BLOG FECHADO

30
Set 09

            Edward Cole respirou o maciço ar de Nova Iorque, enchendo os pulmões de uma fragrância de café, frango frito, jornais e fumo de escape. Apesar de tudo, era bom estar de volta à Big Apple. Tinha sido consumido pela complicação europeia tempo demais, estava bem na hora de tomar um Frapuccino no Starbucks e saborear um belo brownie caseiro. No entanto, a coisa de que mais saudades tinha, era dos diminutos táxis amarelos, que resplandeciam entre a poeira e a luz do sol.

            Edward fora, deveras, surpreendido pela carta de Raoul Lewis. Na verdade, pouco contacto tivera com ele depois do Inverno em Paris, e fora com estupefacção que recebera a carta pelas mãos de William Harrington. Quando a leu, pareceu-lhe que uma bigorna tomou o lugar do seu coração no peito. Não havia muitos pormenores, tudo se assemelhava a uma montanha de vago. Mas fora o suficiente para entender o cerne da questão: que alguma coisa se passava de errado em Paris, alguma coisa que tinha renascido do passado – daquele Dezembro.

            Foi com algum prazer que Edward se apercebeu que ia voltar a ver Violet Simmons. Sentia falta dela, do riso dela, da figura maternal e autoritária que exercia influência no mundo ao seu redor. Levou a mão ao bolso do casaco, brincou com os dedos. Era uma boa amiga, e uma excelente artista. Tinha curiosidade em saber como se estava a sair no estudo do violino, se continuava a ser uma virtuosa inveterada. Ao mergulhar o pensamento nos caracóis acobreados de Violet, nos seus olhos castanhos e na figura elegante, lembrou-se de Jesse Stone. Um breve calafrio espalhou-se-lhe pelas costas. Jesse, desde que fora estudar para a School of Arts, era uma sombra pesada e carismática, que falava com o denso olhar felino. E a cicatriz que ele tinha na face esquerda, por mais que Edward quisesse, não lhe saía da memória; talvez por ter sido ele próprio a marcá-la na mimosa e pálida pele de Jesse.

            Quando Edward se apercebeu, já estava junto ao balcão do Starbucks. Foi atendido por uma rapariga que, pelos vistos, tinha andado com ele no Junior High, chamada Clarissa. No entanto, ele não se lembrava dela. De qualquer maneira, sorriu como se se lembrasse e despediu-se com um amigável aceno, transportando o seu Frapuccino gelado. Sentou-se numa das mesas livres, pousou o copo cor de palha e procurou o iPhone nos bolsos das calças. Colocou-o ternamente junto à bebida, observando atentamente o mostrador. Esperava notícias, não sabia bem de quem.

            Cinco minutos voaram, outros cinco correram atrás dos primeiros. Edward continuava a fitar o mostrador, à espera. Mas nada se alterava.

            Subitamente, uma figura negra e roxa passou disformemente na frente dos olhos do rapaz, acabando por se sentar na cadeira vazia. Com espanto, Edward verificou que Danny King continuava perfeitamente igual, o mesmo sorriso galante e arrevesado a saltar-lhe no rosto. E o mesmo cabelo.

            - Okey, Ed, não temos muito tempo. – disse Danny, falando numa rápida catadupa de palavras encavalitadas umas sobre as outras – Primeiro, é bom ver-te. Segundo, recebeste a carta. Terceiro, e último, o nosso voo para Paris parte daqui a uma hora. Já devíamos estar no aeroporto.

            Levantou-se repentinamente, deixando Edward de olhos esbugalhados, no mesmo sítio, a olhá-lo incompreensivelmente.

            - Mas…mas…eu acabei de sair de um avião!

            - Pronto, Ed, estou cheio de pena. – pronunciou Danny, revirando os olhos – E agora, já podemos ir?

            Edward Cole só teve tempo de pegar na mala e recolher o telemóvel. Nem queria acreditar que ia voltar a Paris, três anos depois de todas as coisas que lá se haviam passado.

publicado por Katerina K. às 19:08

29
Set 09

            Era ele. Era mesmo ele. Violet sentiu-se soterrada, confusa, maravilhada. O pequeno adolescente de cabelo cor de chocolate amargo e olhos leitosos transformara-se num homem completamente diferente. Ela nunca pensara que ele se tivesse tornado num músico rock, que tivesse trocado o violino pela guitarra eléctrica. Por alguns momentos, que lhe pareceram longos demais, Violet permaneceu calada, a fixar os olhos maduros e a ver neles o passar dos anos. Nos lábios dele, esculpidos de carne e pele, surgiu um sorriso, escuro mas verdadeiro.

            - Violet, há quanto tempo.

            Ela abriu a boca para falar, mas desta não saiu qualquer som. Manteve-se pregada ao chão, a agitar suavemente os braços na frente do rosto, como a certificar-se que aquilo estava, de facto, a acontecer.

            - Desculpa se te surpreendi. A verdade é que, bem, mudei um bom pedaço.

            O baterista riu-se, pousando as baquetas no colo e recostando-se na cadeira.

            - Lance. Lance. Meu Deus, nem consigo acreditar. – disse ela, tapando a boca com ambas as mãos.

            - Sim, estou diferente. Mas podes acreditar, sou mesmo eu. – respondeu ele, numa estranha tirada, a qual, aparentemente, soou divertida.

            A rapariga não soube o que replicar. Estava fascinada, num sentido bom e mau simultaneamente, se é que isso era possível. Ele passou a fita da guitarra por cima da cabeça, pousando o instrumento sobre a coluna que servia de monitor. Desligou o quadro eléctrico, e as luzes dos amplificadores apagaram-se de imediato. Depois de se ter certificado que tinha deixado tudo devidamente desligado, fechou a frágil porta com um safanão e conduziu a rapariga até ao interior da casa.

            Como ela suspeitava, dentro do edifício tudo se encontrava perfeitamente organizado, não se parecendo nada com a moradia de um músico rock. Violet sentou-se num sofá corrido, encostado à parede da sala de estar, e viu Lancelot desaparecer na cozinha. Pouco depois, ouviu a sua voz.

            - Queres alguma coisa para beber? Tenho cerveja.

            - Não sabia que agora bebias álcool.

            O rosto dele apareceu no corredor, meio inclinado.

            - Desde que fiz dezoito anos. – e sorriu.

            Após sentar-se num banco em frente à rapariga e abrir com um estalido a lata de cerveja fresca que pingava gotas de condensação para o chão, cruzou as pernas e esperou que ela falasse. Como ela não o fez, cingindo-se a observá-lo atentamente, ele tomou a iniciativa.

            - Bem, conta lá porque aqui estás.

            - Também recebeste a carta do Raoul?

            Lancelot tirou do bolso das calças um papel amarrotado e arremessou-o para cima da mesinha de pinho que se erguia entre eles.

            - Recebi, há dois dias. – o seu rosto escurecia à medida que a conversa ia avançando.

            - Leste?

            - Li.

            Violet estava à espera daquela reacção, da indiferença quanto àquele assunto, tendo em conta tudo o que havia acontecido.

            - Ouve, Lance, eu sei que para ti é complicado falar disto, ainda por cima quando, obviamente, tentaste esquecer tudo o que se passou. Mudaste de vida, eu compreendo. Mas isto ultrapassa-nos a todos, é algo maior que nós. Quero a tua ajuda, preciso dela. Por favor.

            Lancelot manteve-se mudo algum tempo, sendo impossível medir os minutos que foram passando. Esfregou as mãos uma na outra, demoradamente, observando-as. Estava sério e pálido, como se a vida o abandonasse gradual e sucessivamente. Os seus olhos estavam tristes, rasgados na pele clara como pó de arroz. Entreabriu os lábios, passou a língua por eles. Depois de um largo suspiro, carregado de um sentimento parecido com arrependimento, fitou Violet.

            - Vou ajudar-te. Mas não o faço por nenhum de nós. Faço-o por ela.

publicado por Katerina K. às 20:03

27
Set 09

            Violet, passando as palmas das mãos sobre o revestimento do volante, olhava pela janela do carro para a pequena casa dos subúrbios de Detroit, rodeada por uma cerca de madeira. Mais uma vez, ela conferiu a morada que tinha escrita num post-it. Era mesmo aquela, não havia enganos. Mas mesmo assim, Violet sentiu que alguma coisa estava desacertada. A cerca, o jardim com a relva cuidadosamente aparada, as paredes brancas imaculadas, a cortina que cobria a janela da sala de jantar – estava tudo terrivelmente errado, terrivelmente perfeito.

            Na sua tentativa de localizar os restantes membros do grupo que se juntara em Paris naquele Inverno, Violet só conseguira a morada de um deles, o qual era, talvez, aquele que ela tinha menor vontade que encontrar. Lancelot Carter fora o único a esfumar-se por completo após a semana de Dezembro na capital francesa. Depois da detenção do pai, baseada nas acusações pelo assassínio da jovem Jacqueline, Lancelot desaparecera. Violet lembrava-se bem dele: do seu belo aspecto, das feições patrícias, do cabelo escuro sempre bem penteado, dos longos dedos pouco morenos já habituados ao admirável virtuosismo do violino. Ela perguntava-se se o rapaz continuava igual, se mantinha o talento invulgar para a música. Sempre fora o seu grande adversário, e Violet indagou-se se, no dia em que ele deixasse de o ser, se se sentiria aliviada ou arrependida.

            Abriu a porta do carro lentamente, ergueu-se para fora, num só movimento. Avançou para a casa, palmilhando o caminho em largos passos decididos. Tocou à campainha e os pardais calaram-se, dando à luz um silêncio insólito e desconfortável em toda a rua. Esperou uns minutos, nenhuma resposta. Talvez não estivesse ninguém em casa, ou fosse mesmo a morada errada. O melhor era virar as costas e desistir daquela missão tresloucada. No entanto, quando Violet se ia preparar para voltar a Chicago, algo vibrou no silêncio e faiscou-lhe nos ouvidos. Música. O ar estremecia em tons graves, como se o que ela ouvisse fosse percussão. Num ritmo regular, os baques foram-se sucedendo, aumentando de volume, rebentando num solo de bateria magnificamente executado. Violet esqueceu as ideias de desistir, e saltou por cima da cerca, apoiando apenas uma mão na madeira. Atravessou o relvado rapidamente e, à medida que se aproximava das traseiras, mais tinha a certeza que era dali que provinha o som. Dobrou a esquina da casa nervosamente e encontrou um pátio de granito que desembocava naquilo que, há dez anos atrás, devia ser uma garagem. A entrada, que tinha o aspecto de uma porta que era constantemente arrombada, estava recolhida, deixando ver o interior daquele espaço. O compartimento era iluminado não só pela luz do dia, mas também por uma série de toscas lâmpadas fluorescentes pendentes do tecto. Essa falsa claridade era lançada sobre um grupo de rapazes: três altos e bem constituídos espécimes do sexo masculino. Violet via claramente dois deles: um baterista, ruivo e sardento, vestindo-se desleixadamente, e um baixista, moreno como se vivesse num solário, de cabelo negro armado num penteado bem seguro com gel. O terceiro, de costas para ela, vestia-se totalmente de negro, combinando com o cabelo, naturalmente solto sobre o rosto. Pendia-lhe do ombro uma guitarra eléctrica Stagg de rebordo vermelho, a qual era acariciada pelos seus pálidos dedos aracnídeos. Uma banda de garagem. O baterista e o baixista repararam imediatamente na tímida presença de Violet, lançando esgares ameaçadores na sua direcção. Não se deixando intimidar, a rapariga falou.

            - Ahm, bom dia. Estou à procura do Lancelot Carter, ele está?

            O guitarrista, que se mantinha de costas para ela, respondeu, numa voz grave e sensual.

            - Depende. Quem o procura?

            - Violet Simmons. Importam-se de lhe dizer que estou à procura dele?

            O rapaz virou-se, e Violet viu-se confrontada por um rosto espantosamente bem delineado, entrecortado na linha da sobrancelha esquerda por um pequeno piercing. Apesar de todo o aparato roqueiro, da palidez ligeiramente escurecida, do cabelo copiosamente tingido de preto, ela reconheceu-o. Estavam lá as feições patrícias, o queixo mimoso. Perplexa, Violet Simmons apercebeu-se de que o rapaz que a fitava era, de facto, Lancelot Carter.

 

 

 

publicado por Katerina K. às 22:25

25
Set 09

Para a Laranjinha.

 

            Jesse Stone abriu a porta de manso, caminhando o mais silenciosamente que conseguia, tendo em conta as colossais Doc Martens Vintage enlameadas que trazia nos pés. Atrás dele, Danny King descobria um mundo no qual nunca antes tinha entrado.

            Uma vasta biblioteca, quase completamente imersa na escuridão, estendia-se frente aos seus olhos como um negro oceano com um cheiro a papel antigo e a cordel. À direita, iluminado pelo brilho de um candeeiro de mesa com vidro verde, estava um homem, sentado, a ler aquilo a que Danny pareceu ser uma obra de Voltaire. Em francês. Ele apoiava-se na palma da mão, deitando nela a cabeça coberta por uma vasta cabeleira preta repleta de caracóis. Escondida entre estes, tilintava suavemente uma argola de prata, pendurada na orelha direita. Os dedos da mão livre, atléticos e compridos como pernas de aranha, tamborilavam num ritmo irritante sobre o tampo da mesa. Jesse aproximou-se, cautelosamente. Danny podia jurar que, naquele denso silêncio, se conseguia ouvir o bater do coração.

            - Olá, Alex. – disse Jesse, num tom calmo e baixo, aveludado.

            O homem levantou a cabeça, fitando-os, e Danny sorriu ao ver um rosto conhecido. O estreito rosto moreno mostrava um retrato de noites mal dormidas e má alimentação, marcado por uma série de círculos negros em volta daquilo que já fora um belo par de olhos azuis-céu. Parecia ter envelhecido uma dezena de anos, sendo óbvia a palidez por baixo do bronzeado permanente. A aliança dourada resplandecia no seu anelar esquerdo, mostrando um brilho semelhante a fogo que encandeou Danny por breves instantes.

            - Jesse! Obrigado por vires.

            Uniram-se num pequeno mas firme abraço.

            - Não te ia deixar ficar mal, Alex.

            - Obrigado.

            Alexander White estendeu a mão a Danny, que a apertou.

            - Daniel, é bom ver-te.

            Sentaram-se os três, e foram banhados pela pequena luz acolhedora do único candeeiro que lançava alguma claridade na noite que se havia instalado no interior daquela biblioteca. Danny ergueu o rosto, e viu nos olhos de Alex uma estranha expressão. Era medo. Sim, medo.

            Jesse apoiou a biqueira da bota na madeira, deixando uma pequena marca de lama. Alexander mexeu-se no seu lugar, numa visível falta de comodidade. Murmurou algumas palavras, passou os dedos pelo cabelo. A mão tremia ligeiramente, numa atitude nervosa que se tentava disfarçar com pouco êxito.

            - Alex. Alex… - proferiu Jesse, pousando os dedos no braço do flautista – Estamos aqui. Diz-nos o que se passa.

            - Foi ela, foi ela.

            - O quê?

            Silêncio.

            - Alex, - insistiu Jesse – nós recebemos a carta do Raoul. Temos de saber o que aconteceu.

            Os olhos do homem abriram-se incrivelmente e fixaram-se nos do rapaz em puro e cru horror.

            - A Céline viu-a, Jesse. Ela viu-a!

 

***

 

Amanhã, dia 26 de Setembro, vou estar no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, nos 1001 músicos.

 

publicado por Katerina K. às 20:31

23
Set 09

            Três.

            Violet Simmons ficou a olhar para o envelope branco com os olhos verdes esbugalhados e pejados de confusão. Expirou lentamente por entre os lábios entreabertos, o cenho franzido numa série de curiosas e profundas rugas. Revirou o envelope nos dedos, como se não soubesse o que fazer com ele. Estava endereçado a ela, com tinta negra e uma letra estreita e pequena. A carta tinha remetente, um remetente que Violet imediatamente estranhou. Ao ver aquele nome, tão claro na brancura do papel, a sua mente viajou instantaneamente para aquele Inverno, em Paris, quando haviam descoberto a verdade sobre a morte de Jacqueline Soleil. Isso levara Paul Carter, antigo professor e director da Academia Carter, a ser imediatamente detido pelo assassínio de Jackie. Fora em Paris, em frente ao Le Château, a Escola Nacional de Música, que ela, Edward Cole, Jesse Stone, os irmãos King e Lancelot Carter se haviam visto pela última vez, com a neve nívea a cobrir-lhes os cabelos e a enterrar-lhes os pés. Fora esse o último dia. Depois, separaram-se. Durante os passados três anos, Violet ainda recebia notícias regulares de Trevor King, irmão de Danny, e, de vez em quando, via o rosto de Edward na televisão ou nos jornais. Recentemente, soubera que ele havia ganho o Concurso Chopin. Era um feito admirável, e Violet não recebeu a notícia com muita surpresa. Sentia a falta deles, e, sobretudo, daquela semana de Dezembro em Paris. Todos os anos, Violet ainda ia a França apenas para depositar um ramo de orquídeas brancas na campa de Jacqueline Soleil, como prova de respeito e de certa saudade. No entanto, o assunto fora esquecido, e a rapariga podia descansar em paz, sabendo que justiça tinha sido feita.

            Mas, apesar de tudo, aquele remetente inquietou-a. Há imenso tempo que Raoul Lewis não escrevia. Ele ficara em França, naquele Inverno, e Donna Weaver decidira permanecer lá para o acompanhar. Que Violet soubesse, tinham ficado noivos há pouco tempo. Recebera a notícia por Alexander White, professor de Raoul, que retomara a sua actividade pedagógica no Le Château após casar com Céline Soleil.

            O remetente era Raoul. Estava ali, preto no branco, o nome dele – Raoul I. P. Lewis – e o endereço do seu apartamento de Paris. Violet virou o envelope devagar e abriu-o com a faca de prata que pertencia ao padrasto. Um estranho e suave perfume soltou-se do sobrescrito, vindo da fina folha cor de pastel que descansava no seu interior. Violet pegou-lhe com cuidado e desfraldou-a, elevando-a à altura dos olhos. A luz da janela atravessou o papel, formando transparências, e destacando as frases decalcadas a preto que pareciam ter sido escritas com uma invulgar pressa.

            A rapariga leu, passando os olhos por cada linha com atenção. Era uma mensagem curta, objectiva, desesperada. Estudou o último parágrafo já com uma aguda angústia a arder-lhe na boca do estômago. Não era possível…

            Pegou no casaco e nas chaves, fechando a porta de entrada pesadamente atrás de si. Tinha de encontrar os outros, não havia outra solução.

            Deixou a carta caída no centro da carpete da sala, a ser agitada pela brisa que entrava pela fresta de uma janela mal fechada. Só era possível ler uma frase:

 

Nunca precisei tanto da vossa ajuda. Isto ainda não acabou.

publicado por Katerina K. às 18:55

22
Set 09

            Dois.


            - Mais uma vez, do rallentando.

            Edward Cole assentiu, atacando as teclas do piano com ferocidade, fazendo uma grande quantidade de madeixas de cabelo caírem-lhe para a frente do rosto, numa imensa cortina castanha clara que lhe chegava aos olhos. Um pingo de suor escorreu-lhe pela testa dourada e caiu sobre as costas da mão direita, que deslizava no registo agudo em diversos arpejos e acordes de sétima.

            - Sim, agora está melhor. Mas amanhã temos de trabalhar essa parte outra vez. E cuidado com o dó agudo, está forte de mais. Destaca a mão esquerda, é aí que está o apoio.

            - Tudo bem, professor. – respondeu Edward, ofegante, dirigindo o olhar para William Harrington, sentado na primeira fila do Concert Hall em Kiev.

            Por muitos anos que passassem, aquele homem continuaria com aparência jovem e cuidada, dentro dos seus elegantes fatos de seda e camisas brancas impecavelmente engomadas. Os olhos, de um castanho esverdeado, brilhavam nas órbitas já raiadas de algumas rugas de expressão com uma vida surpreendente. Passou a colossal mão de unhas limadas pelo cabelo copiosamente penteado para trás e uniu-a à outra na parte de trás do pescoço. Edward sentou-se no limite do palco e içou-se para o solo com um pequeno salto. Encostou-se à parede do fosso de orquestra e, passando o seu lenço de linho pela testa, suspirou. Sempre fora um rapaz incrivelmente bonito, e já tinha passado o tempo da adolescência. Era alto, não demasiado estreito, com um rosto bronzeado e jovial. Dois grandes olhos cor de chocolate quente eram parcialmente escondidos por mechas da sua rebelde juba, a qual ainda deixava entrever o seu belo nariz aquilino que lhe concedia um charme quase romano. A mandíbula arredondada era coberta por uma camada de barba rala, não muito escura, que dava uma textura áspera ao rosto moreno.

            - E faz a barba, Edward. Nada é mais feio que um concertista com barba de dois dias.

            - Se eu me esquecer, não tenho culpa.

            Depois de uns raros segundos de silêncio, enquanto Edward guardava o lenço e abrigava as mãos nos bolsos, o professor levantou-se.

            - Dorme bem, hoje. Não te quero todo excitado no concerto, amanhã. O maestro vem falar contigo antes do almoço, e o ensaio com a orquestra vai durar toda a tarde, portanto sugiro que tomes um pequeno-almoço reforçado.

            - Não se preocupe, eu cuido de mim.

            Curvou os lábios num sorriso bronzeado e brilhante que formou uma aura luminosa à sua volta. Quando se ia a preparar para sair, com a mochila pendurada no ombro, a voz do professor invadiu-lhe os ouvidos.

            - Edward, há quanto tempo não recebes notícias do Raoul Lewis?

 

publicado por Katerina K. às 20:28

21
Set 09

Sinopse:

            Daniel King, antigo aluno do Instituto Hills, muda-se para Nova Iorque com o irmão para estudar na Juilliard, acompanhando o seu melhor amigo, Jesse Stone.

            Violet Simmons, jovem virtuosa do violino, vive com a mãe e o padrasto em Chicago, de modo a poder continuar a estudar com Bill Owen, o seu antigo professor.

            Edward Cole, em Kiev, prepara uma série de concertos pela Europa, após sagrar-se o mais jovem vencedor de sempre do concurso Chopin.

 

            Estes quatro músicos, separados três anos antes pelas suas escolhas de futuro, são supreendidos por uma carta de Paris, que os leva a reencontrarem-se no local onde estiveram juntos pela última vez. Deparam-se com uma história do passado que julgavam já ter sido esquecida e que pode mudar o curso das suas vidas para sempre.

 

 

 

            Um.

            Danny King não confiava em ninguém, muito menos em si próprio. Quando o irmão adormeceu, enrolado nos lençóis brancos e a respirar em longos intervalos regulares, ele soube que estava na hora de sair. Fechou a porta atrás de si e caminhou pelo corredor a passo rápido, palmilhando na escuridão o curso que já tão bem conhecia. Virou rapidamente à direita, tomando um corredor perpendicular que se perdia num negrume ainda mais cerrado. Vinte e cinco metros mais à frente, brilhava uma luz fosca e verde que se extinguia no ar escurecido pela noite. Saída de emergência. Danny empurrou a porta com o ombro e desceu os vários lanços das escadas de serviço até chegar ao rés-do-chão. Os sapatos de couro negro embatiam fortemente no aço, criando uma melodia metálica e ritmada. Dois minutos depois, estes encontraram o linóleo da entrada de serviço das traseiras com um gentil clac clac. Parou um momento e observou o seu reflexo no vidro de uma vitrina. Passou a mão direita pelo cabelo de um loiro sujo, raiado de negro, e algo brilhou no seu polegar quando a luz precoce da madrugada embateu nele. Um brasão de um escudo com um leão corcovado refulgiu na prata do anel. Danny baixou a mão e fechou o punho para esfregar os olhos azuis, de um turquesa escuro e penetrante. Eram olhos grandes, ligeiramente amendoados, cravados na pele apenas ao de leve tostada pelo sol. Deu um jeito às roupas, compradas em Berlim – as calças e camisa negra, bem presa no cós, e o elegante colete purpúrea, que dava um pequeno apontamento de cor à sua graciosa figura escura.

            Através da porta, era visível o beco das traseiras do edifício, ladeado de prédios de tijolo escuro, ao qual se agarravam ferrugentas escadas de incêndio corroídas pela idade. Abriu-a, e foi envolvido por uma lufada de ar gelado tão característico das manhãs de Outono de Manhattan. Num dos cantos do beco, quase evitando os montes de lixo que eram revolvidos pelo vento de um lado para o outro, estava estacionado um Maserati Merak dourado. Contra este, apoiava-se um vulto negro, ainda mais negro que Danny. Uma voz grave, acentuada por um forte sotaque britânico, encheu a estreita passagem com secura e facilidade.

            - A sério, já estava farto de esperar.

            Danny revirou os olhos, e ao expirar pela boca formou-se uma densa nuvem de condensação em frente ao seu rosto. Avançou até que a luz matinal tornou mais visíveis os contornos do outro. Uns olhos quase amarelos brilharam agressivamente na penumbra, tal como um cabelo tão louro que parecia branco. Danny acercou-se dele e sacudiu-lhe dos ombros do sobretudo uma espessa camada de pó castanho claro.

            - Juro-te que me confunde como consegues andar tão mal arranjado, Jesse.

            Jesse Stone riu-se baixo, afastando o braço de Danny com um poderoso safanão.

            - Deixa de ser parvo. Não preciso de andar todo janota, como tu.

            - Só estou a dizer que podias escovar o casaco, para variar.

            - Pois, pára com essas coisas. Entra no carro, que estou a morrer de frio. Ele já está à nossa espera.

publicado por Katerina K. às 19:00

20
Set 09

            Acordei com a sensação de que tinha dormido demais. A cama era incrivelmente confortável, os lençóis macios e cheirosos. Virei-me no leito várias vezes, apenas para ter a sensação do tecido a roçar-me nos braços nus e nas pernas. Parei por um momento, a olhar o tecto da cama de dossel. A noite passada estava surpreendentemente fresca na minha memória, e o sabor dele mantinha-se nos meus lábios.

            A luz matinal, tingida de ouro, entrava corajosamente pela janela em largos e numerosos feixes radiosos, nos quais brilhavam grãos de pó, voando no ar morno do quarto. Chegava-me aos ouvidos o barulho do mar, a ronronar sensualmente. O céu era uma incrível mancha turquesa, que me lembrava o papel de embrulho que eu havia usado para empacotar a prenda de Natal do David. Sentei-me na cama, abri as cortinas com ambas as mãos e icei-me teatralmente para fora da cama. Em cima de um dos cadeirões eu conseguia ver uma muda de roupa que, obviamente, não era minha. Sobre a pequena torre de vestuário, estava pousado um diminuto papel cor de amêndoa, escrito na mesma caligrafia perfeitamente desenhada que eu reconhecia do bilhete que tinha recebido anteriormente.

 

Joana,

Deixei-te uma muda de roupa lavada. Deve servir-te. Se não for o caso, fala com a Núria, tenho a certeza que ela te pode dar uma ajuda com isso.

E bom dia.

- Anjo

 

            Fechei-o lentamente, sorrindo.

 

            O quarto encontrava-se mergulhado no mais absoluto silêncio. Quando desci as escadas, ainda descalça, encontrei a Núria sentada à mesa da cozinha, a mexer em círculos uma colher de prata dentro de uma caneca cheia de um cheiroso líquido ambarino. Quando reparou na minha presença, levantou a cabeça e sorriu, saudando-me com um melodioso Bom Dia.

            - O António? – perguntei, tentando disfarçar uma certa tremura na voz.

            - Está no estúdio, ali à esquerda.

            - Obrigada.

            Ouvi imediatamente o som do piano. Mais uma vez, Rachmaninov enchia o ambiente num ritmo gradual e meloso, numa mistura de graves que me causou um arrepio na espinha. Abri a porta, e a luz aventurou-se no negrume do estúdio. Lá estava o Anjo, em frente ao seu Fazioli de concerto, com as brancas mãos a deslizar no teclado, exactamente como da primeira vez que eu o vira. Num rápido movimento felino, acercou-se de mim, passou-me o indicador esguio pela mandíbula, e, extremamente baixo, disse:

            - Afinal, as roupas serviram-te.

            Ri-me, tão verdadeira e sinceramente que me surpreendi a mim própria. Quando ele se voltou a sentar ao piano e eu me inclinei sobre a tampa, para sentir a revibração das cordas na ponta dos dedos, reparei de novo nos fogosos olhos azuis, na fresta da porta, a observarem-nos. Eu sabia, sempre soube, a quem pertenciam. Fixei-os com os meus, numa troca de olhares tão intensa que podia doer ao observador casual. Passado uns segundos, desapareceram. O coração caiu-me aos pés, e ficou um buraco gelado no meu peito.

            Ouvi o Anjo falar, harmoniosamente, mas já com um pingo mínimo de tristeza.

            - Quando ele me quiser enfrentar, vou estar à espera dele.

 

FIM

 

***

 

E este é o fim de Brisa Marítima.

Aproveito para anunciar que vou lançar uma nova história, num formato ligeiramente diferente. A história chama-se «Xadrez», e nela recupero personagens que alguns de vocês podem reconhecer, pois pertencem a uma história antiga da minha autoria. Deixo-vos a sinopse, para aguçar a curiosidade:

Daniel King, antigo aluno do Instituto Hills, muda-se para Nova Iorque com o irmão para estudar na Juilliard, acompanhando o seu melhor amigo, Jesse Stone.

Violet Simmons, jovem virtuosa do violino, vive com a mãe e o padrasto em Chicago, de modo a poder continuar a estudar com Bill Owen, o seu antigo professor.

Edward Cole, em Kiev, prepara uma série de concertos pela Europa, após sagrar-se o mais jovem vencedor de sempre do concurso Chopin.

Estes quatro músicos, separados três anos antes pelas suas escolhas de futuro, são supreendidos por uma carta de Paris, que os leva a reencontrarem-se no local onde estiveram juntos pela última vez. Deparam-se com uma história do passado que julgavam já ter sido esquecida e que pode mudar o curso das suas vidas para sempre.

publicado por Katerina K. às 14:01

19
Set 09

            Aquelas palavras, simples, mergulhadas na mais agoniante tristeza, saíram-lhe de entre os lábios pálidos e foram levadas pelo vento, a bruxulear de longe. Seguiu-se o silêncio, morno e denso, que me fazia a sensação se estar a flutuar num imenso oceano de nada. Os seus olhos, fixos em mim, raiados de violetas reflexos, estavam cheios de palavras. Por um momento só houve isso: um silêncio amargo que me estrangulava com mão de ferro e me cozia a partir de dentro. Nesse instante, tão curto que quase não existiu, percebi que tudo o que o Hélio, o David e a Núria me haviam dito não importava, que eram palavras ocas, porque eu havia lido o Anjo, nas entrelinhas labirínticas do interior dos seus olhos.

            Ele inclinou-se sobre mim, o seu hálito a acariciar-me os poros gentilmente. Não me mexi, ficando a fixar-lhe o olhar espantosamente belo, à medida que este se tornava cada vez mais difuso, ao aproximar-se. Os seus lábios gélidos tocaram os meus, e tudo à minha volta se extinguiu na candura avassaladora daquele beijo. O meu coração batia-me freneticamente contra a caixa torácica, num ritmo assustadoramente perto do perigoso. Eu sentia o compasso do dele, estranhamente calmo, mas palpitante como o coração de uma ave. Éramos sombras fundidas no telhado, recortadas no luar prateado e invulgarmente amplo. Aquele foi um beijo quase infantil, inusitado, tão elementar na sua brandura que me deixou de rastos. Os seus lábios mantiveram-se fechados, a roçagar os meus naquela frieza mórbida.

            Devagar, senti-o a afastar-se de mim, num movimento firme mas suave. Ficou uma fenda entre nós, na escuridão, na qual se delineavam os limites dos nossos lábios. Senti-o a expirar num gesto lento, lançando o ar demoradamente sobre o meu rosto, fazendo com que as minhas pestanas se agitassem. Vagaroso, voltou a deitar-se ao meu lado. Abri os olhos, olhei o seu semblante. Estava insolitamente corado, o rubor a espalhar-se-lhe pelas faces incolores num efeito que eu nunca tinha visto antes. Cruzou as mãos brancas sobre a barriga, ficou a olhar as estrelas enquanto a sua habitual palidez voltava.

            - E agora, o que nos espera? – perguntei.

            - Tudo.

            Levantei-me, voltei para dentro. Fiquei uns momentos a olhar pela janela, a vê-lo cruzar as compridas pernas e ficar no mesmo sítio onde o deixei.

publicado por Katerina K. às 12:23

18
Set 09

            Já passava da meia-noite quando um ligeiro baque me acordou. Virei-me nos lençóis e afastei as cortinas com as mãos, espreitando por entre elas. No canto do quarto, uma figura negra apoiava-se na parede. Deu um passo em frente, e a luz lunar incidiu nos seus contornos esbeltos.

            - Shiu. – disse ele, levando um dedo aos lábios.

            - Ah, Anjo. És tu.

            Desenhou-se no seu rosto um sorriso a contraluz.

            - Desculpa estar a acordar-te. Queria mostrar-te uma coisa.

            Levantei-me, surpreendentemente alerta para aquela hora da noite. Segui-o na escuridão do corredor, guiando-me apenas pelo som que os seus pés descalços faziam ao deslizar na madeira e por um fiapo de luz ao fundo, vindo de uma janela solitária. Subimos umas escadas estreitas e vi-me num amplo sótão, com uma única e gigantesca janela de vidro duplo, da qual era possível ver a lua, grande e prateada, contra a negrura nocturna. O compartimento estava pouco mobilado, apenas uma cama, um candeeiro vertical, uma mesa – onde se viam várias torres de livros e de partituras – e um sofá. Atravessámos o quarto improvisado com uma certa indiferença, dirigindo-nos à janela. O Anjo premiu o vidro com a palma da mão e este deslizou suavemente para o lado. Incrédula, observei-o a avançar para o telhado. Rodou sobre si mesmo e observou-me, estendendo-me o braço. Caminhei a medo até as nossas mãos se encontrarem e ficarem encaixadas uma na outra. O telhado não era inclinado, e descia apenas muito discretamente. O Anjo sentou-se, acabando por se recostar na superfície da cobertura. Imitei-o, sem deixar de hesitar.

            Deitei-me ao seu lado, com as mãos sobre a barriga. Os meus olhos ficaram paralelos ao céu, que naquele momento parecia o vestido de uma viúva, cravejado de flamejantes pedras preciosas que refulgiam ociosamente na noite. A lua, da cor de uma moeda da sorte, iluminava o rosto do Anjo. Neste, quando ele falou, vi um lampejo de tristeza.

            - Eu sei o que a Núria te disse.

            Fechei os olhos.

            - Estavas a ouvir?

            - Não, mas eu sei. Sei muita coisa.

            Quando não respondi, ele continuou.

            - Quero que saibas que…que ela tem razão. Eu não sou boa pessoa. Tenho necessidade de me afastar do mundo, das pessoas. Não mantenho afectos, porque sei que são assuntos complicados, demasiado complicados. Analiso as coisas com frieza porque assim sei que faço o que é objectivamente correcto.

            Abanei a cabeça com força.

            - Este mundo é tudo menos objectivo.

            - Isto faz parte da minha personalidade. – prosseguiu ele, passando por cima do meu comentário – Não escolhi ser assim, mas já que sou, decidi abraçar as minhas características. De que me adianta repudiar o material de que sou feito? Sou frio, literalmente. Não sou uma pessoa agradável, que inspire confiança. Nasci uma sombra, fui criado como um vulto, para passar despercebido como um ponto cinzento numa multidão negra. Quero que entendas isso.

            - Não entendo. – disse eu, fitando-o bem nos olhos indefiníveis – Não anseias por afecto, por calor humano?

            Ele sorriu tristemente e suspirou, apoiando-se no cotovelo.

            - Anseio por algo que só tu me podes dar.

 

publicado por Katerina K. às 10:34

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