BLOG FECHADO

28
Ago 09

            A mulher que abriu a porta parecia ter sido tirada de um filme de Hitchcock – uma empregada de aspecto imensamente vitoriano, envergando uma sóbria farda negra e com os cabelos envoltos numa touca tão branca quanto o seu avental.

            - Posso ajudar? – a sua voz soou mecânica, mas não totalmente desagradável.

            - Sim, sim, acho que sim. – balbuciei – Estou à procura do António Nuno de Júlio Oliveira.

            Ela respondeu automaticamente, sem hesitar sequer um segundo.

            - O menino António não está em casa. Saiu.

            - Ah, que pena, precisava de falar com ele.

            - Quer esperar ou prefere deixar recado?

            Considerei as opções por um breve instante.

            - Vou esperar.

            - Muito bem, menina.

            Ela afastou-se para me deixar passar e entrei na casa. O interior ainda conseguia ser mais estonteante que o exterior. O vestíbulo, ampla divisão de chão de mármore escuro, era revestido por painéis de madeira polida. Viam-se estátuas, pesadas tapeçarias, vasos de porcelana chinesa aureolados por arranjos florais onde se destacavam as orquídeas brancas e, pendurado no tecto ornamentado, existia um vasto candeeiro de cristal. Deixei-me ficar inerte, observando aquele cenário de rara beleza, rodeado por portas tão discretas que pareciam camufladas. Uma delas abriu-se e a empregada desapareceu no compartimento. Esperei que o vestíbulo ficasse em silêncio, mas não foi isso que aconteceu. Pairava no ar uma música leve, não mais que uma névoa, que reconheci imediatamente: a abertura de «A Flauta Mágica» de Mozart. Passado uns instantes, uma outra porta abriu-se e ouvi uma voz, encarquilhada mas firme, a encher o ar.

            - Menina?

            Levantei o olhar e vi um mordomo, magro e de cabelo branco, a dirigir-se na minha direcção. Também este estava fardado de preto, com as mãos enluvadas pendentes ao longo das pernas curtas. Os sapatos magnificamente engraxados embatiam no mármore com um clac clac característico.

            - Pode fazer o favor de me seguir?

            Assenti, caminhando no seu encalço. Ele conduziu-me àquilo que parecia ser um escritório. As paredes, forradas até ao topo por estantes, estavam repletas de livros do mais diverso tipo. O chão era coberto por um tapete de Arraiolos com um desenho complexo, sobre o qual se encontravam dispostos três cadeirões em frente à lareira. No outro extremo do compartimento, existia uma secretária monumental, revestida por papéis e documentos meticulosamente organizados. O mordomo, com uma vénia, deixou-me sozinha na sala, entregue ao silêncio e ao cheiro ténue do papel e da madeira.

publicado por Katerina K. às 11:57

Primeiro, isto está lindo e muito bem escrito, como já seria de esperar (:
Segundo, obrigada pelo teu comentário. Só há uma coisa em que eu discordo. Não vou conseguir fazer melhor que tu. Não te chego nem aos calcanhares, Joana.
- um beijinho .
inês. a 28 de Agosto de 2009 às 12:14

Nunca digas nunca, meu anjo. :)

Tu és uma querida; sabias? (:

Oh, que fofinha Inezinha. Estou aqui sempre que precisares de mim, e para te ensinar a escrever como eu (ok, isto foi mesmo convencido xD).

Beijinhos flautísticos,
J.F.

Com afirmações assim deixas-me sem palavrinhas e depois venho aqui para responder e deparo-me com o 2º capitulo que está mais uma vez expectacular e me deixa desejoso que o Anjo apareça =3

E isto tudo e mais alguma coisa faz com que eu goste muito de ti Joaninha =$
J a 28 de Agosto de 2009 às 14:09

Olha Joana. Eu tenho que me ir habituando, a olhar-te como uma adulta, bastante bem madura. Tu estás cada vez mais segura do que fazes, ou seja: Tu escreves como alguém que já tem um calo muito bem formada pelo tempo. A tua leitura não se distingue de um escritor de contos, antologias, ou romances, que já tem algumas edições esgotadas. Tu escreves com uma métrica muito bem concebida. Se o que tu escreves estivesse metido entre duas capas e com uma contara capa bem acabada, quem te lesse, não ousaria chamar-te de escritora medíocre, Tu deixas o teu cunho de conhecedora, muito bem vincado. Tens uma outra característica: A tua leitura, não é nem só por um bocadinho, enfadonha, o que é meio caminho andado para cativar os leitores. Eu tenho a noção de que não percebo de livros o suficiente para, poder dizer eu sei do que estou a falar, mas já li muitos livros, eu fui um devorador de livros, li romance, antologias, novelas e contos. E sei ver o que é uma leitura que dá gosto ler, e o que é um livro, que é o chamado maçudo. Não pelo grande tamanho, mas pelo tipo de leitura. Resumindo: Há escritores e alguns até bem cotados na nossa praça, que para dizerem que a batata é um tubérculo, gastam uma folha, A4. Quando mudamos de paragrafo, já não nos lembramos de que tratava o anterior. Olha Joaninha, Confia em ti e nunca desistas. Um abraço Eduardo.
Fisga a 28 de Agosto de 2009 às 15:18

Eduardo,
Uma vez li uma frase de Tchekov que me ficou marcada na memória: que não precisamos de escrever sobre gente extraordinária que leva a cabo feitos extraordinários e memoráveis. Pensei nisto durante dias. Depois, fui escrever, e tudo me saiu de uma maneira diferente. Tentei relatar as coisas que se passavam à minha volta, o mundo em que vivia, os episódios que se desenrolavam na vida mundana. Escrevo sobre pessoas, e não sobre heróis. Isso marcou muito a minha escrita. O estilo é outra história. Mudei muito a minha forma de escrever, porque li muito e coisas muito variadas. Li Christie, li Raymond Carver, li Eça, li Pessoa, li Torga, Vergílio Ferreira, Stephen King, Douglas Preston & Lincoln Child, Wilkie Collins. Li tanta coisa que já nem sei apontar nomes. Em cada um deles, bebiquei alguma coisa, e retive essa migalha no meu íntimo. Fui fazendo o meu estilo desde o momento em que soube escrever. O meu primeiro conto data de 2000. Tinha eu seis anos, quase a fazer sete. A partir daí, ninguém me parou. E ainda estou verde, tenho muito que amadurecer. Pode ser que um dia, um dia daqui a muitos anos, se possa comprar um livro meu nas livrarias. Porque escrevo para as pessoas e não para os críticos.

Abraço flautístico,
J.F.

Está tao bem escrito, consigo imaginar cada cena deste texto :)
Agora estou em pulgas para saber o que vai acontecer a seguir!

Beiijinhoss*
Carolina a 28 de Agosto de 2009 às 16:35

Carolina,
Mais uma vez, obrigada pelos elogios. É convosco que aprendo a ser uma escritora melhor. (e, talvez um dia, maior)

Beijinhos flautísticos,
J.F.

Vou sempre estar aqui para ti Joaninha!!^^
Nem vão dar pela minha falta =D
J a 28 de Agosto de 2009 às 18:34

Gostas da brisa marinha, eu também gosto e muito!

Te peço, por favor, vai ao m/ blogs e chora comigo, se gostas de animais, ao ler o meu
poema "ABANDONADOS" e sente com força em que País nasceste, se és portuguesa!

Agradeço e peço por se tratar da crueldade com que neste lindo Portugal, se tratam os animais (Em 1º. lugar, nesse estilo, na Comunidade Europeia).
Só lá vais se te interessar o assunto, muito conhecido...mas eu vi e não poude deixar de escrever - é o que sei fazer, nada mais!

Mª. Luísa
M.Luísa Adães a 30 de Agosto de 2009 às 09:22

Querida Flautinha,
Passei para te desejar um excelente regresso e dizer-te que não me esqueci de ti... tenho tido pouco tempo e preciso de ler a tua história com calma para depois dar a minha opinião...
Já sabes que adoro a tua escrita...
Beijinho enorme
Ametista a 31 de Agosto de 2009 às 04:35

Ametista,
És sempre bem-vinda. Passa por aqui sempre que puderes. Estamos sempre a contar contigo.

Beijinho flautístico,
J.F.

joana, continuo em pulgas para saber o que vai acontecer a seguir :P
Boa semana :)
Carolina a 31 de Agosto de 2009 às 16:50

Já podes ver! :)

Beijinho flautístico,
J.F.

Adoro as tuas descrições, Flautinha...
E estou a adorar a história...
Beijinhos mil
Ametista a 3 de Setembro de 2009 às 04:35

que lindo :'3
sem palavras para descrever o que está 'aqui' escrito :')

Está lindo, mesmo.
Fii a 4 de Setembro de 2009 às 14:44

Obrigada. É muito bom saber que gostas! :D
Volta sempre.

Beijinho flautístico,
J.F.

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