BLOG FECHADO

14
Jul 09

Eu sabia que o David voltava hoje. Acordei às quatro da manhã, o Afonso a tocar-me freneticamente à campainha. Levantei-me, preguiçosa. Quando vi as horas que eram, praguejei alto e amaldiçoei a mãe do Afonso por o ter posto neste mundo. Abri a janela, gritei para fora para ele esperar por mim, que eu já descia.

                - Que belo pijama.

                - Cala-te, estúpido! Já viste que horas são?!

                - VAI-TE VESTIR!

Aquilo fora claramente dito em maiúsculas, portanto não questionei a atitude estranhamente autoritária que o Afonso tinha adoptado aquela manhã. Fechei a janela, agarrei no que me pareceu ser umas calças de ganga e uma t-shirt. Vesti-me atabalhoadamente, fui à casa de banho pentear-me. A luz do candeeiro ofuscou-me os olhos. Nesse momento, ouvi a Lília.

                - Joana, já estás de pé?

                - Já.

                - Cruzes, a estas horas?! Vai masé dormir, rapariga!

                - Não posso, está aí o Afonso. Eu disse-te que íamos buscar o David ao aeroporto, lembras-te?

                - Ah, isso… Oh, faz como quiseres. Vens para o almoço? Ou jantar?

                - Provavelmente, não.

                - Mas quero-te em casa antes das onze.

Nem respondi. O resmungo do Cláudio disse tudo por mim.

Lá fora, estava um frio gélido. Parecia que estávamos na idade do gelo. Vesti o casaco, beijei o Afonso no rosto. Caminhámos pela rua fora sozinhos, dois vultos de preto refugiados do frio nos casacos e com as mãos nos bolsos, apenas iluminados pela luz amarela dos candeeiros que sabia a néon.

Subimos a minha rua e descemos a seguinte. Na esquina que a casa cor-de-rosa do homem da mercearia fazia com o muro da casa da Dona Rosa «do Trigo» esperava um carro negro, um Audi dos mais recentes. Abrimos a porta, entrámos para os bancos de trás. Lá dentro, vivia-se numa amena temperatura de dezoito graus, e não os dez ou onze que se encontravam na rua. Sorri ao ver o rosto do Hélio no espelho retrovisor.

                - Boa noite. – disse ele, na sua voz meia esganiçada.

                - Sim, realmente ainda é noite. Não tens sono?

                - Há imenso tempo que quase que não durmo. Tenho muito que fazer da minha vida, não me posso dar ao luxo de perder tempo a dormir.

                - Isso é parvo. – resmunguei.

Era óbvio que o café resolvia todos os problemas de concentração e falta de sono do Hélio. Mas tanto eu como ele sabíamos que não dormir era tão saudável como engolir um garfo de trinchar e uma motosserra ligada. Mas o Hélio era o Hélio. E ele não se preocupava nada (ou quase nada) com a saúde. O físico já era outra coisa, apesar de ter o rosto vermelhão e carregado de borbulhas. Relembrei ao Hélio a revolução dos maravilhosos cremes contra o acne que se havia dado já há uns anos. Ele encolheu os ombros largos, fez um som gutural qualquer e pôs o carro em marcha. A Lília e o Cláudio nunca gostaram muito que eu andasse com o Hélio de carro. Eu, pelos vistos, «tinha desejos de morte» e era «sadomasoquista». Ideias da Lília, já que o Hélio tinha a carta há dois meses apenas e gostava de velocidades. No entanto, eu não tinha medo. O pobre do rapaz estava cansado demais para fazer qualquer força excessiva que fosse no acelerador. Além de eu bem saber que o Hélio nunca na vida se atreveria a fazer um arranhão sequer no Audi do pai. Recostei-me confortavelmente nos bancos. Que sono, quase que adormecia. O Afonso começou a falar sobre qualquer coisa, não percebi bem o quê. O Hélio ia-se rindo, dando as suas opiniões de vez em quando. Eu, nem me pronunciei. Adormeci mesmo.

Acordei com um beliscão na bochecha.

                - Afinal está viva. – ouvi.

                - Cala-te. – disse, imperceptivelmente.

                - Vá lá, Jo.

Pus-me em cima das pernas a custo. Esfreguei os olhos e dei o braço ao Afonso. O aeroporto estava cheio. Aquela voz feminina irritante que anunciava os voos fazia-se ouvir. Perguntei ao Hélio a que horas aterrava o avião do David.

                - São quase cinco horas, portanto, se o voo não se atrasar, daqui a muito pouco está aí.

No entanto, o pouco do Hélio não é exactamente pouco. Segundo ele, «dois anos é pouco». Mas o avião de certeza que não levaria dois anos a chegar. Esperava eu.

Eram seis e meia quando o Hélio se inclinou sobre mim e disse que o David tinha acabado de aterrar. No seu hálito conseguia detectar o odor a café, rebuçados de limão e…o que seria aquilo? Ah, um pastel de nata. Lembrei-me que ainda não tinha tomado o pequeno-almoço. O estômago começava a ressentir-se.

                - Hélio, Afonso, tenho fome.

Olharam-me piedosamente.

                - Espera só que o David chegue. Depois podemos comer qualquer coisa em casa dele.

                - Tudo bem.

Nesse momento, vi o David. Estava moreno, e as olheiras pareciam ter desaparecido. Não trazia os óculos, mas antes lentes de contacto, o que lhe fazia o rosto mais largo. Sorria, aflorava-lhe aos lábios um sorriso calmo e bonito, o que fazia dele um indivíduo ainda mais atraente. No entanto, naquele momento, eu estava ocupada não a ver as suas novas características, mas apenas a quedar-me feliz por ele estar de volta. A primeira coisa que fez foi abraçar-me com força, apertando-me contra o seu peito cheiroso e encostando o queixo aos meus cabelos.

                - Bem-vindo.

                - Obrigado.

Cumprimentou tanto o Hélio como o Afonso com um aperto de mão. Na sua maneira, demonstravam o seu mais profundo afecto.

O David, vestido à sua peculiar e distraída maneira, cheirava à Grécia, àquelas comidas estranhas que por lá se fazem. E estava particularmente feliz.

A mãe agarrou-me por um braço. Saudou-me e enfiou-me na mão um pequeno embrulho encarnado. Sorriu e deu-me umas palmadinhas nos nós dos dedos. Achei piada. Pus o embrulhinho ao bolso e não pensei mais nele. Depois daqueles momentos de intimidante melancolia e demonstrações públicas de afecto, estava na hora de voltar à normal inquietação da normalidade. (Sim, o pleonasmo foi mesmo necessário.)

                - Ei! – gritei, ao ver o Afonso, o Hélio e o David a dirigirem-se para a casa de banho dos homens.

Viraram-se os três. Corri o mais que podia e saltei para as costas do David. Rimo-nos da minha recente adquirida puerilidade.

Aproximou-se a mãe do David.

                - Vamos, meninos. Estou mortinha por chegar a casa e fazer-vos um monte de belas panquecas.

publicado por Katerina K. às 12:54

Simplesmente delicioso e não estou a referir-me às panquecas!!

Espero bem que a história continue, tou de férias mas nunca tiro férias de boas leituras!

Tens uma escrita como dizer leve, fresca , floral...´gosto deste cheirinho!!

Bjocas

Sim, a história vai continuar. Felizmente, não ficou por ali :D
Dei os teus cumprimentos ao David, ele agradece. (:

Beijos flautísticos,
J.F.

É Flautista porque toca flauta?
Caravaggio a 19 de Julho de 2009 às 17:33

Espero que nao te importes que te coloque no meu link: Ando a Cuscuvilhar...;)
Voltarei mais vezes...

Força nisso! :D
Volta sempre, serás bem-vinda de todas as vezes! (:

Beijinho flautístico,
J.F.

Bom se não estivesse apostado em descansar um bocadinho, não teria tempo para ler este testamento. O que vale é que se lê muito bem, não é maçuda a escrita. Parabéns pela história, que está muito bem delineada, e muito bem contada, Um abraço Eduardo. prometo voltar, se mais não for, para ver o tamanho do texto, e deixar um abraço.
Fisga a 21 de Julho de 2009 às 16:44

Ahah, o tamanho do texto deve-se às «exigências» de uma das minhas leitoras (:
Ela queixa-se há imenso tempo que escrevo textos pequenos, portanto mudei para grandes. Como podes constatar em posts mais antigos, sou muito adepta dos textos curtos!
Mas é bom saber que se lê bem.
Volta sempre.

Abraço flautístico,
J.F.

Olá Flautista. Eu não contesto de nenhuma forma os gostos de cada pessoa. E é assim. A escrita quando é fluente lê-se sempre muito bem. É o caso do que escreves. Quanto ao chamado tamanho regular ou médio, eu sei que já li em um qualquer lado, sobre como fazer um blog, e dizia que a média boa de um texto é de 18 a 22 linhas. Não quer isto dizer que se tiver mais umas quantas que já não se consegue ler, mas a verdade é que os textos com 10 a 12 linhas são muito mais comentados que os maiores, o que não é também o meu caso, os meus têm sempre ou quase sempre mais de 22 linhas. Mas eu acho que é tudo uma questão de gosto, e quem gosta lê e comenta, quem não gosta pura e simplesmente não lê. Eu se não quisesse nem sequer comentava e nunca mais voltava. Mas confesso, que li, gostei e comentei. Joaninha! Abraço Eduardo.

É engraçado que os meus textos maiores são os mais comentados. Mas tens razão, gostos não se discutem. E se gostas, volta mais vezes. Prometo que te presentearei mais vezes com textos fluentes e de fácil leitura que sejam de crescente qualidade, esperemos.

Abraço flautístico,
J.F.

Olha minha amiga, Joana. Se me permites que assim te trate. Não te habitues, a funcionar em função dos gostos das pessoas que te lêem. Porque aí perdes a tua liberdade. Escreve antes o que, gostas, como gostas e quando gostas. e as pessoas ou te aceitam como tu funcionas ou não te aceitam. Se não te aceitam, tu não precisas seguramente de pessoas que te querem como um instrumento seu, e não como uma pessoa que faz parte de uma colectividade em que as pessoas convivem e não se servem uma das outras. é só um conselho de amigo. Mas nunca deixes a tua opinião em troca de conselhos de amigos. Abraço Eduardo.

Não era essa a intenção do que eu disse. Nunca hei-de mudar em função dos outros, isso está fora de questão. Mas se as pessoas gostarem, melhor. Afinal, esse é o sonho de um escritor. :P

Abraço flautístico,
J.F.

Gostei bastante do que li!
Os meus parabéns pela forma bonita e leve como escreves.
Gosto de ler, e gosto, essencialmente, de leituras que me absorvam de tal forma, que por vezes me esqueço do tempo á minha volta.
Aconteceu aqui com alguns dos teus textos.
Continua :)
Beijinho
Sofia
fairyland a 21 de Julho de 2009 às 18:04

Muitíssimo obrigada pelo elogio!
Só quero que me levem a sério e, se possível, um dia publicar um livro. (:

Beijinho flautístico,
J.F.

Ahm...
Desculpa, mas não compreendi o teu comentário xDDD
Sorry ».«
BRUNA a 21 de Julho de 2009 às 18:59

Oh que querida *.*
Obrigada eu, por teres lido e comentado ^^
BRUNA a 21 de Julho de 2009 às 19:12

Não tens nada que agradecer. (:

Beijinho flautístico,
J.F.

Obrigado pelo elogio no meu blog.
Gostei do li, contas com muita eloquência estes dias (:

Obrigado e espero voltar aqui.
Beijinho*
Em Fá Sustenido a 21 de Julho de 2009 às 21:42

Também espero que voltes! :)

Beijinho flautístico,
J.F.

Estive a dar uma vista de olhos e devo dizer que adorei... continua a escrever...
Cátia a 22 de Julho de 2009 às 14:21

Assim farei! (:
Obrigada pela visita.

Beijinho flautístico,
J.F.

Olá Joana.
Flautista... tocas flauta, é?
Olha, só para dizer que gostei bastante da tua escrita clean, jovem e fleunte. Lê-se muito bem.
A história é verdadeira ou imaginada?
Continua e, se gostas mesmo do mundo da escrita, vai em frente!

Beijinhos e obrigada pela visita lá no meu estaminé. Voltarei!
Júlia a 22 de Julho de 2009 às 17:14

Flautista vem do facto de tocar flauta, sim. (: Transversal.
Bem, muito pouco do que aqui escrevo é imaginado. Os posts que indicam «Escritas» são as minhas produções fantasiosas. De resto, apenas relato.
Passarei mais vezes pelo teu cantinho.

Beijinho flautístico,
J.F.

Conheces "That I would be good" de Alanis Morissette? Há lá um trecho tocado com flauta transversal por ela mesma. Simplesmente arrepiante. Adoro o som da flauta transversal.

Eu toco muito melhor que isso :b

Beijinhos flautísticos,
J.F.

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