BLOG FECHADO

24
Jan 10

             Marianne Gray saiu da sombra das colunas exteriores do Museu de História Natural de Nova Iorque. Tentou endireitar, sem êxito, uma mecha da franja que tão afincadamente tentara esticar essa manhã e puxou a saia bem cintada até ao local ao qual pertencia. Verificou as unhas. Voltou a passar os dedos pela franja; os brincos tilintaram suavemente.

            A essência de um bom jornalista residia nas suas fontes e nos seus contactos. Marianne sempre se orgulhara da sua poderosa influência no mundo jornalístico. Como dizia muitas vezes, quase num lema, todas as barreiras tinham um furo; e lá estaria ela, para o encontrar e atravessar gloriosa e inesperadamente.

            A sombra recortou-lhe um rectângulo no rosto pálido. Sorriu levemente quando viu, na forte luz das dez da manhã, o brilho de uma camisa cinzenta amarrotada. Com o salto do sapato, impulsionou-se para as escadas e rapidamente alcançou o homem que se afastava em direcção a um Volvo.

            - Agente Hayden, como é bom vê-lo. – disse ela, num tom de voz simples, mas, ainda assim, irónico.

            O homem parou no topo de um degrau, sem se virar. Ela ouviu-o a soltar uma expiração longa e, de algum modo, perturbada.

            - Marianne Gray. – disse ele, e voltou-se.

            A mulher tentou não se mostrar surpreendida, mas tal emoção não era possível esconder. Marianne lembrava-se de Sawyer Hayden como um indivíduo pálido, de olhos azuis e cabelo enegrecido pela espessa camada de gel que o mantinha no lugar. Lembrava-se dos fatos negros e da expressão fria, do distanciamento intelectual. No entanto, o olhar que lhe foi devolvido pulsava de algo que não era afastamento, mas sim uma vida quente e líquida que parecia escorrer-lhe pela pele extremamente morena.

            - Meu Deus. – soltou ela, num fio de voz – Sawyer, estás diferente.

            -Sete anos no Texas a cuidar de cavalos deram-me uma certa cor.

            Ela sentiu uma imensa vontade de se sentar e de ficar a olhá-lo durante horas. No entanto, a voz dele, subitamente fria e profissional caiu-lhe em cima como um peso.

            - Mas diz-me o que queres, Marianne. Coisa boa não é.

            - Oh, Sawyer, tu sabes o que eu quero: informação.

            - Só te falta esfregar as mãos e soltar uma gargalhada maléfica, mulher.

            Marianne lembrava-se da eterna ironia de Sawyer Hayden. Ele sempre a ajudara muito; graças a ele tivera acesso a muitos exclusivos, os quais lhe abriram as portas da New Yorker. Devia-lhe isso.

            - Vá lá, dá-me uma ajuda.

            - Sabes que não posso falar de um caso em progresso.

            - Ah! – ela apontou-lhe um indicador acusador – Então estás de volta ao FBI!

            Ele baixou a cabeça e passou a mão pelo pescoço, lentamente. Nunca podia dizer nada na presença de Marianne; ela tirava as elações mais elaboradas de um monossílabo grunhido entre dentes. O talento deles era aproximadamente o mesmo, mas ela trabalhava com palavras, e ele com pessoas.

            - Não, Marianne, não estou. – disse, com um suspiro – Só vim dar uma ajuda. Isso não invalida o facto de eu não poder comentar o caso. Sabes que, de qualquer maneira, me ia meter em problemas burocráticos se o fizesse. Portanto, não esperes que te ponha dentro do assunto; não o vou fazer.

            - Muito bem. – respondeu ela, encolhendo os ombros – Vou ter de descobrir tudo sozinha. Já me habituei, sete anos sem ti deram-me essa virtude.

            Sawyer soube que o que ela disse não se referia apenas ao facto de deixar de ter uma fonte de informação, mas também ao facto de ele se ter ido embora de Washington sem lhe dizer nada. Lamentava tê-lo feito, mas o arrependimento não ia resolver as coisas, agora que elas tinham acontecido. Ele viu a sobrancelha dela elevar-se de forma interrogativa.

            - Morreste psicologicamente, ou assim? Estou a falar contigo, Sawyer.

            - Eu sei. Não vou mudar a minha opinião.

            - Enfim, tu é que sabes. E o teu irmão, como está?

            - Bem. Lesionado, mas bem. Está cá de visita.

            Marianne sorriu.

            - O Dexter está cá? Isso chega-me. Bem, vemo-nos por aí.

            Dando-lhe um toque suave no ombro, Marianne desceu a escadaria do Museu e assobiou com força para chamar um táxi. Entrou, fechou a porta e acenou a Sawyer através da janela. No seu sorriso, havia algo que Sawyer conhecia, mas já não se lembrava o quê.

publicado por Katerina K. às 19:49

Eles os dois têm uma história? *--*
Gosto da convicção dela. Parece-me ser uma pessoa segura de si, que consegue tudo o que quer. x)
Ritaa a 24 de Janeiro de 2010 às 20:07

Está muito giro : DD
adorei @@

Beijinhos #
pαtrýciαtk. ♥ a 24 de Janeiro de 2010 às 20:14

acabei de ler os capítulos em atraso e OH MY GOD.
tu tens uma escrita tão fantástica *.*
está-me a começar a cheirar a amor :p bem gostava (aa)
beijinhos «3
maria joão a 24 de Janeiro de 2010 às 20:23

nem quero saber o que tras o sorriso dela xD
adorei :D
cαтн Ϟ a 24 de Janeiro de 2010 às 20:36

;O
Acho que foi o melhor capitulo até agora. *-*
E nem me apercebi que estava parecido... desculpa, foi sem intenção.
Está assim tão parecido? :x
Beijinhos. Boa Semana! (adorei o cap.)
Inées. a 24 de Janeiro de 2010 às 21:01

O capítulo está fantástico, como já é habitual; mas eu tenho saudades tuas.
inês. a 24 de Janeiro de 2010 às 21:31

Adoro!!! Está lindo!!!
Nitis a 24 de Janeiro de 2010 às 22:13

Obrigada bem até fiquei chocada quando fui ver :O


Adorei :) :) :)

Espero ansiosamente pelo próximo :D
sofiα6B a 24 de Janeiro de 2010 às 23:00

Há qualquer coisa entre eles os dois, e, vou arriscar, parece-me mais do que simples troca de informações.
Excelente capítulo.
Violinista a 24 de Janeiro de 2010 às 23:15

Mesmo, nem eu sei porque. Depois nós é que somos complicadas x.x beijinhoo

charlotte a 25 de Janeiro de 2010 às 13:29

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