BLOG FECHADO

07
Out 09

Jesse despiu a camisa e, prostrado na cama com os braços abertos, decidiu fazer a viagem que há muito andava a adiar. Fechou os olhos, deixou a brisa fresca outonal que entrava no quarto desde o céu da noite afagar-lhe a pele do peito. Projectou na mente, mais uma vez, o tabuleiro de xadrez. Lá estava ele, com as suas perfeitas e bem delineadas quadrículas de mármore a refulgir à luz da vela. Peão branco para B4. Peão negro para H6. Jogou como se o estivesse a fazer com o pai, no alpendre da casa em Long Island, com a chuva miúda a fustigar as telhas num choradinho brasileiro. À sua volta, o mundo desaparecia. Apagaram-se as luzes longínquas da cidade, calaram-se os estalidos, as vozes abafadas, os passos, deixou de sentir a brisa nocturna e o cheiro a tinta de jornal e cedros que esta trazia. Deixou-se mergulhar lentamente no silêncio e no negrume da sua própria consciência. E só restava o tabuleiro de xadrez, com as imponentes peças a deslizar imperialmente sobre a pedra imaculada. Demoradamente, extinguiu a imagem do jogo e, num exercício mental, pintou na escuridão o jardim do Le Château. Do negro emergiram os ciprestes, as orquídeas altas, os carvalhos, as túlipas, os bem tratados arbustos que se perdiam na sua própria verdura.

Era Maio de 2004, e o sol queimava os trilhos de pedra fosca com a alegria da Primavera que despontava numa luxúria cor de esperança. Jesse olhou em volta; estava lá tudo, tal como se lembrava. Sentada pouco à sua frente, com o longo cabelo negro solto pelas costas, ela cantarolava levemente, na sua tímida e infantil voz de soprano.

- Olá, Jesse. – disse ela, sem se voltar para ele.

- Bom dia, Jacqueline.

- Está um dia verdadeiramente bonito, não achas?

- Acho que sim. Um dia como tu gostas.

Ela soltou uma risada ampla e cuidada.

- Sim, suponho que tens razão.

Ao rodar no banco de granito, Jacqueline Soleil fixou os olhos violetas na espectral figura de Jesse. Era bela, esculpida num pedaço de nuvem, a delicada pele a arrastar-se pelo pequeno nariz arredondado com a resistência de mel. Levantou a débil mão branca e convidou-o a sentar-se ao seu lado com um movimento airoso.

- Jesse, tens medo da morte? – perguntou-lhe ela, não tirando o olhar desabrido do céu.

Ele baixou a cabeça e passou os dedos compridos pelo cabelo despigmentado.

- Não sei. Talvez. Quer dizer, acho que sim. Toda a gente tem.

Jacqueline moveu os olhos para ele, num lânguido gesto de cabeça. Os fios de cabelo esvoaçaram na brisa calmamente, como se flutuassem no fresco ar primaveril.

- Eu não. – sorriu – Gostava de morrer mais do que uma vez. Deve ser magnífico.

Jesse estremeceu na cama, levando o braço ao rosto. Aquela memória, por alguma razão, trazia-lhe uma mágoa que não parecia caber no coração. Sentou-se, afundou as faces na concha que formou com as mãos. Sentia atrás dos olhos o ardor das lágrimas, mas nenhuma humidade se lhe acumulou na linha das pestanas.

- Agora, Jacqueline, vais poder morrer mais do que uma vez.

A porta vibrou com o som que se libertou de uns nós dos dedos a embater na madeira. Jesse levantou-se, esfregando os olhos, e caminhou descalço até à entrada com a bainha das calças a roçar na carpete. Abriu a porta, e o vulto que se lhe apresentou pareceu-lhe aureolado de luz.

publicado por Katerina K. às 20:07

Auréola + luz = anjo (não António Nuno de Júlio Oliveira, obviamente).
Quem será o Anjo de Jesse?
Mistério...

Só agora me apercebi do título do conto. Isto é, o seu contexto na história.E acho que foi muito bem escolhido, principalmente porque envolve ambos os hemisférios cerebrais, o do raciocínio(estratégia do jogo) e o da creatividade (a nossa própria vida é um jogo e o coração, jogador, não é dominado pela lógica).

Parabéns pelas duas partes: o enredo e a imaginação!

Beijos
Ana
Jane Doe a 7 de Outubro de 2009 às 20:22

Omg, i loved it. Tu escreves mesmo bem, Gosh *-* Visualizei todas as cenas +.+
Fiquei a adorar a Jacqueline, por ter aquele aspecto tão delicado :tt
Can't wait for the next one :tt
Beijinhos ^^
Rita a 7 de Outubro de 2009 às 20:23

eu ainda não tive tempo de ler :S já vou tão atrasada, meu Deus!
p.s: sou eu, a Sara :)
SaraM a 7 de Outubro de 2009 às 20:23

Lindo *.*
Perfeito se calhar soa melhor :D
A Jaqueline parece ser linda.
Quero saber quem está à porta +.+
Posta rápido sweetie ;D
Até comentaria com mais elogios [VERDADEIROS] mas estou uma beca apressada.
Recebi um raspanete da minha mãe por passar muito tempo enfiada no pc ;s
Beijinhs*
Mudei-me. Tchauzinho. a 7 de Outubro de 2009 às 20:45

Fala-se no diabo x) Lá está ela a chamar-me :b
Tens sorte. A minha tambem quando vê que estou a escrever encoraja-me mas ultimamente anda a dizer para eu vir menos para aqui.
Adeus Sweetie <3
Mudei-me. Tchauzinho. a 7 de Outubro de 2009 às 20:57

Concordo com o que disseste, minha querida. (: O diamante só atinge a perfeição depois de muito manuseamento e lapidação. E a escrita; bem, a escrita precisa de ser constantemente treinada, porque apenas o tal "dom" não basta, não é? E sim, também já reparei que quanto mais leio mais o meu vocabulário enriquece. :)

Capítulo:
Tenho a certeza que me vou repetir quanto ao último comentário que fiz em relação ao conto, mas não há maneira de não o fazer.
O que mais me atraí na tua forma de escrever é, talvez, o cuidado com que pormenorizas até as mais "insignificantes" coisas. Não te escapa o mais pequeno detalhe, e eu admiro mesmo isso. (: Assim, todas as cenas descritas são projectadas na minha mente, dando-me a sensação que estou a presenciar cada momento.
Está tudo escrito de uma maneira tão precisa, tão complexa mas ao mesmo tempo tão simples. É uma leitura fácil e requintada, que dá imenso gosto ler!
E depois, aliado a tudo isto, consegues ainda adicionar todo este mistério, levando a curiosidade do leitor atingir níveis astronómicos.
O enredo desta história é realmente muito bom. Estou a amar, de verdade! E acho que me rendo mais e mais, consoante o passar dos capítulos. ;)
Ritaa a 7 de Outubro de 2009 às 20:59

teve de ser joana :)
mas ainda não é hoje que leio, quando ler quero ler todos de uma vez. hoje ainda tenho de ir fazer os tpc's de quimica :S
Mas prometo que amanha, não falha... pela minha sanidade mental, eu quero jesse! *.*
SaraM a 7 de Outubro de 2009 às 21:00

Hum, não me parece. Quem devia concorrer, eras tuu *-*
Rita a 7 de Outubro de 2009 às 21:02

ainda bem que estás bem :)
hoje não fui a primeira, ohh /:
mas ainda assim, amei este capítulo.
escreves tão tão tão bem *-*
arrepiei-me toda $:
inês. a 7 de Outubro de 2009 às 21:31

Voltei e ainda bem :b
Vim só fazer um post rapido no blog pessoal depois bazo x)
Beijinhs
Mudei-me. Tchauzinho. a 7 de Outubro de 2009 às 21:31

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