BLOG FECHADO

02
Jan 10

            Edward Cole ergueu o rosto. O último acorde, de dó menor na primeira inversão, flutuou no ar por cinco segundos até se extinguir nos píncaros da escuridão dos cantos. Fechou os olhos e sorriu no prazer musical que aquela ressonância apagada lhe provocava. Deixou os braços pender ao longo do banco, a sentir a vibração do piano nos pedais, ofegando de cansaço. Sentia-se preparado e confortável para o recital que ia fazer, essa noite, ali no Carnegie Hall. O fraque, negro e engomado, pendurado no cabide do camarim, trazia-lhe a inevitável notícia que deixara de ser um rapaz. Era um homem, e daí para a frente esperava-o uma carreira e um futuro que dependiam apenas dele. No entanto, não conseguia deixar de pensar no passado. Não fora há muito tempo, apenas no Outono, que se vira dentro da situação mais sinistra da sua vida. Felizmente, Jacqueline Soleil estava presa, encarcerada na ala de máxima segurança, onde não podia magoar ninguém – nem ela própria. Não conseguia esquecer o rosto dela, atrás do vidro grosso do carro da polícia, a ser fustigado pelas luzes azul e vermelha. Não sabia dizer se aquilo que ela mostrava era revolta ou tristeza; provavelmente um pouco de ambas. Leah estava já em Lyon, visivelmente abalada com o acontecido. Enquanto descia as escadas da casa de Paris, pendurada no braço de Michael, perguntava por Jacqueline. Mas estava tudo acabado. Há poucos dias, tinha recebido o envelope cor de creme que continha o convite para o casamento de Donna e Raoul. Seria no Verão, em Washington. Edward planeava ir, mesmo que tivesse de cancelar um par de concertos. Seria interessante ver Raoul, o eterno solitário, casar. Achou essa ideia infinitamente divertida.

            A Primavera, em Nova Iorque, era fabulosa. O Central Park explodia de verdura e de vida, como amálgama de cheiros e texturas e misto de pessoas. Era Abril, as cerejeiras deviam estar quase a florescer. O tempo morno e acolhedor sempre fora o seu favorito, e o pôr-do-sol trazia cores especialmente grandiosas naquela altura, enchendo o céu de laivos coloridos, de beijos de cor e de rostos. O céu, para Edward, sempre tivera personalidade. Em cada sítio tinha faces diferentes, que lhe sorriam e que ele aprendera a conhecer. Em Nova Iorque via, inevitavelmente, o rosto de Danny e de Jesse. Mas Jesse estava em Londres com Violet. Edward achava fantástico o modo como ambos haviam deixado as suas vidas para trás apenas para estarem um com o outro. Suponho que, quando se ama alguém, essa pessoa é suficiente, pensou. Na verdade, nunca soubera o que era isso. Vivera uma quantidade de paixonetas, atracções, próprias da sua idade e profissão. Não faltavam raparigas atraídas pelo pianista famoso, que o olhavam através das pestanas compridas e espessas durante os jantares sociais. Sorriu. Talvez nunca viesse a casar.

            - Olá, Edward. – ouviu.

            No reflexo da tampa do piano, viu, sentada na primeira fila, Violet Simmons. Tinha o cabelo consideravelmente mais comprido, solto nas habituais ondas cor de canela. Com a perna direita cruzada sobre a esquerda, as mãos entrelaçadas no regaço e um esgar singular no rosto, observava-o atentamente.

            - Violet! – limpou as mãos às calças e levantou-se.

            Ela sorriu.

            - Como estás?

            - Bem. – respondeu ele – Nervoso, apesar de tudo. E tu?

            - Estou óptima.

            - Não te via desde o incidente da bala.

Arrependeu-se imediatamente depois de ter falado. No entanto, ela soltou uma risada, como que a afastar as suas hesitações.

- Isso já foi há meses, e estou bem. Fiquei com uma cicatriz ridiculamente redonda, mas até tem a sua graça.

- Pensei que estavas em Londres.

- E estava. Mas queria vir ver-te, isto é um acontecimento enorme. Então convenci o Jesse. Não foi muito difícil.

A voz de Jesse Stone ecoou na sala, grande e redonda. A sua figura apareceu entre as cortinas laterais do palco, tal espectro branco talhado em negro, flutuante entre o veludo vermelho como lacre.

- Ela sabe como me falar. E insiste.

Jesse deu um passo em frente. Mesmo durante a Primavera, quando a brisa tinha um calor agradável que eriçava deliciosamente os pêlos do pescoço, ele usava o antigo sobretudo negro a roçar as Doc Martens. Soltou uma risada ventosa quando percebeu os pensamentos que invadiam a mente de Edward.

- Descansa, Ed. Eu não vou vestir isto no recital. Aqui a patroa não me deixaria nunca aparecer assim num, vá, evento social.

Ela atirou ao ar uma gargalhada ampla e feminina.

- Não sejas idiota, Jesse.

O pianista suspirou de alívio. Havia algo de confortante em saber que eles estavam ali, tal como Danny e Lancelot. Era como se estivesse em casa. Na verdade, estava, mas a presença deles dava outro significado ao que se preparava para fazer. Aquele recital era o marco que dava início a uma vida que não era a sua, mas não tardaria a ser. De repente, foi como se estivesse de novo no Salão da AMPW, a tocar Schubert no piano antigo cujo som parecia um xilofone. Abrindo os olhos, contemplou o magnífico Steinway & Sons que, imóvel, esperava avidamente pelos seus dedos.

- Edward? – perguntou Violet.

            - Diz.

            - Toca o Concerto de Chopin que eu gosto.

            - Sem orquestra?!

            - Sim, porque não? Quero ouvir-te a ti.

            Sorriu, e sentou-se ao piano. Enquanto limpava as teclas malhadas, Jesse descia do palco e sentava-se ao lado de Violet. Viu-os a darem as mãos, e soube que era como se nada os tivesse separado.

            Concerto de Chopin nº 1 em Mi menor, segundo andamento, pensou. Cá vamos nós.

            A música encheu a sala, bela e soberba, ao ritmo dos dedos dele, envolvendo os cantos, as arestas, os vértices, acariciando a estrutura da sala e os corpos dentro da luz carmesim que rasava a plateia. Naquele momento, o seu futuro voltou a ser incerto.

 

 

 

 

 

FIM

 

publicado por Katerina K. às 21:53

So awesome!
And it's over '-'
Resta-me então dizer que adorei a história: o enredo, as personagens, a forma como escreves e nos envolves na acção, até sentirmos que a estamos a viver! Espero que venham muitas mais assim *-*
Beijinhos ^^
Rita a 2 de Janeiro de 2010 às 22:16

adorei ! :)
a Violet sobreviveu, ficou com o Jesse, todos seguiram com a sua vida e a Jacqueline foi presa. fantástico. é quase uma pena esta história já ter acabado :tt

beijinho
Catherine a 2 de Janeiro de 2010 às 23:14

Adorei o fim :D

Beijinhoos, #
pαtrýciαtk. ♥ a 2 de Janeiro de 2010 às 23:56

É tão triste :_: Acabou :(
Mas acabou bem. Gostei tanto desta história. Viciei-me na vida deles e tornei-me fã da Jackie Psico ^^
Beijos.

PS: Ansiosa por mais algo teu :D
Mudei-me. Tchauzinho. a 3 de Janeiro de 2010 às 14:32

É MESMO :D
SaraFilipaa a 3 de Janeiro de 2010 às 15:54

que lindo final, para uma linda história :)
amo amo amo!

beijinhos <3
Rita. a 3 de Janeiro de 2010 às 16:58

Okidoqui :tt Esperaremos pacientemente ^^
Beijinhos ^^
Rita a 3 de Janeiro de 2010 às 17:19

Acho que não podia acabar de forma melhor. (:
E agora podia ficar aqui horas a encher-te de elogios - todos eles verdadeiros! - mas, como penso que tu já sabes o quão bem escreves e estruturas as tuas histórias, não o vou fazer. Apenas digo que, mais uma vez, nos presenteaste com uma história suberba, um enredo rico e apelativo, e, claro, uma imaginação fantástica. Os meus mais sinceros parabéns. ;)
Ritaa a 3 de Janeiro de 2010 às 17:23

soberba* --'

Ainda bem que gostaste +.+ Estou quase a acabar, só falta mais duas partes
betsy a 3 de Janeiro de 2010 às 17:43

Oh meu deus. Não acredito que já acabou. Estou toda abananada. Está tão perfeito, Cat. Adoreei. Nem tenho palavras. Que posso dizer? Perfeito. (af, estou a trocar as letras todas). Beijinhos. *-*
Inées. a 3 de Janeiro de 2010 às 18:25

Esqueci-me. Muitos Parabéns! (:

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