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