BLOG FECHADO

16
Jan 10

             Valancy Akren levou a chávena de café etíope aos lábios e, depois de sentir a língua passar pela porcelana morna, saboreou o líquido escuro. Por cima dos óculos de sol Gucci, observou a página do New Yorker que reflectia a luz do sol sobre o tampo marmóreo da mesa. Fez os olhos passar demoradamente pelas linhas negras perfeitamente impressas que relatavam os inúmeros roubos recentes que tinham tido lugar nos Estados Unidos. Diamantes. Valancy fez um sorriso aparecer sobre a linha da chávena. Algures na América, havia alguém como ela. Pela terceira vez, releu o artigo. Era uma magnífica peça jornalística, contada tão vividamente que fazia o coração arder.

            - Esta Marianne Gray é fabulosa.

            Elijah levantou o olhar e pousou o jornal sobre a mesa.

            - Quem?

            - A jornalista do New Yorker. Vê.

            Valancy virou a revista e apontou com o dedo a página na qual se situava o artigo do qual falava. Rapidamente, Elijah leu os quatro primeiros parágrafos com os lábios entreabertos de forma melancólica e o cabelo seco penteado de forma tão tosca que chegava a parecer complexa.

            - Se há coisa que esta mulher sabe fazer, é escrever. Óptimo artigo. E fala de ti, Val.

            Ela ergueu uma sobrancelha num arco quebrado.

            - Sim, mas não fala do Brilho do Pacífico.

            Elijah apoiou os cotovelos nus na mesa e enquadrou o rosto oval na concha que formou com as mãos. Fixou os olhos verde-água na mulher e, sentando-se na ponta da cadeira, cerrou o cenho.

            - Sabes, Val, nunca percebi o teu fascínio por esse diamante. Quer dizer, entendo que é uma pedra fantástica, mas tens o Nebulosa, que é igualmente espectacular.

            Ela empurrou os óculos pela cana do nariz e soltou o mar de cabelo ruivo pelas costas. Sem responder à pergunta que lhe tinha sido feita, voltou a encaixar a boca na chávena. Lembrava-se da primeira vez que havia visto o Brilho do Pacífico, a ser atravessado por numerosos feixes prateados de luz que vinham de todos os lados da sala de exposição, no Museu de História Natural de Nova Iorque. Era, sem dúvida, o mais belo diamante que já havia visto. Parecia feito de nevoeiro negro e cerrado, que flutuava entre paredes de cristal cuidadosamente talhadas e polidas. No dia seguinte, voltara para vê-lo, e no dia a seguir a esse também. Visitar a pedra tornou-se ritual compulsivo até ao dia em que foi removido de exposição. Ao fim desse tempo, voltou para o Brasil, e o primeiro pensamento que lhe dançou na mente ao ser atingida pelo tépido vento sul-americano foi o ardente desejo de descobrir onde estava o diamante e de o ter. No entanto, o seu habitual controlo psicológico fez essa ideia voar para longe, num sítio onde lhe doía a memória. Ouviu Elijah pigarrear.

            - Digo-te, Valancy, se eu não vivesse contigo, apostava que tinhas sido tu a roubar o Brilho do Pacífico e todos os outros. Tudo demasiado perfeito, demasiado bem executado. Algo que nós faríamos.

            Ela lançou-lhe um esgar ligeiro e sonhador, como se a sua mente se tivesse dividido em mil pedaços e tivesse sido espalhada com a brisa.

            - Eu sei, é algo demasiado como eu.

            - Temos concorrência.

            - Não. – pousou a revista – Já não estamos no negócio.

            - Mas continuamos a ter a fama, ou pelo menos tu continuas.

            Valancy soltou uma risada por entre os lábios fechados.

            - Pois. A Rainha. Nunca percebi bem essa alcunha, é um bocadinho ridícula.

            - Achas?! Eu penso que te assenta extremamente bem. Querias o poder, o dinheiro, a fama. Escolhias as peças mais caras e mais raras. Fugias como quem caminha num desfile de moda. És uma rainha.

            - Fui uma Rainha, Eli. Fui.

            Valancy pousou uma nota sobre a mesa e, caminhando sobre os saltos com uma elegância sobre-humana, afastou-se em direcção à rua e desapareceu na esquina mais próxima. Elijah recostou-se e acabou o café que ela tinha começado.

publicado por Katerina K. às 12:16

adorei querida :DD

beijinhos #
pαtrýciαtk. ♥ a 16 de Janeiro de 2010 às 13:09

Magnífico, completamente.
inês. a 16 de Janeiro de 2010 às 13:23

adorei :)
está maravilhoso ^^
cαтн Ϟ a 16 de Janeiro de 2010 às 13:58

Amei mesmo :)

Está maravilhosamente bem. :)

Beijos.
Mudei-me. Tchauzinho. a 16 de Janeiro de 2010 às 14:33

Simplesmente espectacular.

Beijinho <3
scarlett black a 16 de Janeiro de 2010 às 14:42

Não sei se acredito inteiramente nisso, Val (:
Tu és ambiciosa, não quers ser sombra de ninguém e não descansarás aaté descobrir, estou certa?
Enfim e agora o que é que eu faço? Quero mais capítulos e JÁ!
Beijinhos^^
Mariana* a 16 de Janeiro de 2010 às 19:04

Também acho que a alcunha lhe cai divinamente bem. Rainha é o apelido perfeito para Valancy Akren, no meu ver. (:
E estou curiosíssima para saber quem é o autor do roubo deste diamante, visto que o método foi, aparentemente, perfeito.
Ritaa a 17 de Janeiro de 2010 às 13:06

de nada ^^
eu recomendei porque acho que é uma leitura interessante ^^
cαтн Ϟ a 17 de Janeiro de 2010 às 15:37

hmm, quem roubou o diamante? :o
adorei este capítulo. continuas a escrever extremamente bem. :)
beijinho.
Catherine a 17 de Janeiro de 2010 às 18:07

Se poderes passa pelo meu blog pessoal ( www.mylovesmychoises.blogs.sapo.pt ) e ajuda-me a decidir se o blog devia mudar de visual!

Bjnho
Diiane a 17 de Janeiro de 2010 às 20:01

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