BLOG FECHADO

10
Jul 10

A partir de agora, estou aqui:

 

http://capitulodois.blogs.sapo.pt/

publicado por Katerina K. às 10:35

09
Jul 10

 E se eu abrisse o blog novo já este fim-de-semana, hã?

Era uma boa ideia, digo eu. Até porque já ando a trabalhar numa história nova («The Portrait Club») e até precisava de um sítio para aparvalhar. Este, coitado, já deu tudo o que tinha a dar.

A sério, estou mesmo com vontade de o abrir. Eu sei que prometi para dia 16... Damn, sou mesmo má a cumprir promessas.

E se abrisse AMANHÃ?!

Tell me your thoughts. I need thoughts.

 

publicado por Katerina K. às 16:35

04
Jul 10

Estive a pensar.

No último post disse «no more stories».

Pois bem, not true. More stories.

publicado por Katerina K. às 13:31

02
Jul 10

I will be back.

Sim, vou voltar. Não hoje, não amanhã. Mais precisamente dia 16 de Julho, o dia em que comemoro o meu 17º aniversário. No entanto, este blog vai continuar inactivo, porque vou criar um novo. Nova fase, novo blog. Até lá, vou entreter-me a criar um blog novo (se bem que não tenho grande jeito para a coisa, quem quiser ajudar, que se voluntarie; eu agradeço imensoooooo). O blog vai ser diferente deste. No more stories. Maybe once in a while.

 

Até breve,

C.

publicado por Katerina K. às 16:53

15
Jun 10

03/04/2008 - 15/06/2010

 

Acaba hoje uma jornada bloguística de mais de dois anos. Esta acção tem a suas razões, muitas das quais pessoais. Não digo que um dia não volte; mas parece-me que já tirei tudo o que podia deste mundo. Agradeço a todos os que me acompanharam nesta caminhada, a todos os que me leram, a todos os que gostaram do meu trabalho e me apoiaram. Tentei fazer o meu melhor para ajudar muitos que aqui andam, ou andavam, perdidos. Deixo o meu agradecimento especial à Inês, ela sabe porquê. Quando a encontrei, por aqui, ela era um passarinho recém-nascido, meio perdido num mundo grande demais para qualquer um de nós. De certa forma, «adoptei-a». E ela já há muito tempo voa sozinha com asas maiores que as minhas.

Aprendi muito, por aqui. Aprendi a ser mais pessoa, mais escritora, mais mulher, mais cidadã, mais amiga, mais irmã, mais fotógrafa, mais estudante, mais filha, mais eu. Descobri sítios novos dentro de mim. Esta página, e vocês, viram-me crescer. Não tenho como agradecer. No entanto, manter o blog é, para mim, insustentável. Vou deixar todos os posts aqui, para quem quiser consultar, relembrar, reler. Cada palavra vossa é um abraço, um beijo, um olhar com um sentimento sempre diferente.

Deixo, como prólogo de tudo isto, um pedaço de um projecto antigo:

 

«Lembra-te de mim quando eu estiver ausente. Lembra-te de mim quando só houver luz. Lembra-te de mim quando o céu te sorrir. Encontra o mais profundo de ti e eu lá estarei à tua espera. Quando saíres de casa, leva sempre o coração no bolso, e duas moedas; leva sempre uma vela e uma caixa de fósforos, porque nunca sabes se a esperança pode fugir; leva uma corda e ata-a aos sonhos. Deixa a tua força debaixo da almofada nos dias em que quiseres ser frágil. Custa-me admitir que às vezes só tu é que existes. Custa-me a admitir que tens razão; e as minhas palavras são esmagadas pelos teus olhos. Por isso, vou-me embora. Vou sentir-te todas as noites entre os lençóis. Não sei porque sou assim, mas o meu olhar vai mais longe. Longe demais. E por isso vou ver-te todos os dias, quando as janelas estiverem todas abertas e o ar da noite for tão frio que traga o Inverno consigo. Agora, podes ser livre. Promete-me que, sempre que voares para cima das nuvens nos dias de chuva para veres o sol, levas a minha memória contigo. E que vais ser feliz.»

 

Sejam felizes.

Um beijo,

 

Catarina Costa      15/06/2010     10:11

publicado por Katerina K. às 10:11

29
Mai 10

D

uas palavras. Deixaste-me apenas um copo vazio e duas palavras escritas no canto de um jornal, como que a pedir para virar a página. Vou voltar. Sim, tu voltavas sempre, mas, desta vez, eu sabia que demoraria mais tempo. No entanto, eu não fiquei irritada por te ires embora. Fiquei irritada por não teres deixado o copo na pia, em água, como eu sempre te pedia. Arrumei a garrafa do rum atrás dos pratos que tinham sido da minha avó e disse a mim mesma que me esqueceria da sua existência.

Vou voltar. Quando voltares, eu vou ouvir os teus passos no alpendre, cansados e lentos. Vais esperar um momento; vais pensar se eu estarei em casa. Vais tocar à campainha e eu vou ficar um momento à espera, só a respirar o ar que ainda não tem o teu cheiro nem a tua presença, com as mãos no colo e os lábios cerrados. Vou pensar que a vida é curta demais. Então, abrir-te-ei a porta; e aí terás voltado.

 

E

ra a primeira manhã de Janeiro; caía uma chuva miúda e incisiva no vidro da janela, como se ela mesma fugisse do frio e da invernia. Um feixe de luz cinzenta desenhou uma linha de claridade entre as cortinas do quarto e Isabel abriu os olhos. A primeira luz matinal de Janeiro tinha chegado e, com ela, as últimas folhas brancas e mortas largavam os galhos das árvores para serem caixão dos passos vagabundos e barcos no mar de lama que flutuava sobre as pedras da calçada. Isabel levantou-se com dificuldade e procurou o caminho na penumbra. O quarto, por alguma razão, parecia-lhe mais comprido, mais atafulhado, menos seu. Abriu a porta e olhou em volta, como se estivesse à procura de um filho perdido, mas apenas viu o longo corredor, ladeado de portas estreitas, atravessado por uma corrente de ar fria e metálica que lhe regelava os tornozelos. A chuva murmurava com as janelas e elas respondiam com sombras translúcidas nas paredes. Só havia chuva; e uma formiga no último degrau das escadas. Isabel fechou a porta e sentou-se na cama, com as pernas flectidas, a observar a linha luminosa que cortava as cortinas ao meio e parecia a porta para o Céu.

Hoje, não consigo ouvir a voz das paredes.

As coisas falavam com ela, especialmente no Inverno, quando a vida se esconde e o que restam são os objectos melancólicos e inanimados à procura de calor humano. Durante o Inverno, até Henrique se escondia dela, mas mais longe, noutro leito. Um leito perfumado e quente, macio de juventude, repleto de palavras cálidas e silenciosas banhadas em ouro e encarnado. Palavras que Isabel não conhecia, mas que sabia que existiam. Deitou o rosto na almofada, ainda quente, e expirou pela boca. Apoiou-se no flanco e a madeira da cama rangeu ligeiramente, como um protesto sonolento e pesaroso. Não iria voltar a adormecer, mas podia passar um momento com o único objectivo de não pensar em nada a não ser nos pequenos salpicos de chuva que fustigavam a janela.

 

 

 

(Fora da história «Atrás da Porta». Apenas para tirar o pó ao blog.)

publicado por Katerina K. às 14:00

11
Mai 10

Camryn Sanders verificou que a casa de Maureen se mantinha exactamente igual, imponente no seu esplendor polido e forrado a sedas e veludos. As paredes cobertas de papel de parede cor de vinho, o piano, a lareira carregada de fotografias e bibelôs, o retrato da avó Ward, o cadeirão de costas para a janela, as extensas prateleiras vergadas pelo peso dos livros, o divã negro encostado à parede. Tudo exalando a calidez e o perfume adocicado de Maureen. Camryn deitou-se no divã, cruzou as pernas nos tornozelos e as mãos sobre a barriga. Podia descansar, por um momento.

Marcus nunca deixava de ficar surpreendido com a incrível arrumação que Maureen impunha nos seus domínios. As superfícies meticulosamente limpas, sem um vestígio de pó; o cheiro fresco da limpeza planava no ar. Interrogou-se como ela conseguiria manter a casa naquele estado e ainda também ela se apresentar perfeitamente arranjada, dentro dos longos vestidos clássicos que ela tanto gostava de usar, quase numa antítese ao mundo moderno.

- Como está ele? – perguntou Camryn, sem abrir os olhos e mantendo uma expressão impenetrável.

- Bem. – respondeu Maureen – Apenas cansado, como é costume. Chegou ao princípio da tarde, trocámos meia dúzia de palavras e ele foi-se deitar. Nem sequer quis almoçar.

- De esperar. Sabes que ele quando pode dormir, aproveita. Não perde tempo a comer.

Maureen inclinou a cabeça num gesto de concordância.

- Mas, - continuou Camryn – agora que aqui estamos, podias ir chamá-lo. Já dormiu o suficiente para aguentar uma conversa. Mais logo dorme mais.

- Muito bem. Vou acordá-lo.

No entanto, Maureen viu-se ser envolvida por um braço poderoso que a impediu de se mover. Camryn sorriu ao sentir um intenso odor melífluo a colónia de homem.

- Olá, Bryant.

Maureen estava presa no abraço de Bryant Kiernan, no alto, belo e imenso Bryant Kiernan. Marcus observou-o enquanto ele passava a mão pelo reluzente cabelo negro penteado para trás e focava os olhos castanhos na silhueta de Camryn, deitada sobre o divã.

- Viva, Cam. E Marcus.

Ela abriu os olhos e virou a cabeça na direcção dele.

- Não me pareces nada sonolento.

- Dormi bem. Também tenho direito, ou não?

- Claro que tens. – replicou ela, com um sorriso.

Bryant caminhou na direcção dela, estendeu-lhe a mão e ergueu-a como se não tivesse peso. Camryn fitou-o, com uma expressão séria, ainda que calma. Ficou um momento com os olhos fixos nele, a medir-lhe as feições, a perder-se no olhar castanho e dourado sem fundo que conduzia ao seu negro interior. Então, ergueu lentamente a mão e passou o indicador pela pele macia e cálida de Bryant, contornando as linhas curvas do seu rosto, a ponte do seu nariz curto, as fronteiras da testa ampla, as pálidas maçãs do rosto. Era como se estivesse a mergulhar a mão numa taça de mármore líquido, quente e envolvente que lhe sugava o braço de forma insistente. Recolheu a mão com um movimento rápido. Ele sorria, mantendo-se fixo num ponto dos olhos de Camryn.

Marcus mexeu-se imperceptivelmente. Ficava inquieto sempre que Bryant e Camryn se encontravam. Havia algo de errado na maneira como eles se olhavam, na maneira como se tocavam. Marcus sabia que o que havia, ou tinha havido, entre eles era mais complicado do que alguém poderia alguma vez compreender.

Bryant debruçou-se sobre ela e depositou-lhe um beijo quente nos lábios. Ela fechou os olhos e agarrou-o pelos braços, sentindo-o a contrair-se como se estivesse nervoso. Sabia que só o podia beijar uma vez em cada três meses, quando ele voltava das suas viagens para passar duas noites com eles, em casa de Maureen. Enquanto sentia o sabor dele, pensou se desta vez ele ficaria mais tempo. Talvez ficasse. Esse pensamento trazia-lhe alguma paz de espírito, por alguma razão.

Ele afastou-a suavemente de si e sorriu.

- Agora, sim. Olá, Camryn.

Maureen encostou-se à parede, lançando um olhar a Marcus. Subitamente, tinha ficado extremamente pálido, quase amarelado, com os olhos pregados no chão e os dedos nervosos a fazer desenhos sobre a ganga das calças. Ele ficava sempre intimidado frente à forte presença de Bryant. Mas Maureen entendia-o. Bryant exalava algo que era mais que poder; exalava uma aura fria de algo que ela receava. Baixou os olhos. Impressionava-a como Camryn se mantinha alheia à desconfiança que ele causava neles. Como Marcus lhe dissera, haviam razões para tal suspeitas. Bryant não era como eles. O medo sempre levara a melhor.

- Bem, - disse Bryant, sentando-se no divã, ao lado de Camryn – comecemos por discutir o facto de vocês estarem a ser seguidos.

 

publicado por Katerina K. às 14:48

04
Mai 10

Maureen Ward envolveu lentamente a mão na longa cortina de veludo vermelho e espreitou pela fresta de claridade que se afigurava no mar de tecido escarlate. A estrada de acesso à casa mantinha-se deserta, coberta pela sombra quente dos carvalhos, estendendo-se até desaparecer nas bocas do nada. A imobilidade das coisas inquietava-a. Estava tudo demasiado silencioso; àquela hora, já as rodas do Porsche 916 de Camryn deviam estar a levantar poeira nas imediações da casa. No entanto, a única coisa que se mexia era Wilson, o pequeno pisco-de-peito-ruivo que saltitava no poleiro da gaiola branca ao canto da sala. Piou timidamente.

- Eu sei, Wilson. – disse Maureen, em voz baixa – Concordo que eles já cá deviam estar há bastante tempo.

Com as mãos pálidas, alisou a saia do vestido negro, enterrando os dedos nas dobras do pesado tecido. Poucas vezes na vida tivera Maureen de esperar por o que quer que fosse. Fora educada pelas severas regras da pontualidade inglesa, habituada a respeitar e a que respeitassem os horários impostos. Olhou nervosamente para o relógio – já passavam dez minutos da hora combinada.

Maureen Ward era uma filha da civilização. Nascera em Nova Iorque, mas fora criada pela avó inglesa que só saía de casa para ir comprar ao Domingo, no quiosque do quarteirão, o The Observer, o qual era semanalmente encomendado apenas para ela. Por alguma razão, desenvolvera um caso ligeiro de aletrorofobia – um medo anormal e irracional de galinhas – e uma certa aversão a pessoas. No entanto, a idade adulta trouxera-lhe lucidez e, apesar de manter a sua aletrorofobia, aprendera a suportar a sociedade. De qualquer forma, insistia em manter um certo distanciamento ao resto do mundo e isso, mesmo não intencionalmente, trouxera certos benefícios, tendo em conta aquilo que sabia, as coisas que vira e tudo em que acreditava. Aquela casa, entre os carvalhos, era o seu refúgio, o local onde partilhava, com a diminuta «comunidade» a que pertencia, as suas experiências. E quando a sua «comunidade» se atrasava daquela maneira, Maureen não reagia de forma graciosa.

Passando em frente ao espelho, dedicou um minuto a verificar a perfeição do penteado. Depois, acomodou-se no alto cadeirão de braços disposto de costas para a janela e acariciou o grosso volume de Guerra e Paz pousado sobre a mesinha. Mal tinha aberto o livro e tido tempo para se deliciar com o cheiro de papel antigo quando o deslizar característico das rodas do carro de Camryn lhe chegou ousadamente aos ouvidos.

Finalmente, pensou.

Abriu a porta a tempo de ver a densa nuvem de poeira assentar, mostrando o brilho intenso do Porsche 916, refulgindo através da sua macia e estaladiça camada de tinta azul. A figura de Camryn, a qual parecia ter aparecido de forma mágica entre a poeira, apenas se moveu para tirar o cigarro de entre os lábios e fazer os óculos de sol redondos deslizar pela cana do nariz. Marcus Donner, na sua eterna e, ainda que atraente, desajeitada maneira de se mover, abriu a porta do carro e saiu, fechando os olhos para o pó não o incomodar.

Maureen permitiu-se a um momento de observação. Camryn Sanders era, sem dúvida, das pessoas mais fascinantes que alguma vez conhecera. Os lustrosos cabelos negros, os olhos azuis e a pele morena faziam com que se destacasse no meio da multidão. No entanto, os belos traços físicos eram apenas um prenúncio da sua excêntrica personalidade. Era directa, forte como um homem, determinada a acabar tudo aquilo que pudesse ter um fim. Reparou no pequeno sorriso que se lhe formava por baixo da sombra circular dos óculos.

- Olá, Maureen.

- Finalmente chegaram. Vocês sabem que se há coisa que odeio é esperar. Porque é que me torturam assim?

Sem uma resposta, Camryn envolveu os ombros da mulher com o braço e beijou-a no rosto.

- Culpa minha. – disse Marcus, baixando a cabeça – Fiquei demasiado tempo na Casa.

Maureen assentiu.

- Calculei. Entremos.

Camryn tirou o casaco e atirou-o para cima do ombro, pendurando os óculos no decote da camisola. Entrou como se a casa fosse sua, sem parar para falar.

- Ele já chegou?

Maureen ajustou a gola do vestido ao pescoço e suspirou.

- Sim. Está lá em cima, no quarto, a dormir.

A outra emitiu um som de assentimento.

- Sempre o mesmo.

Marcus entrou no seu encalço e fechou a porta atrás de si. O batente em forma de leão ressaltou na madeira duas vezes até se quedar de novo imóvel na sua majestade.

Por um minuto, manteve-se o silêncio. Depois, um restolhar de folhas e estalar de madeira ressoaram. Na escuridão do lusco-fusco, entre dois troncos grossos de carvalho, brilharam dois olhos negros, imóveis, cruéis, cheios de morte. Dois olhos que furaram o ar e se fixaram na janela coberta de cortinas escarlates de veludo, as quais deixaram entrever a figura delgada de Camryn Sanders. Dois olhos que sorriram.

publicado por Katerina K. às 22:06

03
Mai 10

Este é o meu novo trabalho, Atrás da Porta. É uma coisa diferente de tudo o que escrevi até agora, de um domínio mais...irreal. Não desvendo mais; gostava de manter algum mistério. Desta vez, não deixo prólogo. Acho que a história fala por si. Aqui vai o primeiro capítulo:

 

 

 

Camryn abriu a janela do carro e lançou a cinza do cigarro para a estrada com um movimento curto e incisivo. Recostou-se no banco, soltando um suspiro lânguido, e passou a ponta dos dedos pela superfície couraçada e opaca do volante. Aquele fim de tarde, por alguma razão, parecia-lhe especialmente amargo. Pelo espelho lateral, observou minuciosamente a estrada que ficava para trás, húmida e magra, sozinha, ladeada por pinheiros e duas fitas de tinta branca, banhada pelo brilho púrpura do crepúsculo. Estava tudo imensamente imóvel e silencioso, mas, ainda assim, livre da esterilidade das coisas aborrecidas. Camryn olhou-se no reflexo do espelho retrovisor, como se quisesse verificar que o seu rosto continuava ali. Levou o cigarro aos lábios e soltou uma longa fumaça branca por entre os dentes que se alongou preguiçosamente no ar cálido, escondendo-lhe o rosto moreno e os grandes e pestanudos olhos azuis. Perguntou-se, hesitantemente, porque é que Marcus estaria a demorar tanto; não era costume. Girou a chave na ignição; o motor rugiu roucamente, o que ela achava delicioso. Imediatamente, a luz amarela do rádio acendeu-se.

- …é por isso que acho que as coisas não deveriam ser assim. A religião é uma coisa a ser preservada e cultivada. Faz parte da nossa cultura há séculos. As gerações mais novas escolhem agora afastar esse legado, isolar-se do mundo espiritual. Eu culpo os pais, por não saberem incutir-lhes a boa tradição cristã.

Padre Mill, pensou Camryn, ao ouvir aquela voz grave, sonolenta de whiskey, Não sabe do que fala. Pobre homem.

Debruçou-se para mudar de estação. No entanto, nesse momento, a porta do carro abriu-se e o corpo de Marcus Donner caiu pesadamente sobre o banco dianteiro com um silvo de tecido. Camryn esmagou o cigarro no volante e atirou-o pela janela de forma impaciente, enquanto soltava um última nuvem de fumo e perguntava, irritada, porque é que ele demorara tanto. Marcus cruzou os braços.

- Sabes como ele é.

- Sei. Também sei que, se não nos despacharmos, não conseguimos chegar a tempo a casa. A Maureen não gosta de esperar.

- De facto, não.

Ele passou os dedos pelo cabelo castanho que lhe roçava a pele e fazia parecer que era um homem sem sobrancelhas. Camryn baixou o olhar. Era complicado fazer Marcus perceber que os horários existiam para ser cumpridos e que a paciência, apesar de flexível, tinha os seus limites. Fitou-lhe o rosto magro e pálido, o nariz patrício, a expressão de suprema calma e tranquilidade que lhe enchia a compleição de uma luz branca. A única palavra que se lhe formava na mente era incorrigível. Arrancou.

A estrada corria friamente, fugindo debaixo das rodas do carro, como a asa negra de um corvo com medo da noite. Os pinheiros foram desaparecendo, dando lugar a uma paisagem árida e áspera dominada por uma imensidão de rochas cor de palha. Faziam o seu caminho para sul; o sol, grande círculo cor de cobre, mergulhava na camada invisível e trémula de calor que se erguia sobre o horizonte seco, explodindo na majestade dourada que só era sua perto da morte.

Tinham-se mantido em silêncio, a ouvir os devaneios roucos da voz que provinha do rádio, quando Marcus se mexeu no seu lugar.

- Padre Mill? – perguntou, apontando o aparelho.

- Sim. – respondeu Camryn, com um suspiro derrotado.

- Nem sei como ainda dão tempo de antena a esse homem.

Ela encolheu os ombros.

- Os crentes gostam de o ouvir. Aposto que, numa casinhota qualquer, estão três velhinhas com um cobertor sobre as pernas a concordar religiosamente com o que ele diz.

- Vá lá, Cam, nós somos crentes.

- Não dessa maneira.

A vida ensinara-lhe que as crenças não eram mais que frutos da experiência. Quem não conhecesse nada, que nunca tivesse visto nada, acreditava em qualquer coisa que lhe fosse dita, por muito irracional que pudesse parecer. No entanto, maior parte das pessoas, condicionadas pelas palavras de oradores experientes como o Padre Mill, acreditavam naquilo que os outros queriam que elas acreditassem. Talvez isso facilitasse o trabalho deles, pensou Camryn, enquanto procurava o maço do tabaco no bolso do casaco.

- Quando será que vamos ter férias? – perguntou Marcus, enquanto fechava os olhos.

- Que pergunta inútil, homem. Sabes tão bem como eu que há, e sempre haverá, trabalho a ser feito. A vida que escolhemos não é para brincadeiras, muito menos para descansos. Se queres férias, então é melhor desistires.

- Melodramática.

Ela desligou o rádio.

- Idiota.

Marcus sorriu e os cantos dos seus olhos cerrados elevaram-se ligeiramente, dando uma forma curva à linha das suas pestanas.

- Acorda-me quando chegarmos. – pediu ele, em voz baixa – Matava por um pedaço de tarte.


 

 

 


publicado por Katerina K. às 14:38

30
Abr 10

«Leni já não conhecia a pessoa que dormia na sua cama. Havia cordas entre eles, e as estradas morriam mais cedo nas calçadas secas e polvilhadas pela areia rasteira que os pássaros traziam nas asas.»

publicado por Katerina K. às 15:25

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