BLOG FECHADO

31
Ago 09

Acabei por me sentar, meia sem jeito, num dos cadeirões. Observei lentamente tudo à minha volta, passando o olhar pelas lombadas da imensa quantidade de livros que serenamente descansavam nas prateleiras, enfeitadas por uma finíssima camada de pó que passava por invisível ao observador menos atento. Dei pelo tempo a passar, primeiro um minuto, depois outro, e outro e outro. Passaram vários minutos. Sobre a lareira, pendurada na parede, encontrava-se uma aguarela de muitíssima qualidade, ilustrando um campo viçoso e verde. Não estava assinada, apenas se via uma data rabiscada a carvão no canto inferior direito da obra. Tive de fazer um especial esforço para conseguir lê-la: 16/07/93. Estremeci – era a minha data de nascimento. Nesse momento, a porta abriu-se e uma mulher entrou na sala. Era alta, elegante sem ser magra, com um cabelo castanho completamente liso e lustroso. O seu rosto era oval e bonito, culminando numa testa comprida e lisa que terminava nuns densos olhos verdes. Estava vestida de uma maneira muito formal, com um saia-casaco cinzento que lhe caía bastante bem. Ela fitou-me por um milésimo de segundo, agarrou um livro e voltou a sair. Pela sua atitude, percebi que não era da família. O seu olhar recatado e andar profissional haviam-na denunciado. Recostei-me no cadeirão, observei o tecto de madeira, suspirei. Tinha sido um erro vir ali sem avisar. Podia ter telefonado primeiro, seria muito mais prático. Praguejei mentalmente, fechando os olhos por um minuto apenas. Todos os meus outros sentidos se apuraram imediatamente. O veludo do cadeirão na ponta dos dedos, o sabor da minha boca seca, o cheiro dos livros, o som de um carro. Abri imediatamente os olhos, continuando consciente do ronronar do motor do lado de fora da casa. Levantei-me para me debruçar na janela. No exterior, um Porsche Panamera negro estacionava agilmente junto ao passeio. Aquele era um carro elegante, escultural e absurdamente caro, tal como todo o recheio do edifício em que me encontrava. A porta do condutor do Porsche abriu-se num movimento lento, e um pé calçado numa sapatilha branca Converse All Star encontrou a pedra do chão. O resto do corpo seguiu-se, num misto de graciosidade e calma, e a figura delgada de um rapaz pálido como um cadáver ergueu-se na rua. Tirou os óculos Ray Ban num só gesto, expondo o seu olhar leonino à ofuscante luz do sol. A mão esguia empurrou a porta do carro e fechou-o, acabando por se introduzir no bolso das calças de ganga esbatida. O rapaz caminhou a passos largos e atléticos pelo passeio até à entrada da casa, saindo do meu campo de visão.

publicado por Katerina K. às 18:18

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