BLOG FECHADO

17
Set 09

                O sol acabou por desaparecer no oceano, deixando farripas escuras de cor a tremeluzir na vastidão do céu que, aos poucos, ficou imerso num negrume arroxeado. Lenta e gradualmente, pequenas luzes começaram a cintilar na escuridão, formando desenhos que me pareciam matrizes de ponto de cruz. Era a primeira vez que eu estava sozinha com a Núria, a qual, no seu invulgar esplendor exótico, observava o céu como se já lhe conhecesse todos os recantos. Ela sentava-se no alpendre, com a perna esquerda elegantemente cruzada sobre a direita, sob o tecido do vestido branco, e as mãos entrelaçadas no regaço. O cabelo, completamente solto sobre os ombros, caía graciosamente em largos caracóis louros até à cintura. Assentou em mim os olhos azuis, tão leves como penas, e estilhaçou o sossego que até aí nos cercava.

            - É bom sair daquelas masmorras, de vez em quando. – disse, com uma calma do outro mundo – Já há anos que aqui vimos, é uma espécie de tradição entre nós. Não trazemos os pequenos, porque ainda são novos para entenderem o significado que o tempo que aqui passamos tem.

            Anuí, não sabendo o que mais fazer senão sorrir.

            - Por isso espantou-me quando o António me disse que vinhas connosco. É quase imperativo não trazer companhia, porque este tempo é supostamente nosso.

            Rapidamente me desapareceu o sorriso do rosto, mas a expressão dela continuava a ser serena e impenetrável.

            - E surpreendeu-me ainda mais que tenha sido ele a quebrar a regra. – continuou – Logo ele, que se rege pela racionalidade e frieza. O meu irmão não é uma pessoa fácil, muito menos agradável, e mantém as relações com as pessoas que o rodeiam no estritamente necessário, nunca mais que isso. Sempre foi de poucas amizades, ainda em rapaz, e não se pode dizer que seja uma pessoa sociável. Receio que essa seja uma das nossas características familiares, o isolamento do mundo. O Francisco vai pelo mesmo caminho, especialmente por ele considerar o António uma espécie de ídolo. Mas tenho medo por ele. O António conserva um distanciamento intelectual do resto das pessoas, também por ter uma mentalidade diferente do normal e se guiar por um código próprio. O Francisco não, e isso vai ser um problema.

            A maneira como a Núria me estava a falar, tão fria e formalmente, pareceu-me quase uma acusação, como se aquilo que ela descrevesse fosse minha culpa. Isso atingiu-me como um soco no estômago, e senti um ardor atrás dos olhos enquanto as lágrimas começavam a juntar-se junto às pestanas.

            - Desculpa, eu não queria incomodar. – disse eu, num sussurro.

            - Não é tua culpa, não interpretes mal o que eu acabei de dizer. Foi só um aviso.

            Com isto, levantou-se graciosamente, apoiando as palmas das mãos no banco de esteira onde estava sentada. Caminhou na minha direcção, inclinou-se sobre mim e depositou-me um beijo pequeno e gentil no topo da cabeça.

            - Dorme bem, boa noite.

            Fiquei sozinha algum tempo, a ser abraçada pela brisa que, naquele momento, me parecia extremamente confortável. Pensei naquilo que a Núria tinha dito, sem saber bem o que significava. Sentei-me sobre as pernas e absorvi o ar salgado. Talvez, quando a manhã chegasse, fosse tudo mais claro.

            No canto do alpendre, onde este encontrava a esquina da casa, observava-me uma figura, completamente escondida pela penumbra. Dois olhos brilharam na escuridão, dois olhos azuis.

 

publicado por Katerina K. às 11:28

OMG, tu deixas-me louca com estes capítulos, pá *.*
Eu ando viciada nisto, completamente. Tu escreves tãããão bem, Flautista (:
Em relação ao teu comentário ... Porque é que disseste aquilo? Achas mesmo? $: Quando é que apareces no msn? Queria falar contigo, pôr a cusquice em dia :b
Beijinhos @
inês. a 17 de Setembro de 2009 às 14:56

Uou! É de mim ou a Núria não é assim tão Santinha? Adorei este capítulo. Óptimas descrições. :-) ADOOOORO A TUA HISTÓRIA!

E de quem eram aqueles olhos?

Beijinhos!
Filipa a 17 de Setembro de 2009 às 18:40

Núria e a sua frieza, elegancia e beleza.
Todos os personagens são formais e comunicam pouco.

Talvez seja o melhor para todos comunicarem com a presença
e alguns olhares.
E são misteriosos, todos eles.

Lindo texto!

Beijos,

Mª. Luísa
M.Luísa Adães a 17 de Setembro de 2009 às 18:48

Mais uma vez, obrigada pela opinião!
Sim, são todos distantes, misteriosos. E isso é o que dá a pimenta à história.

Beijinho flautístico,
J.F.


Eu sei que a estranheza deles, a frieza, a forma de olhar - dão o climax à história.

Alguém , meu inimigo a fazer-se de amigo me disse :

"desceste todos os degraus, chegaste ao patamar quando escrevesre "Amar"

E depois disto eu vou parar!

Ele não sabe que o poeta quando escreve
Sobe degraus, muitos degraus

Só desce, se Deus o manda ajoelhar, para o abençoar!

Por favor, vai ao meu blogs ao poema "Amar" que lá vai ficar, como um
"Símbolo" do que tenho escrito e subido degraus, com esse escrever.

Vai e mostra ao mundo quem somos nós, todos nós.

Beijos,

Maria Luísa

Muito obrigada Joana, és uma querida :) mesmo. Há-de passar tudo. Ler este capítulo conforta-me, sabes?
beijinho*
Sara a 17 de Setembro de 2009 às 21:11

wow. ainda só li este capítulo, mas pela maneira de como está escrito, dá vontade de ler mais. espectacular!
parabéns, escreves mesmo bem :D
e obrigado por leres a minha história ^^

beijinho.
AF a 17 de Setembro de 2009 às 21:23

huum, vou fazer isso.
num fim de semana destes ponho-me a ler :D
AF a 17 de Setembro de 2009 às 21:28

Conforta porque eu embrenho-me nas palavras e esqueço as outras coisas... as descrições, imagino tudo, a mais pequena coisa. distraio-me. viajo e sinto-me longe de tudo, confortavel.
Sara a 17 de Setembro de 2009 às 21:28

não posso concordar mais contigo. é aquela alegria de saber que o mérito de escrever é reconhecido e que as pessoas gostam, é fantástico :D
AF a 17 de Setembro de 2009 às 21:32

podes crer que tem... tu tens um dom, rapariga... é por isso que eu gosto tanto de aqui vir, de ler... ler é fantástico. obrigada eu por me fazeres esquecer as coisas. agora tu nao tens de agradecer, é a verdade, tem de ser dita! ;)
Sara a 17 de Setembro de 2009 às 21:32

tchii, ganhaste um concurso de escrita? espectáculo.
quando concorri para o meu primeiro e perdi, até chorei.
sabes o que é ter aquela expectativa de algo e depois ter a maior desilusão?
mas pronto, continuei a escrever e vou tentar até ter o meu primeiro livro publicado.
isso é o meu maior sonho.
AF a 17 de Setembro de 2009 às 21:39

Setembro 2009
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
11
12

13
16

24
26

28


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

RSS
arquivos
A Banda Sonora dos Rascunhos


MusicPlaylist
Music Playlist at MixPod.com

mais sobre mim
pesquisar
 
favoritos

#5

blogs SAPO